DESASTRE PROGRAMADO

Compartilhe

O novo normal do Acre: viver entre enchentes, fumaça e secas extremas

O rio Juruá, em Marechal Thaumaturgo, setembro de 2023: eventos climáticos extremos passaram a atingir o Acre com cada vez mais intensidade e intervalo de tempo menor, afetando a população das cidades, das florestas e do campo com secas severas e grandes alagações (Foto: Alexandre Cruz Noronha)



No Acre, enchentes, secas e queimadas passaram a ocorrer em intervalos cada vez menores. Em 36 anos, o estado registrou 254 eventos climáticos extremos. Pesquisadores alertam que a frequência dos desastres aumentou, a crise já afeta a saúde física e mental da população e um novo episódio de El Niño pode agravar o cenário.



Tatiane Sousa
dos varadouros de Cruzeiro do Sul

Imagine uma família que acabou de passar por enchentes consecutivas, teve sua casa alagada, perdeu móveis, ficou sem água potável, sem energia elétrica e precisou ir para uma escola improvisada como abrigo. Retornou à sua casa após a vazante, recebeu galões de água mineral, colchões e cestas básicas da prefeitura.

Pouco tempo depois, com o fim do inverno amazônico, teve que enfrentar a estiagem, junto com as altas temperaturas, as queimadas e a poluição do ar. Na zona rural, é comum ficar sem água potável para beber porque a cacimba e o poço da comunidade secam. Crianças são acometidas por doenças reiteradas vezes por conta da má qualidade da água. E no ano seguinte, inicia-se tudo outra vez.

Essas cenas não são situações hipotéticas. O Acre consolidou uma rotina de emergência climática que pesquisadores já classificam como o “novo normal”, marcada por uma aceleração drástica na frequência de desastres. Em um período de três décadas e meia – 1987 a 2023-, o estado registrou 254 eventos climáticos extremos. O ‘antigo normal’ se dava em torno de extremos que aconteciam de dez em dez anos. A partir de 2010, esses fenômenos passaram a ocorrer com intervalos cada vez menores, muitas vezes atingindo a população de diferentes formas no mesmo ano.

E quando se olha para a causa, ao contrário do que sugere o senso comum, que frequentemente aponta pequenos agricultores ou indígenas como culpados, os dados revelam uma realidade diferente: 60% das queimadas no estado ocorrem em áreas de pastagem. Esse cenário evidencia que o manejo da pecuária, muitas vezes realizado sem a devida assistência técnica ou alternativas tecnológicas, está no centro da crise ambiental e de saúde pública que hoje asfixia a população acreana durante os meses críticos do verão amazônico – entre agosto e setembro.

São inúmeros os efeitos drásticos dos extremos climáticos que passaram a afetar milhares de famílias acreanas de forma mais intensa, estabelecendo a rotina da emergência climática como o novo normal. Não se trata apenas de uma problemática ambiental, mas também de uma questão social e de saúde pública. Essa repetição, ano após ano, gera traumas e desgaste emocional, indo muito além das perdas materiais e provocando também sofrimento psicológico.

Foi para entender os impactos dos eventos climáticos extremos sobre a população, as projeções para um novo episódio de El Niño e a importância da ciência para compreender o que está mudando no Acre, que Varadouro esteve no Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), da Universidade Federal do Acre (UFAC), em Cruzeiro do Sul, onde conversou com a professora Dra em Ciências de Florestas Tropicais Sonaira Silva, uma das principais pesquisadoras das transformações ambientais na Amazônia Sul Ocidental, e com o professor Dr em Ciências de Florestas Tropicais da Ufac, Willian Flores, que trabalha com o monitoramento da qualidade do ar.


Acre, de um extremo a outro; à esquerda, populaão de Cruzeiro do Sul afetada pelas constantes e intensas alagações do rio Juruà. À direita, o rio Acre em suas estiagens críticas que comprometem a segurança hídrica de metade do estado (Fotos: Paulo Henrique Costa e Alexandre Cruz Noronha)




Um Acre de extremos em seu clima


Os pesquisadores identificaram uma mudança no comportamento desses fenômenos. Entre 1987 e 2023, o Acre registrou 254 eventos climáticos extremos. Desse total, 60% foram incêndios florestais e queimadas em áreas desmatadas, 33% corresponderam a enchentes e 6% a crises hídricas. Mas a partir de 2010, eles passaram a ocorrer com mais frequência e tornou-se cada vez mais comum que diferentes desastres atingissem o estado em um mesmo ano.



“O problema é a velocidade com que isso vem acontecendo. Não é mais só aquela coisa ambiental, de proteger a floresta porque ela é importante pro clima, mas porque está afetando a vida cotidiana das pessoas. Isso inclusive tem gerado problemas de saúde mental e é importante que tenha assistência de saúde mental para as pessoas atingidas por desastres”, afirmou Sonaira.


Os decretos publicados desde 1987 também mostram uma mudança na resposta do poder público. Até 2015, as medidas adotadas concentravam-se na assistência às famílias atingidas, com a distribuição de água potável, cestas básicas, colchões e a instalação de abrigos. Nos últimos dez anos, porém, os decretos voltados diretamente à saúde passaram a representar mais de 40% do total, refletindo o avanço dos impactos sobre a saúde humana.

De acordo com Sonaira, “não é uma recuperação fácil”. “Por exemplo, se uma pessoa enfrenta uma alagação numa área de risco de deslizamento, a casa dela toda vai embora. Até reconstruir… E por vezes no ano seguinte alaga de novo. Gera um transtorno na vida social, tem o custo financeiro que as pessoas investem para reconstruir suas vidas. É um trauma muito grande para essas famílias”, diz a pesquisadora.

“As pessoas vivem o desastre ano após ano e elas tentam se reerguer. Além de se reerguer por conta de uma doença, um trauma familiar, a perda é material e emocional, porque às vezes ela já não pode morar na casa que ela sempre morou, que ela cresceu, viu os avós. Então tem esse ponto importante que precisa ser falado”, completa.

É importante lembrar que neste ano, vários municípios do Acre enfrentaram cheias consecutivas. Em Cruzeiro do Sul, a população acabou de vivenciar cinco alagações, sendo a última considerada a terceira maior já registrada. Até pouco tempo atrás, secas, queimadas e enchentes, ocorriam em intervalos de aproximadamente dez anos, permitindo que a natureza e a sociedade tivessem tempo para se recuperar.

Hoje, esse intervalo diminuiu. A repetição desses desastres expõe a população, de forma contínua, a doenças como diarreia, leptospirose, infecções intestinais e problemas respiratórios, além de sobrecarregar postos de saúde e hospitais. Uma crise que afeta, sobretudo, as populações mais pobres nas periferias das cidades e em comunidades da zona rural – num claro retrato do que costuma se definir como racismo ambiental.

A ocorrência de enchentes e secas limita o acesso à água potável, tornando-se um dos principais problemas enfrentados pela sociedade. Quando os rios transbordam, poços utilizados para o consumo são contaminados, atingindo bairros urbanos, aldeias indígenas e comunidades tradicionais. Já durante a estiagem, a situação se inverte: os poços secam, como ocorreu no Miritizal em 2024, área de várzea do rio Juruá e um dos bairros mais populosos de Cruzeiro do Sul.


El Niño em 2026

O período de estiagem já começou e, com ele, aumenta a preocupação sobre os possíveis impactos de um novo episódio de El Niño no Acre.


Segundo a pesquisadora, ao olharmos para 2016, encontramos um importante parâmetro para entender a preocupação com o que prevê o ano de 2026. Dez anos atrás, o Acre enfrentou um dos maiores episódios de El Niño já registrados, conhecido como “El Niño Godzilla”. O estado contabilizou mais de 30 mil hectares atingidos por incêndios florestais, além de milhares de hectares de queimadas e desmatamento.


LEIA TAMBÉM:

Após inundações, Acre pode ser impactado por mais uma seca severa; cientistas emitem alerta



Onde há fumaça, há fogo

Com a intensificação do período de seca na Amazônia, com temperaturas cada vez mais altas e a ampliação do número de dias sem chuvas, queimadas usadas na agricultura saem do controle e invadem a floresta, ampliando os impactos do fogo (Foto: Agência Brasil)




Desde 2019, os episódios de queimadas passaram a ocorrer com maior frequência no Acre. Ao mesmo tempo, o monitoramento da qualidade do ar permitiu que a população compreendesse melhor o nível de poluição ao qual estava exposta. Em 2024, a fumaça provocou uma crise marcada pelos altos índices de poluição do ar, nos levando a refletir sobre como proteger crianças e adolescentes nas escolas, e trabalhadores que passam o dia em áreas abertas.

“O ano de 2024 foi o exemplo de como nós não estamos preparados. Será que com as queimadas, se este ano acontecer o mesmo nível de fumaça, a gente já sabe o que fazer com as crianças? E com os trabalhadores que passam o dia na rua?”, indaga Sonaira Silva.

De acordo com o Atlas do Fogo do Estado do Acre, um dos inúmeros estudos publicados pelo LabGama, a Amazônia já está, em média, 1 °C mais quente e registra uma redução de 17% nas chuvas entre agosto e outubro, o que é intensificado em anos de seca extrema. O grupo identificou ainda que, após 30 dias consecutivos sem chuva, a floresta entra em condição de alerta máximo para a ocorrência de incêndios florestais.

E diante da previsão de um El Niño de forte intensidade, os pesquisadores alertam que quem utiliza o fogo para o manejo de áreas deve redobrar os cuidados, já que a combinação entre estiagem prolongada, altas temperaturas e baixa umidade aumenta o risco de incêndios florestais.

Quem queima no Acre

Embora a opinião pública e discursos políticos por vezes culpem o pequeno agricultor familiar ou os indígenas pelas queimadas, dados do LabGama mostram que 60% do que queima no nosso estado são áreas de pastagem. E ainda que existam iniciativas que invistam no uso de tecnologias para aumentar a produtividade e reduzir o uso do fogo, apenas uma pequena parcela dos pecuaristas do Acre utiliza essas ferramentas.

Essas propriedades investem em inseminação, melhoria genética do gado e da pastagem, assim como na rotação e adubação da pastagem. No entanto, a grande maioria dos pecuaristas do Acre é composta por pessoas que saíram da agricultura, não possuem capacidade ou assistência técnica e, por isso, continuam utilizando o fogo para manejar o pasto. Para os cientistas do LabGama, qualquer plano de ação eficiente precisa trazer o setor agropecuário para o centro do debate, oferecendo alternativas técnicas ao uso do fogo.


Sem acesso a tecnologias e desamparados pelo Estado, pequenos e médios produtores ainda fazer uso do fogo para limpar suas pastagens e roçados durante os meses críticos do verão, agravando a crise ambiental com a poluição extrema do ar e risco de incêndios florestais (Foto: Fabio Pontes/Varadouro)



E nesse contexto todo, o que acontece quando o fogo avança sobre a floresta?

Os monitoramentos realizados mostram que 90% das árvores atingidas pelo fogo morrem ainda no primeiro ano após o incêndio. Em áreas da Amazônia monitoradas há cerca de 40 anos, a vegetação atingida pelo fogo continua diferente da floresta original. É provável que o processo de regeneração possa levar até mesmo séculos.

Estamos diante de um ponto de inflexão num cenário em que eventos climáticos extremos se tornam cada vez mais frequentes.

“A gente já tá nesse ponto de não retorno da vida que a gente tinha antes. É o apocalipse? Não vai ser, não é o apocalipse. A gente não vai morrer, a gente vai realmente ficar aqui com esse mundo muito diferente, um mundo que está doente”, pondera Sonaira.

A importância da pesquisa científica


Além de estudar os impactos das mudanças climáticas, os efeitos do desmatamento e das queimadas, o LabGama também desenvolveu ferramentas para monitorar a poluição atmosférica. Conhecida como Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar do Acre, a plataforma reúne e disponibiliza informações coletadas por sensores instalados em diferentes pontos do estado, permitindo acompanhar os níveis de poluição do ar em tempo real. Apesar de estar temporariamente fora do ar por falta de recursos humanos, a plataforma deverá voltar a funcionar em breve.

Recentemente, em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), os cientistas desenvolveram um novo sensor de baixo custo produzido no Brasil. Essa nova tecnologia será testada inicialmente no Acre, com a instalação de 30 sensores que irão operar em conjunto com os equipamentos já existentes. A iniciativa também prevê a criação de uma plataforma de monitoramento da qualidade do ar para toda a Amazônia.

O pesquisador William Flores destaca que, mesmo com a criação da rede de monitoramento da Amazônia, a plataforma da qualidade do ar do Acre continuará existindo. Segundo ele, os estudantes de graduação, mestrado e doutorado têm papel essencial no trabalho realizado pelo LabGama, sendo responsáveis por boa parte das pesquisas, desenvolvimento de tecnologias e manutenção das plataformas produzidas pelo LabGama.

Sonaira Silva defende a manutenção e o financiamento de redes locais de monitoramento, como a plataforma de qualidade do ar desenvolvida pelo LabGama. Para ela, a interrupção no fornecimento de recursos compromete a continuidade de um trabalho fundamental para acompanhar os impactos da fumaça sobre a saúde da população.

Sonaira ressalta que os parâmetros produzidos para toda a Amazônia nem sempre refletem a realidade do Acre. Por isso, considera essencial investir em pesquisas locais, capazes de subsidiar decisões e orientar políticas públicas com base nas características climáticas do estado.

A cientista Sonaria Silva, que desde o Campus Floresta da Ufac, em Cruzeiro do Sul, acompanha e monitora os impactos da crise climática no território acreano; investimentos em pesquisas podem ajudar em políticas para mitigar impactos sobre a população (Foto: Divulgaçaõ Ipam)




Um dos grandes desafios é fortalecer a pesquisa científica para que o poder público tenha informações capazes de orientar a tomada de decisões antes que os desastres aconteçam. Para ela, é o monitoramento contínuo que permite estabelecer parâmetros para a emissão de alertas e a adoção de medidas preventivas.

Atualmente, o grupo está buscando recursos e cooperação com outras instituições para fortalecer o desenvolvimento de ferramentas que ampliem a disponibilidade dos dados que são produzidos para a sociedade.


Estamos preparados?


Diante da previsão de um novo episódio de El Niño, o governo federal deu prazo de 30 dias para que estados e municípios apresentem seus planos e prioridades para enfrentar os impactos do fenômeno, com foco na prevenção e no combate aos incêndios florestais. A medida foi publicada no Diário Oficial da União e atende a uma recomendação do Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo.

No Acre, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) reforçou as ações de prevenção e combate aos incêndios florestais, criando novas brigadas federais pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) nos municípios de Brasiléia, Sena Madureira, Feijó e Cruzeiro do Sul.

Recentemente, durante audiência pública promovida pelo Ministério Público Federal (MPF), o Procurador da República e Procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Lucas Costa Almeida Dias, apontou a incapacidade institucional dos municípios, governo do estado e governo federal de lidar com a ocorrência de eventos extremos de forma integrada e coordenada.

Para William Flores, enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas exigem que universidades, órgãos públicos e sociedade civil atuem juntos:

“O desafio é se organizar para fazer contrapontos e trazer essa discussão pro centro. O confronto extremista não é viável, mas para que a gente vá em pé de igualdade para discutir com o nível de organização que tem as commodities do agronegócio, a gente precisa se organizar”, defende Flores.

Logomarca

Deixe seu comentário

VEJA MAIS