
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
Herdeira política de uma gestão responsável pelos maiores índices de desmatamento registrados no Acre em mais de uma década, a governadora Mailza Assis (PP) chega às eleições de 2026 prometendo fazer da proteção da floresta e da economia de baixo carbono duas das principais marcas de um eventual novo mandato.
O plano de governo apresentado pela candidata à Justiça Eleitoral procura associar desenvolvimento econômico, conservação ambiental, bioeconomia e adaptação às mudanças climáticas. Ao longo de 68 páginas, o documento apresenta propostas para combater o desmatamento e as queimadas ilegais, ampliar a capacidade dos órgãos ambientais, explorar economicamente ativos florestais e fortalecer a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais.
A promessa verde, no entanto, carrega o peso de uma contradição política: Mailza não representa uma ruptura com o governo Gladson Cameli, mas sua continuidade.
Eleita vice-governadora na chapa de Gladson em 2022, ela assumiu definitivamente o Palácio Rio Branco em abril deste ano, depois que o correligionário abandonou o cargo para disputar uma vaga no Senado. Durante quase quatro anos, Mailza participou de uma administração que precisou mudar sua política ambiental depois de o Acre atravessar um período de forte crescimento da devastação.
Mesmo assim, ao apresentar o eixo dedicado ao meio ambiente, o plano afirma que o Acre consolidou políticas pioneiras de redução do desmatamento e anuncia o compromisso de “preservar esse legado”. O documento não menciona o aumento da derrubada da floresta durante a gestão da qual Mailza fez parte nem apresenta um balanço do passivo ambiental acumulado desde 2019.
Um legado de 3,7 mil quilômetros quadrados desmatados
Como o Varadouro mostrou na reportagem Governo sem floresta, dados do Sistema de Alerta de Desmatamento, do Imazon, apontaram que o Acre acumulou 3.711 quilômetros quadrados de áreas desmatadas entre 2019 e 2024. O pior resultado foi registrado em 2021, quando 888 quilômetros quadrados de Floresta Amazônica foram derrubados no estado.
Os primeiros quatro anos de Gladson no governo coincidiram com a gestão de Jair Bolsonaro (PL) na Presidência da República e com o enfraquecimento das estruturas federais e estaduais de proteção ambiental.
Eleito em 2018 com um discurso favorável à flexibilização das regras ambientais para beneficiar o agronegócio, Gladson chegou a declarar, em 2019, que produtores rurais não precisariam pagar multas aplicadas pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac). A fala ocorreu durante uma reunião em Sena Madureira e simbolizou a política de afrouxamento da fiscalização ambiental adotada naquele período.
A partir de 2023, com a retomada das operações federais de combate ao desmatamento pelo governo Lula (PT), o Acre voltou a registrar redução em parte dos indicadores. O recuo, entretanto, não eliminou o passivo acumulado.
Em 2024, enquanto a maior parte dos estados da Amazônia Legal apresentou redução na área desmatada, o Acre registrou crescimento de 30%, segundo o Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas. O dado foi mostrado pelo Varadouro em Um péssimo exemplo, quando Gladson Cameli recebeu, em Rio Branco, governadores e autoridades internacionais para uma reunião sobre clima e florestas.
Os dados oficiais do Prodes, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), confirmam a escalada do desmatamento no Acre durante o primeiro mandato de Gladson Cameli. A área derrubada passou de 688 quilômetros quadrados em 2019 para 706 quilômetros quadrados em 2020, até alcançar o pico de 889 quilômetros quadrados em 2021 – crescimento de 29,2% em relação ao primeiro ano da gestão.

Mesmo com uma pequena redução no ano seguinte, o desmatamento permaneceu em patamar elevado em 2022, quando o estado perdeu outros 840 quilômetros quadrados de cobertura florestal.
A partir de 2023, a série registra três quedas consecutivas: foram 601 quilômetros quadrados naquele ano, 449 quilômetros quadrados em 2024 e 324 quilômetros quadrados em 2025. A redução entre o pico de 2021 e o resultado mais recente chega a 63,6% e representa uma melhora importante nos indicadores ambientais.
O recuo, contudo, não apaga o passivo acumulado durante os primeiros anos do governo Gladson, quando o Acre voltou a figurar entre as frentes de avanço da devastação na Amazônia. É sobre esse histórico que Mailza procura construir uma nova imagem para o grupo político que governa o Acre desde 2019.
Promessas sem metas de redução
O meio ambiente aparece como o nono dos dez eixos estratégicos do plano de Mailza. Intitulado “Meio Ambiente, Sustentabilidade e Resiliência Climática”, o capítulo reúne 18 propostas divididas em quatro programas.
Entre as medidas anunciadas estão a criação de um sistema integrado de monitoramento contra o desmatamento e as queimadas ilegais, a realização de concurso público para ampliar o quadro dos órgãos ambientais e a contratação de equipes multidisciplinares para reforçar o licenciamento, a fiscalização e a proteção da floresta.
O plano também promete concluir a regularização ambiental e fundiária das propriedades rurais, auxiliar produtores na recuperação de passivos ambientais e implantar um programa estadual de educação ambiental.
Apesar da quantidade de propostas, o documento não estabelece quanto o governo pretende reduzir do desmatamento ou das queimadas. Não existem metas anuais, percentuais de redução, territórios prioritários ou prazos intermediários para que a sociedade possa acompanhar a execução.
O plano também não assume o compromisso de alcançar o desmatamento zero nem apresenta uma meta de recuperação de áreas degradadas.
As emissões de gases de efeito estufa tampouco recebem um objetivo mensurável. O documento não apresenta inventário de emissões, não estabelece quanto o Acre deverá reduzir até 2030 e sequer emprega a palavra “mitigação” ao tratar da crise climática.

A candidatura governista reconhece que secas prolongadas, queimadas, enchentes e outros eventos extremos já comprometem a produção rural, a segurança hídrica, a infraestrutura e a vida das populações mais vulneráveis. Como resposta, propõe a elaboração de um plano de prevenção e reação a eventos climáticos extremos e o fortalecimento da Defesa Civil.
São medidas voltadas principalmente à adaptação e ao atendimento das consequências dos desastres. O programa não detalha, porém, de que maneira o governo pretende enfrentar as causas locais da crise, como o desmatamento, a expansão desordenada da pecuária e o uso do fogo.
Carbono como principal aposta econômica
Se faltam metas objetivas de redução do desmatamento e das emissões, sobram referências ao aproveitamento econômico da floresta. O plano promete transformar a biodiversidade, os serviços ambientais, as concessões florestais, o manejo de madeira, o turismo de natureza e os créditos de carbono em fontes de investimentos, empregos e renda.
Uma das principais propostas é estruturar um programa de certificação e comercialização de créditos de carbono. Os recursos obtidos seriam usados para financiar projetos de proteção do bioma e melhorar a qualidade de vida da população.
O documento afirma ainda que serão fortalecidas as instâncias responsáveis pela repartição dos benefícios, com a participação de povos indígenas, extrativistas, agricultores familiares, mulheres e jovens.
A proposta eleitoral surge justamente quando o REDD+ Jurisdicional do Acre enfrenta uma crise de credibilidade e governança.
O governo Mailza negocia com o banco britânico Standard Chartered a comercialização de até 40 milhões de créditos de carbono gerados pelas florestas acreanas. O acordo avançou depois que o estado deixou as tratativas com a Coalizão Leaf, iniciativa internacional que adota critérios rigorosos de integridade ambiental, governança e distribuição dos recursos.

Conforme revelou Varadouro em Vende-se carbono, integrantes da Comissão Estadual de Validação e Acompanhamento, a Ceva, e representantes de outras estruturas do Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais afirmaram que foram excluídos das principais decisões e souberam do acordo com o banco pela imprensa.
Lideranças indígenas também questionam a fragilidade das consultas realizadas e o cumprimento da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que garante aos povos indígenas e às comunidades tradicionais o direito à consulta livre, prévia e informada diante de medidas capazes de afetar seus territórios e modos de vida.
O plano eleitoral não utiliza expressamente o termo REDD+ Jurisdicional nem explica como Mailza pretende solucionar esses conflitos.
Governo promete transparência enquanto comissão cobra contratos
A contradição torna-se ainda maior quando o plano afirma que a política ambiental de um eventual novo mandato de Mailza Assis será conduzida com transparência, participação social e monitoramento permanente de indicadores.
Todavia, a Ceva precisou recorrer formalmente ao governo para ter acesso aos contratos firmados pela Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre (CDSA) com a VR Consultoria Empresarial. A comissão é justamente a instância encarregada do controle social das políticas estaduais de pagamento por serviços ambientais.
Os contratos nº 002/2024, nº 006/2025 e nº 12/2025 foram celebrados diretamente, por inexigibilidade de licitação. A estatal alegou que a empresa possui especialização técnica e que não haveria possibilidade de competição.
Em um deles, a VR Consultoria foi contratada por R$ 1,1 milhão para auxiliar na obtenção de serviços de classificação internacional e na qualificação financeira do programa de carbono do Acre.

A própria CDSA instituiu, em abril de 2026, uma comissão para realizar uma auditoria integrada nos três contratos e apurar a existência de possíveis inconsistências. A Ceva quer saber se a análise foi concluída, quais foram seus resultados e se o governo pretende manter as relações contratuais com a empresa.
A comissão também cobrou informações sobre os valores, os intermediários financeiros, a destinação das futuras receitas, os riscos jurídicos e reputacionais e o modelo de repartição dos benefícios. O Ministério Público Estadual, o Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas do Estado receberam cópias do pedido.
Apesar da controvérsia, o plano de Mailza não apresenta mecanismos objetivos para divulgar contratos, valores pagos a consultorias, comissões cobradas por intermediários, resultados de auditorias e riscos das operações.
Também não informa qual porcentagem dos recursos deverá chegar diretamente aos povos indígenas, extrativistas e demais comunidades responsáveis por conservar grande parte da floresta ainda existente. Assim, a candidata promete para o futuro uma governança que seu governo é atualmente cobrado por não respeitar de maneira efetiva.
Concessões de florestas públicas
Outra proposta é a criação de um Programa Estadual de Concessão de Florestas Públicas. A intenção declarada é incluir madeira e outros produtos em projetos de manejo sustentável, transformando a floresta em fonte de emprego e renda.
O plano, entretanto, não identifica quais florestas poderão ser concedidas, quais atividades serão permitidas nem quais salvaguardas protegerão comunidades tradicionais que vivem ou utilizam essas áreas.
A proposta também não estabelece critérios de transparência para as concessões, formas de fiscalização dos planos de manejo ou mecanismos para impedir concentração econômica e exploração predatória da madeira.
No campo da bioeconomia, a candidatura promete criar um programa estadual para transformar os produtos da sociobiodiversidade em renda. O documento menciona comunidades tradicionais, povos indígenas, ribeirinhos e agroextrativistas, mas não apresenta orçamento, cadeias prioritárias, política de compras públicas ou instrumentos de crédito específicos.

Mais pecuária, milho e ramais
As contradições ambientais não estão apenas no capítulo dedicado à floresta. Elas aparecem quando as propostas ambientais são comparadas aos eixos econômicos e de infraestrutura. O plano promete ampliar patrulhas mecanizadas, fortalecer a pecuária, melhorar ramais para o escoamento da produção e incentivar a implantação de usinas de etanol de milho integradas à cadeia pecuária.
Também pretende consolidar o Acre como corredor logístico entre o Centro-Oeste brasileiro, os países andinos e os portos do Peru e do Chile, facilitando o acesso da produção aos mercados asiáticos.
Nenhuma dessas iniciativas é necessariamente incompatível com a conservação ambiental. O documento, porém, não estabelece que o crescimento da agropecuária deverá ocorrer exclusivamente em áreas já abertas ou degradadas. Também não define salvaguardas para evitar que novos ramais, mecanização e valorização da terra provoquem uma nova fronteira de desmatamento.
O texto afirma que a conservação ambiental e o agronegócio caminharão juntos, mas não explica como o governo pretende resolver o conflito entre os dois modelos que marcou a gestão Gladson.
A regularização ambiental aparece prioritariamente como instrumento de segurança jurídica e apoio ao produtor. Embora necessária, ela não vem acompanhada de uma estratégia igualmente detalhada para responsabilizar grandes desmatadores, combater invasões de terras públicas ou recuperar áreas ilegalmente convertidas em pastagens.

Propostas para os povos indígenas
Entre os compromissos mais objetivos do eixo ambiental está a conclusão dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental de todas as terras indígenas do Acre. Mailza também promete assegurar recursos para o pagamento de bolsas a até 148 agentes agroflorestais indígenas, distribuídos por 26 terras indígenas, e transformar a atual Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas em uma secretaria permanente.
O documento prevê ainda representatividade indígena nas instâncias relacionadas às políticas públicas e à agenda climática, apoio aos festivais culturais e incentivo ao turismo de base comunitária.
As propostas reconhecem o papel dos povos indígenas na conservação da floresta, mas o plano não menciona expressamente os protocolos próprios de consulta nem assume o compromisso de realizar consultas livres, prévias, informadas e de boa-fé antes da comercialização de créditos originados nos territórios.
Essa ausência é especialmente relevante porque a legitimidade indígena está entre os principais questionamentos enfrentados pelo REDD+ Jurisdicional.

Uma floresta sem números
O plano de Mailza reconhece a crise climática, apresenta propostas relevantes e reserva um espaço expressivo à economia da floresta. Isso o diferencia da retórica abertamente antiambiental que predomina em parte da direita acreana e que caracterizou o primeiro mandato de Gladson Cameli (2019-2022) frente ao Palácio Rio Branco, quando o político bolsonarista conduziu a sua própria agenda de abrir “a porteira pra deixar a boiada passar”.
Mas o programa não rompe com o modelo responsável pelo passivo ambiental acumulado desde 2019. Também não explica por que as ações prometidas para os próximos quatro anos não foram plenamente executadas durante a administração da qual Mailza participou e que agora lidera.
O documento transforma carbono, bioeconomia, manejo e concessões florestais em pilares de uma nova economia, sem estabelecer metas capazes de provar que a floresta estará efetivamente mais protegida ao final de 2030.
Não diz quanto o desmatamento deverá cair. Não informa quanto será investido. Não calcula quantas emissões serão evitadas. Não define quanto dos recursos do carbono chegará às comunidades. E não explica como serão corrigidas as fragilidades de governança, participação e transparência já expostas dentro do próprio Sisa.
No plano da candidata, a floresta aparece como patrimônio, identidade e, sobretudo, oportunidade econômica. Falta explicar como um governo herdeiro dos recordes de devastação pretende convencer a sociedade de que, desta vez, protegerá a Amazônia antes de negociá-la no mercado internacional de carbono.

