O FIM DE UM (DES) GOVERNO

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Gladson abandona o governo do Acre e deixa um legado de corrupção e muita floresta desmatada

O fim de um ciclo: gestão Gladson deixa como marca escândalos de corrupção, instabilidade institucional e desmatamento recorde da Amazônia (Foto: Ingrid Kelly/Secom)




Ao deixar o governo para disputar o Senado, o agora ex-governador Gladson Cameli encerra uma gestão marcada por contradições entre expansão econômica puxada pelo agronegócio, aumento de crimes ambientais, escândalos de corrupção e instabilidades institucionais.



Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco

Ao passar a faixa de governador para sua sucessora, Mailza Assis (PP), após sete anos à frente do Palácio Rio Branco, o bolsonarista Gladson de Lima Cameli (PP) fecha um ciclo que começou sob o discurso da modernização econômica a partir da flexibilização das regras ambientais, e termina sob o peso de investigações e escândalos de corrupção e o aumento vertiginoso do desmatamento da Floresta Amazônica.

A transmissão da faixa de governador para a sua aliada Mailza Assis aconteceu em solenidade realizada na noite de ontem (2 de abril) no Palácio Rio Branco. Com direito a discursos emocionados, Gladson Cameli destacou os principais pontos positivos de sua gestão.

Gladson Cameli entra para a história política do Acre como o primeiro governador a ser denunciado e virar réu por corrupção no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Na posteridade, será lembrado como o primeiro chefe do Poder Executivo a levar a Polícia Federal a “invadir” o prédio-sede do governo, o Palácio Rio Branco, com viaturas ocupando, vergonhosamente, as suas rampas de acesso para desencadear a maior operaação policial de combate à corrupção do Acre.

Sua gestão também será reconhecida por transformar o Acre numa “República de Manaus”, trazendo para o estado empresas da capital amazonense para disputar e vencer as licitações do estado – levando as pequenas e médias empreiteiras do estado à falência. É em Manaus onde está a sede das empresas de sua família.

Entre grandes obras que foram paralisadas por denúncias de corrupção, crescimento do agronegócio (em especial o cultivo de soja) a partir do desmonte das políticas ambientais durante o primeiro mandato (2019-2022) e uma gestão marcada por muitas trapalhadas, instabilidade institucional e sem um projeto político-econômico concreto, o Acre que Gladson deixa mantém inalterado uma estrutura onde os mais pobres são mergulhados ainda mais para a pobreza – e as velhas elites ainda mais ricas graças às benesses do Erário.

Na área ambiental, os dados oficiais mostram uma trajetória irregular. O desmatamento no Acre cresceu significativamente entre 2019 e 2022, atingindo mais de 100 mil hectares em um único ano, segundo o sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele tocou a sua própria política de abrir a porteira e deixar a boiada passar sobre a floresta.

A agora governadora do Acre, Mailza Assis, que tem como desafio reconstruir a credibilidade do Acre e a estabilidade institucional (Foto: Ingrid Kelly/Secom)



Embora tenha havido queda a partir de 2023 – quando precisou se alinha à nova gestão ambiental do país implementada por Lula (PT) – especialistas apontam que a redução ocorre após um período de forte avanço da devastação. E cujos impactos (em médio e longo prazo) podem ser decisivos para agravar uma crise climática que, ano após ano, afeta um número cada vez maior de pessoas – seja com as grandes alagações ou as secas extremas.

Hoje, cerca de 16% do território acreano já foi desmatado. Reportagens do Varadouro ao longo da gestão mostram o avanço da grilagem, a pressão sobre territórios tradicionais e o fortalecimento de um modelo que associa crescimento econômico à abertura de novas áreas.

Esse modelo se conecta diretamente com o desempenho econômico do estado. Nos últimos anos, o Acre ampliou exportações, fortaleceu o agronegócio – especialmente nas cadeias da carne e dos grãos – e registrou aumento na circulação de recursos, impulsionado também por obras públicas e investimentos. Obras e investimentos estes que o estado recuperou a partir de 2023, com os projetos do governo Lula – como o Minha Casa, Minha Vida e do PAC.

Por falar em programas de habitação, Gladson Cameli abandona o governo sem ter construído uma única moradia popular – isso num estado onde famílias precisam “invadir” terrenos baldios para construir seus barracos. Vide o caso da ocupação Terra Prometida, na parte alta de Rio Branco, cujas famílias foram retiradas com muita porrada da polícia e gás de pimenta.

Dados oficiais apontam para um cenário de crescimento e projeção de bilhões em investimentos até o fim da década. No entanto, economistas e pesquisadores alertam que se trata de uma expansão com baixa diversificação, dependente de commodities e com impacto direto sobre a floresta. Nos últimos anos, o Acre também se consolidou como um grande exportador de madeira.

A educação, por sua vez, não apareceu como vitrine da gestão. Sem avanços estruturais amplamente reconhecidos, o setor acabou atravessado por um dos episódios mais sensíveis do governo: as investigações que atingiram contratos financiados com recursos públicos, incluindo verbas da educação.

A área se manteve distante de transformações profundas, refletindo um padrão de continuidade, mais do que de ruptura.

No campo da segurança pública houve uma falsa sensação de tranquilidade em meio ao fim da guerra territorial entre Comando Vermelho (CV) e B13/PCC. Ao consolidar seu controle em terras acreanas, a facção carioca CV impôs a sua regra do “Proibido Rouba” (sic) nos bairros da periferia. Criou o tribunal do crime para punir com açoites e execuções quem ousasse descumprir suas ordens.

Todavia, a população acreana continua a conviver com os traumas e medo de um estado ainda marcado pela violência – incluindo os feminicídios -, mesmo com o aumento de investimentos nas polícias e a contratação de mais agentes. Em contrapartida, as desigualdades sociais e a pobreza se aprofundaram ainda maais.

A real consolidação do CV aconteceu com a rebelião, em 2023, no presídio Antônio Amaro Alves, onde os integrantes do CV decapitaram as lideranças da facção rival.

Viatura da PF na rampa de acesso ao Palácio Branco, em operação de 2021 que desbaratou o maior esquema de corrupção do Acre (Foto: Ascom PFAC)



A gestão da corrupção e ineficiência

É, porém, na área da corrupção que o governo encontra sua marca mais contundente. A Operação Ptolomeu, conduzida pela Polícia Federal em dezembro de 2021, revelou um esquema que envolve suspeitas de fraude em licitações, uso de empresas com sócios ocultos e movimentações financeiras atípicas.

Recursos de áreas sensíveis, como saúde, infraestrutura e educação, entraram no radar das investigações. Ao longo dos anos, as denúncias e desdobramentos judiciais passaram a acompanhar de forma permanente a gestão, afetando sua credibilidade.

Ao fim de sete anos, Gladson Cameli deixa um Acre que, em parte, cresceu em indicadores econômicos, mas que também aprofundou tensões. Muito deste crescimento ainda é consequência das políticas e investimentos dos governos anteriores.

Gladson herdou um estado com uma máquina em funcionamento – apesar de já herdar percalços no equilíbrio das contas públicas – isso num estado altamente dependente da economia do contracheque, onde o funcionalismo estadual é a principal força econômica e política (detentora de votos).

Em meio ao afrouxamento da fiscalização e regras ambientais, Acre teve explosão de desmatamento e bons resultados no agronegócio, em especial a expansão da soja (Foto: Marcos Vicentti)



As despesas aumentaram, o déficit subiu, e o estado não conseguiu ampliar a capacidade de arrecadação. O Acre continua dependente das transferências do Tesouro Nacional. Com uma economia incipiente, e sem o governo atrair grandes investidores, a conta entre o que se arrecada e o que se gasta sempre fica no vermelho.

A situação poderia ser ainda pior caso Gladson Cameli não tivesse herdado uma estrutura de governo devidamente estruturada e com servidores qualificados – uma herança das gestões petistas. Tanto assim, que precisou manter em funções-chaves das secretarias técnicos gabaritados formados e contratados pelos governos do PT.

A manutenção e a ampliação desta estrutura – com a criação de mais cargos comissionados -, além de conseguir manter a pontualidade no pagamento dos salários dos servidores, além de assegurar reajustes ao gosto das categorias, faz Gladson Cameli deixar o Palácio Rio Branco nos braços do funcionalismo – que lhe assegura considerável aprovação em pesquisas.

Como consequência, deixa no colo de Mailza Assis – que lutará para manter o legado de Gladson nas eleições de 2026 – uma bomba-relógio nas contas públicas. Já há alguns anos o Acre opera no limite do limite do que é imposto pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) nos gastos com a folha de pagamento – como apontam relatórios do Tribunal de Contas.

E uma hora essa bomba vai estourar.

No campo da formação de equipe, Gladson transformou o Acre num balcão de negócios. Nomeou pessoas sem nenhuma experiência e qualificação para cargos estratégicos de gestão. Pessoas que mal sabiam ler um parecer técnico enviado pelos ministérios em Brasília. Bastava ser seu amigo para ser nomeado.

A balbúrdia tomou de conta da administração. Num dia se dormia secretário de estado, no outro estava publicada a demissão no Diário Oficial. Tais condições criaram um ambiente de instabilidade e ineficiência administrativa. A continuidade de políticas públicas sérias – inclusive aquelas que impactam diretamente a vida do cidadão – ficou comprometida.

Em agosto de 2023, famílias da ocupação Terra Prometida foram expulsas na porrada de terreno; Gladson abandona governo sem entregar uma única casa popular (Foto: Juan Diaz)




Desde aquele dezembro de 2021, quando a PF esteve em sua casa em Cruzeiro do Sul, Gladson Cameli ficou desnorteado – e o Acre ainda mais desgovernado. A sua principal preocupação sempre foi se defender e protelar seu julgamento no STJ. Após quatro anos, enfim ele encarou o banco dos réus em dezembro do ano passado.

No primeiro voto, da ministra-relatora, Nancy Andrighi, recebeu uma pena de quase 26 anos de cadeia e a saída imediata do cargo. A função de governador ele já abandonou, mas nada que impeça seu julgamento seja retomado agora em abril.

Em resumo, durante os sete anos daquilo que pode ser definido como o desgoverno de Gladson Cameli, a Floresta Amazônica perdeu espaço em anos críticos, a economia avançou apoiada em bases tradicionais e a institucionalidade foi colocada à prova por sucessivas crises e operações da Polícia Federal.

Seu legado não é linear: mistura resultados concretos, promessas incompletas e questionamentos ainda em aberto.

Mais do que um balanço administrativo, o período revela uma encruzilhada. O Acre que se desenha após sua saída terá de decidir entre aprofundar o modelo que ganhou força nos últimos anos ou buscar alternativas que conciliem desenvolvimento, proteção ambiental e o retorno de um fortalecimento institucional. O ciclo de Gladson termina – mas seus efeitos permanecem.



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