Três anos depois, Varadouro reafirma missão de investigar a Amazônia a partir da floresta

Quase meio século após nascer como um jornal de resistência durante a ditadura militar, o Varadouro consolida uma nova etapa de sua história, ampliando a cobertura investigativa sobre a Amazônia e ocupando espaços onde o jornalismo ainda chega pouco ou quase nada; campanha valoriza identidade amazônida para fortalecer vínculo com leitores.
Por Redação Varadouro
“Quando o varadouro circulava, mexia com a cidade. Teve uma vez que tivemos que repetir a tiragem do mesmo jornal porque não deu. O que fazíamos mexia com as pessoas. O que nos unia era a luta contra ditadura”. Na época, a tiragem média era de 5 mil exemplares, chegando a 7 mil em algumas ocasiões. A realidade vivida em Rio Branco, Cruzeiro do Sul, e demais localidades do Acre chegava a outras capitais do país graças à solidariedade da imprensa alternativa. Os exemplares eram enviados pelo Correio e as vendas eram repassadas posteriormente por meio de transferências bancárias.
“O jornal circulava por todas as capitais e até mesmo em cidades próximas, como Campinas. Quando completou um ano, os jornais de alcance nacional fizeram comentários positivos como o Correio Braziliense e o próprio Pasquim”, recorda o jornalista Elson Martins, um dos fundadores do Varadouro. A troca era mútua. “Certa vez, a editora do Pasquim nos enviou uns 200 livros para vendermos também”.
O que garantiu o alcance e a relevância durante os quatro anos de vida (1977-1981) do jornal Varadouro era a característica de “movimento”. “Funcionávamos mais como um movimento, conectando o chão da Amazônia contra a ditadura e as consequências do ‘desenvolvimento’ que expulsava as pessoas dos seringais”.
No mês em que completa três anos de retomada dessa história, o Varadouro consolida o projeto de ampliação da cobertura jornalística sobre uma das regiões mais estratégicas do planeta a partir do olhar de quem vive nela. Mais colaboradores passam a integrar o dia a dia das notícias, recuperando o espírito de movimento agregador de ideias e de coragem para denúncias que marcou o movimento na década de 1970 e 1980.
A retomada, ocorrida em 2023, nunca deixou de ser uma realidade para Elson Martins que aos 87 anos conserva a memória dos fatos praticamente intacta. “Tentei, durante um tempo, com um grupo de jovens jornalistas, refazer esse sonho até que o Fábio (Pontes) apareceu e desde então, seguimos reconstruindo esse sonho”.
Embora o contexto histórico seja outro, as ameaças ao Acre, à floresta e ao modo amazônico de viver, continuam, segundo Elson Martins, e a falta de um caminho, um varadouro que conecte esse território talvez seja a maior ameaça. “A Amazônia não conhece a própria Amazônia. Talvez o Lúcio Flávio Pinto seja o que mais conhece e que mais escreveu sobre a Amazônia. Foi também o que mais atuou”.
É justamente olhando para esse exemplo, que Elson enxerga as bases do futuro e da longevidade do Varadouro. Mostrar a vida e resgatar o modo de ser no Amazonas, em Rondônia, no Amapá, no Pará, retratar a vida cultural, as cabeças pensantes, recuperar quem foram os que ajudaram a manter essa identidade viva, pode ser um caminho para um movimento mais amplo.
“Eu e o Silvio Martinello (co-fundador do Varadouro) entrevistamos o Márcio Souza quando ele veio participar de um simpósio em Rio Branco. Na época, ele estava lançando o seu livro ‘Galvez, o imperador do Acre’, e a entrevista saiu na primeira edição do Varadouro e, também, no Estadão, uma página inteira. Depois, ele me disse que considerava esse o lançamento dele em nível nacional”, conta. Confira esta história na íntegra AQUI.

A vanguarda do pensamento amazônico talvez esteja na sua relação com o território. E é esta a lição que Elson Martins carrega desde os inícios e que segue viva, inspirando os que continuam a caminhar por esse varadouro.
“Tinha um boletim interessante da Associação Nacional dos Jornalistas, um livreto, com uma declaração que para mim virou uma orientação: ‘Quando estiver todo mundo olhando pro céu, talvez, o furo esteja em olhar para o chão’. Essa lição sempre levei comigo. O Varadouro sempre olhou pro chão, sempre procurou ver o que estava no território da Amazônia”.
Uma história escrita em meio aos conflitos da Amazônia
O primeiro Varadouro surgiu em 1º maio de 1977, em Rio Branco, em um momento em que o Acre vivia a rápida substituição da economia extrativista pela expansão da pecuária estimulada por políticas do governo militar. Grandes áreas de floresta foram derrubadas, seringais acabaram convertidos em fazendas e milhares de famílias tradicionais terminaram expulsas de seus territórios.
Coube ao Varadouro denunciar o que classificou como a “bovinização” do Acre — a política do regime militar de substituir a floresta por pastos para o gado, expulsando seringueiros e indígenas de suas terras.
A ligação do jornal com a luta popular era tão forte que ele chegou a ser repassado de mão em mão por Chico Mendes entre os trabalhadores de Xapuri. Com 24 edições impressas até 1981, o Varadouro consolidou-se a partir da ‘voz dos invisíveis’ até ser forçado a interromper suas atividades por pressões financeiras e políticas.
Fundado pelos jornalistas Élson Martins e Silvio Martinello, com apoio decisivo de Dom Moacyr Grechi, então bispo de Rio Branco, circulava entre sindicatos, comunidades rurais e lideranças populares tornando-se hoje uma importante fonte documental sobre as transformações ocorridas naquele período.
SAIBA MAIS
Um novo cenário, os mesmos problemas
Quando voltou a circular, em julho de 2023, o contexto havia mudado, mas não os problemas, agora intensificados por uma realidade econômica devastadora do pós-pandemia, em meio às mudanças climáticas e as pressões do lobby político pela deslegitimação da legislação ambiental.
Conflitos fundiários, violência no campo, pressão sobre territórios indígenas, garimpo ilegal e grandes projetos de infraestrutura que contam com o aval do Congresso Nacional intensificam as ameaças à região sob a capa de “projetos de desenvolvimento” e sob a denominação AMACRO. A regionalização geográfica e econômica que abrange 32 municípios na tríplice divisa dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia, abrange uma área total de cerca de 454 mil quilômetros quadrados e ganhou este nome ao ser projetada como uma nova fronteira de interesses do agronegócio, nos moldes do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).
Nesse novo (velho) cenário, o Varadouro retomou suas atividades como um veículo digital, preservando a inspiração original de produzir jornalismo comprometido com o interesse público, mas adaptado às novas formas de circulação da informação.
Sob a direção do jornalista Fabio Pontes, a proposta de trazer reportagens investigativas, jornalismo de dados, documentários, séries especiais e produção multimídia voltada para compreender a Amazônia em toda sua complexidade, ganhou adeptos e apoiadores dentro do território. O foco é fazer um jornalismo nativo que busca desconstruir o discurso de que a preservação da floresta gera pobreza.
A opção editorial parte da premissa de que compreender a região exige acompanhar seus processos históricos, sociais, econômicos e culturais a partir do território, evitando reduzir a Amazônia a narrativas simplificadas ou exclusivamente ambientais.

REVEJA aqui bate-popo em reencontro entre Mary Allegretti e Elson Martins
Consolidação
Desde sua retomada, o Varadouro concentrou esforços em territórios que historicamente recebem pouca cobertura jornalística permanente.
As reportagens sobre a região da Amacro revelaram como a expansão da fronteira agropecuária vem transformando o Acre, aproximando processos observados em Rondônia e no norte de Mato Grosso das novas dinâmicas fundiárias acreanas.


A série Linhas de Conflito trouxe a investigação sobre a concentração de terras, os conflitos agrários, o avanço da pecuária, a pressão sobre reservas extrativistas e as conexões entre poder econômico e ocupação do território.



Outra frente permanente foi a cobertura das grandes obras de infraestrutura capazes de alterar profundamente a Amazônia Ocidental, especialmente no Vale do Juruá, região que reúne algumas das maiores áreas contínuas de floresta preservada do país, mas também indicadores sociais historicamente baixos.
A defesa da memória também passou a ocupar lugar central na linha editorial. Reportagens especiais recuperaram trajetórias de personagens fundamentais para a história amazônica, como a de Txai Terri, além de documentar processos históricos relacionados aos povos indígenas, seringueiros e comunidades tradicionais.
O jornal também ampliou sua atuação em formatos multimídia. Produziu documentários, séries audiovisuais e reportagens especiais, uma delas selecionada para o Prêmio Dom Phillips de Jornalismo, reconhecimento que reforçou a relevância da produção audiovisual desenvolvida pela equipe.

Crescimento da audiência
Os resultados do primeiro semestre de 2026 mostram que o processo de retomada alcançou uma fase de consolidação.
No período, o site registrou aproximadamente 14 mil usuários ativos, sendo a maior parte composta por novos leitores, indicando renovação contínua da audiência.
Foram contabilizados cerca de 77 mil eventos de navegação, com tempo médio de engajamento próximo de 46 segundos, indicador que demonstra interesse dos leitores pelo conteúdo produzido.
Embora Rio Branco permaneça como principal origem do público, o Varadouro também alcança leitores em cidades como Manaus, São Paulo, Brasília e Porto Velho, refletindo o interesse crescente por reportagens produzidas diretamente da Amazônia.
Outro aspecto relevante é a diversidade dos canais de acesso. A busca orgânica nos mecanismos de pesquisa tornou-se uma importante porta de entrada para novos leitores, enquanto o WhatsApp consolidou-se como uma ferramenta estratégica para circulação das reportagens entre comunidades, organizações da sociedade civil, pesquisadores e lideranças sociais e a busca orgânica do Google tornou-se uma porta de entrada vital para novos leitores.
Ao longo do último ano, o Varadouro também ampliou sua inserção em redes de colaboração jornalística e fortaleceu sua presença em debates nacionais e internacionais sobre a Amazônia. O veículo passou a integrar a Rede InfoAmazonia, ampliando as possibilidades de cooperação em reportagens, produção de dados e circulação de conteúdos sobre a região amazônica.
Sua produção audiovisual também ganhou reconhecimento com a seleção de um documentário para o Prêmio Dom Phillips de Jornalismo, iniciativa que valoriza trabalhos comprometidos com a defesa da Amazônia e dos povos que nela vivem.
Em 2025, a equipe esteve presente na cobertura da COP30, acompanhando tanto as negociações internacionais quanto os debates protagonizados por organizações da sociedade civil e povos da floresta, levando ao público uma perspectiva produzida a partir da própria Amazônia.
Asista bate-papo entre Elson Martins e Arquilau de Castro Melo, dois protagponistas do Jornal Varadouro
CRONOLOGIA | Quase meio século abrindo caminhos
1977 | Nasce um jornal das selvas
Em maio de 1977, em plena ditadura militar, chega às ruas de Rio Branco a primeira edição do Varadouro. Fundado pelos jornalistas Élson Martins e Silvio Martinello, com apoio decisivo de Dom Moacyr Grechi e de um grupo de comunicadores, intelectuais e ativistas, o jornal nasce para registrar uma Amazônia que praticamente não existia na imprensa brasileira: a dos seringueiros, indígenas, posseiros, migrantes e trabalhadores expulsos da floresta pela expansão da pecuária. Desde a primeira edição, assume uma missão de discutir “os problemas de nossa região, do nosso tempo e principalmente de nossa gente”.
1977–1981 | A voz da resistência amazônica
Ao longo de 24 edições impressas, o Varadouro acompanha a transformação do Acre promovida pela política de ocupação da Amazônia durante a ditadura. Denuncia a “bovinização” do estado, documenta conflitos fundiários, registra a organização dos seringueiros, acompanha as primeiras mobilizações indígenas e ajuda a construir uma linguagem jornalística própria da Amazônia. Suas páginas tornam-se também um espaço de articulação entre movimentos sociais, pesquisadores, Igreja Católica e organizações populares.
1981 | O silêncio
As dificuldades financeiras, políticas e estruturais tornam inviável a continuidade do jornal. O Varadouro deixa de circular, mas permanece como uma das principais referências da imprensa alternativa brasileira e um importante documento histórico sobre a Amazônia do final dos anos 1970.
2023 | A retomada
Quarenta e dois anos depois da última edição impressa, o Varadouro volta a circular, agora em formato digital. A nova fase preserva os princípios do jornal original, mas amplia seu alcance para toda a Amazônia. Surge com uma proposta de produzir jornalismo investigativo, colaborativo e multimídia, feito por jornalistas amazônidas para leitores da Amazônia e do Brasil.
2024 | Consolidação editorial
O primeiro ano da retomada marca a formação de uma redação voltada para investigações de longo prazo, cobertura socioambiental e fortalecimento de parcerias nacionais. O jornal passa a ampliar sua presença em redes colaborativas e investe em grandes reportagens, documentários e jornalismo de dados voltados às transformações da Amazônia.
2025–2026 | Uma nova geração de jornalismo amazônico
Nos últimos dois anos, o Varadouro amplia sua atuação com a integração à Rede Cidadã InfoAmazonia, participa da cobertura da COP30, produz documentários reconhecidos nacionalmente, fortalece sua audiência digital e consolida uma linha editorial dedicada a investigar conflitos territoriais, mudanças climáticas, direitos indígenas, memória amazônica e desenvolvimento regional.
2027 | Cinquenta anos
Às vésperas de completar meio século de história, o Varadouro chega vivo, renovado e comprometido com a mesma pergunta que inspirou os fundadores: como produzir um jornalismo capaz de defender a Amazônia ouvindo, antes de tudo, quem vive nela?




