
Um homem foi morto e outros tr~ês ficaram gravemente feiridos em emboscada dentro do PA Monte, em Lábrea, no sul do Amazonas. Crime expõe cenário de violência em conflitos fundiários na divisa Amacro. Atentado acontece um mês após três homens terem sido executados com tiros de fuzil na mesma região. Fontes afirmam que ataques são a concretização de amaeças a nove pessoas marcadas para morrer.
João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco
Um trabalhador rural foi morto e outras três pessoas ficaram feridas em uma emboscada na manhã desta quinta-feira (4), no Ramal do Monte, zona rural de Lábrea, no sul do Amazonas. Este é mais um atentado em uma região que sofre com a escalada de conflitos fundiários na Gleba Recreio de Santo Antônio, área marcada há décadas por disputas de terra, grilagem e denúncias de atuação de pistoleiros.
Segundo o Jornal Opinião, de Boca do Acre, sobreviventes informaram que o grupo seguia em uma caminhonete branca para uma propriedade rural onde trabalhariam na construção de uma casa quando foram surpreendidas por homens armados que abriram fogo contra o veículo. Márcio Rogério Barbosa, de 57 anos, conhecido como “Paulistão”, morador da Vila Caquetá, em Porto Acre, morreu na hora. Ramon Silva Macedo, 36 anos, Cleiton de Oliveira, 40 anos, e Antônio Lima, 48 anos, ficaram gravemente feridos.
O ataque ocorreu nas proximidades da localidade conhecida como “As Trezentas”, dentro do Projeto de Assentamento Monte (PA Monte), uma área criada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e cercada por antigas disputas fundiárias.
“Os fazendeiros querem mandar no assentamento”
Em entrevista ao Varadouro após tomar conhecimento do atentado, o líder camponês Paulo Sérgio Costa de Araújo, fundador da Comunidade Marielle Franco, que reúne cerca de 200 famílias na região, afirmou que o crime ocorreu em um contexto de conflitos agrários permanentes.
Segundo ele, embora a Comunidade Marielle Franco esteja localizada em outra área, os grupos apontados por trabalhadores rurais como responsáveis por ameaças e pressões seriam os mesmos que atuam em diferentes pontos da região. “O PA Monte é um assentamento que o Incra deixou pela metade. Os fazendeiros tomaram o restante e deu nessa tragédia. Os fazendeiros querem mandar no assentamento”, afirmou.
Paulo Sérgio destacou que a área onde ocorreu a emboscada é alvo frequente de disputas entre pequenos produtores e grandes ocupantes de terra. “O homem que morreu disputava terras naquele local. É uma área onde os fazendeiros grilam muita terra. Ninguém sabe se foi consequência de conflitos antigos ou represália relacionada à terra que ele ocupava”, disse.
O líder comunitário também relatou que Paulistão já teria sido alvo de ações violentas anteriormente. Segundo Paulo Sérgio, em um episódio envolvendo cerca de 30 trabalhadores rurais, Paulistão teria sido preso após denúncias feitas por um fazendeiro da região. “Ele ficou três dias preso sem audiência de custódia. Foi amarrado, ameaçado e agredido. Depois saiu daquela área. Agora estava em outra ocupação e acabou sendo alvejado”, relatou.

As acusações mencionadas por Paulo Sérgio não foram confirmadas oficialmente pelas autoridades e deverão ser objeto de eventual apuração pelas investigações em andamento.
A nova emboscada ocorre pouco mais de um mês após outro ataque fatal na mesma região. Em 25 de abril deste ano, os trabalhadores rurais Josias Albuquerque de Oliveira, de 45 anos, seu sobrinho Arthur Henrique Ferreira Said, de 14 anos, e Antônio Renato, de 32 anos, foram assassinados em uma emboscada quando trafegavam por uma estrada vicinal do PA Monte.
Na ocasião, pistoleiros armados com fuzis e pistolas interceptaram a caminhonete em que as vítimas viajavam. O veículo caiu em um igarapé após o motorista ser atingido pelos disparos.
Dois suspeitos foram presos poucas horas depois e, segundo familiares das vítimas, teriam apontado a existência de mandantes ligados a interesses fundiários na região. Os supostos mandantes, entretanto, não foram presos.
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Comunidade Marielle Franco vive sob tensão
Paulo Sérgio Costa de Araújo é fundador da Comunidade Marielle Franco, instalada em outra área da Gleba Recreio de Santo Antônio, próxima à Fazenda Palotina, onde vivem aproximadamente 200 famílias de trabalhadores rurais.
A comunidade já esteve no centro de denúncias de violência agrária. Em janeiro de 2025, o posseiro José Jacó Cosotle foi encontrado morto com marcas de tiros na região que faz divisa entre a comunidade e a Fazenda Palotina.
Organizações como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) apontam a Gleba Recreio de Santo Antônio como um dos principais focos de conflitos fundiários da região Amacro — área formada por municípios do sul do Amazonas, Acre e Rondônia que concentra intensa expansão da pecuária, da exploração madeireira e da grilagem de terras públicas.
A Polícia Civil do Amazonas informou que investiga a emboscada para esclarecer a motivação do crime, identificar possíveis envolvidos e verificar a eventual participação de mandantes.
De acordo com informações preliminares divulgadas pelas autoridades, há indícios de que o ataque tenha sido direcionado especificamente a um dos ocupantes da caminhonete.
Enquanto as investigações avançam, trabalhadores rurais e lideranças comunitárias voltam a cobrar a atuação da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e do Incra para enfrentar os conflitos fundiários e acelerar a regularização das terras públicas da região.
Para os moradores, a nova emboscada reforça uma sensação recorrente de insegurança. “Aqui a violência não parou. Muda o nome da vítima, mas o conflito continua o mesmo”, resume Paulo Sérgio.



