Protagonista com a “reforma agrária da floresta”, Acre vive intensificação da violência no campo com expulsões e ameaças de morte

Após décadas de disputas judiciais, denúncias de violência física e psicológica, o Novo Andirá segue dividido entre decisões contraditórias, interesses sobrepostos e centenas de famílias que ainda não sabem se poderão permanecer na terra onde construíram suas vidas. Reintegrações de posse sob suspeitas de fraude documental esticam a disputa fundiária, transformando a sobrevivência no território em uma crise humana sem perspectiva de futuro. Isso tudo no estado que tinha considerado, até bem pouco tempo, pacificada a luta pela terra com a criação das reservas extrativistas, a reforma agrária da floresta, legado da luta de seringueiros como Chico Mendes e Wilson Pinheiro.
João Maurício da Rosa
Steffanie Schmidt
Fabio Pontes
dos varadouros de Manaus e Rio Branco
Até 17 de abril de 2017, o vice-coordenador da Federação das Associações e Cooperativas de Produtores Rurais do Acre e Sul do Amazonas (Faceasa), Jozias da Silva Nascimento, 48 anos, era um próspero “colonheiro”, como se autodenominam os homens e mulheres do campo no Acre – um termo que vem de colônias, como são chamadas as pequenas propriedades rurais da agricultura familiar. Jozias vivia com sua família em uma área dentro do seringal Novo Andirá com casa, gado, pastagens e um trator de esteira.
Naquela data, Jozias perdeu tudo e teve até o trator inutilizado pelas forças de segurança que participaram de uma operação de reintegração de posse em favor do médico Arnaldo Thomaz Barbosa. Segundo Jozias, ao chegar à colônia com sua família, encontrou a casa invadida por 65 agentes públicos entre policiais militares, civis, bombeiros e soldados do Exército.
O governo do Estado – então sob as gestões petistas – até enviou um representante da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos para garantir a integridade dos posseiros despejados, mas ele saiu antes de poder ajudar Jozias.
“Durante a operação fui vítima de tortura psicológica, ameaças de morte e falsas acusações. Diziam que eu tinha falsificado documentos, que tinha cometido homicídio”.
O episódio marcou a vida de dezenas de famílias que viviam na região e foram surpreendidas por ações judiciais de reintegração de posse baseadas em matrículas imobiliárias que, posteriormente, teriam sido canceladas por suspeita de irregularidades.
“Esse processo tramitava desde 2005 em total sigilo. Nós só fomos descobrir anos depois. O Incra fez várias vistorias e levantamentos ocupacionais, mas documentos desapareceram tanto no Acre quanto no Amazonas”, relata Jozias.
Ele afirma que possuía documentação regular da propriedade, obtida por meio do programa Terra Legal, além de financiamento bancário concedido com base na ocupação da terra. E mesmo tentando explicar que possuía documentação legal da posse, foi colocado dentro de uma caminhonete por policiais e submetido a ameaças e agressões psicológicas.
“Apontavam armas para minha barriga e diziam que iam me matar. Falavam que eu era bandido, que tinha falsificado documentos. Eu implorava pela minha vida. Passei quase uma hora dentro daquela caminhonete acreditando que seria executado”, afirma.
Ele também acusa integrantes de órgãos de direitos humanos de terem abandonado os moradores durante a operação. “O representante dos direitos humanos disse que qualquer coisa eu ligasse para ele, mas saiu da área e nunca mais atendeu. As famílias ficaram completamente à mercê da violência”, declarou.
Mesmo após a pacificação do impasse com a suspensão do mandado de reintegração de posse e o reconhecimento pela Justiça estadual de que o caso é de competência federal, as famílias do Novo Andirá relatam casos de ações arbitrárias das forças policiais. Ações que, de acordo com ele, aconteceriam “a mando dos fazendeiros”.
É o caso da situação da fotografia abaixo, de 2021, quando policiais militares do Batalhão de Polícia Ambiental (BPA) foram à área para apurar denúncias de crimes ambientais. Segundo os posseiros, o fazendeiro apresentou uma queixa acusando-os de derrubar áreas de floresta virgem da reserva legal da propriedade – o que eles negam.

Denunciar desmatamento dentro das reservas legais é uma estratégia recorrente dos grandes proprietários rurais para que a Justiça “solucione” de vez conflitos por terra em suas possíveis propriedades. Eles acusam os posseiros de derrubar e queimar, o que colocaria em risco seus projetos de manejo madeireiro ou de crédito de carbono.
Exemplo disso acontece com as famílias do Seringal São Bernardo, na região da Transacreana, em Rio Branco.
Documentos teriam cancelado despejo
Após deixar a área, Jozias afirma que procurou o então juiz Marcelo Coelho Carvalho, da 4ª Vara Cível de Rio Branco, levando documentos de regularização fundiária e contratos bancários relacionados ao financiamento rural.
Segundo ele, ao analisar a documentação, o magistrado suspendeu temporariamente a reintegração de posse e determinou que as famílias tivessem direito à defesa judicial. Apesar disso, Jozias acusa a Defensoria Pública do Acre (DPE) de, inicialmente, recusar-se a representar os posseiros.
“Nós levávamos documentos e diziam que a terra era do fazendeiro. Os protocolos desapareciam e nada era anexado aos processos”, diz. Ele afirma que somente após organizar manifestações em frente à Defensoria Pública, em Rio Branco, reunindo cerca de 250 pessoas, a instituição passou a atuar oficialmente no caso.

LEIA o capítulo 1 desta série de reportagens
Homem se acorrenta ao portão do Incra e destrava processo parado há quase 30 anos
Defensoria Pública do Acre rebate críticas
A DPE encaminhou ao Varadouro comunicado em que detalha sua atuação em disputas fundiárias no estado, rebate acusações de negligência e reforça o compromisso institucional com comunidades em situação de vulnerabilidade. Segundo a DPE, os casos citados recentemente pela imprensa envolvem processos antigos, de elevada complexidade jurídica e com discussões sobre possível domínio público das áreas em disputa.
Como parte da estratégia de atendimento especializado, a Defensoria informou que criou, em 2025, o Núcleo de Defesa Ambiental, Habitação, Urbanismo e Conflitos Agrários (Nahuca), voltado à mediação e acompanhamento técnico de conflitos envolvendo terra, moradia e regularização fundiária.
De acordo com a instituição, o núcleo analisou ações de reintegração de posse mencionadas pelo Varadouro e concluiu que ambas possuem longa tramitação judicial e entraves fundiários relevantes.
No primeiro processo, movido por Arnaldo Thomás Cordeiro Barbosa, a Defensoria afirma que passou a atuar inicialmente por determinação legal, após a citação por edital da parte ré. Nessa situação, a legislação impõe a apresentação de defesa técnica mesmo sem contato direto com o assistido.
A DPE esclareceu que a sentença favorável ao autor foi proferida anos antes de os ocupantes procurarem atendimento jurídico junto ao órgão. Após o cumprimento da ordem judicial de reintegração de posse, os moradores teriam buscado formalmente a Defensoria, que passou então a acompanhá-los de forma contínua.
Entre as medidas adotadas, o órgão cita acompanhamento processual, apresentação de manifestações e recursos, atuação em instâncias superiores, pedidos de suspensão de reintegração – inclusive durante a pandemia – e tentativas de solução conciliatória no Judiciário.
Segundo a nota, o caso ganhou nova complexidade quando surgiram indícios de que a área poderia ter natureza pública. Um órgão federal teria realizado vistoria e instaurado procedimento administrativo apontando possível interesse da União no imóvel, inclusive com perspectiva de destinação para reforma agrária.
A partir disso, houve questionamentos judiciais sobre a titularidade da terra, medidas para resguardar o imóvel e discussões sobre eventual envio do processo à Justiça Federal. Posteriormente, decisão superior manteve provisoriamente o caso na Justiça Estadual até a definição definitiva da competência.
Sobre o nome de Jozias Silva Nascimento, citado em debates públicos sobre o tema, a Defensoria afirma que não há registro de negativa de atendimento. Segundo o comunicado, ele não figura como assistido direto no processo e eventual ausência de informações poderia decorrer da falta de documentos que comprovassem poderes de representação, exigência necessária para preservar o sigilo legal. O órgão acrescenta que ele também conta com advogado particular.
Um legado ameaçado
A intensificação dos conflitos fundiários no Acre ao longo dos últimos sete anos coloca em risco o legado de décadas de lutas travadas por seringueiros e pequenos agricultores pelo direito à posse da terra durante as décadas de 1970 e 1980, com a chegada dos “paulistas”. Um período que foi definido pelo Varadouro como a bovinização do Acre.
Uma época marcada por violentos conflitos no campo e na floresta, onde seringueiros eram expulsos à força de suas colocações pelos “novos donos do Acre” que aqui chegavam comprando milhares de hectares de floresta, logo derrubada e queimada para virar pasto.
Um período também de muita resistência (incluíndo os empates) e organização dos trabalhadores rurais por meio dos sindicatos (STR) de Brasiléia e Xapuri. E nessa luta por direitos, duas lideranças foram executadas a mando de fazendeiros: Wilson Pinheiro e Chico Mendes.
Em meio ao sangue derramado nos seringais, a mobilização política dos seringueiros deixou como legado a “reforma agrária da floresta”, garantindo a posse da terra por meio das reservas extrativistas (Resex) e dos Projetos de Assentamento Extrativista (PAE).

Agora, toda uma herança de pacificação do campo parece estar sob ameaça com o avanço do agronegócio. Após a pecuária, a expansão do monocultivo da soja cria uma corrida pela terra que ameaça, expulsa e mata os pequenos camponeses dentro de suas propriedades. Diante de sua força política e econômica, que lhes assegura boas relações com a estrutura de Estado, os grandes fazendeiros sempre obtêm sentenças favoráveis para expulsar os “invasores” – na verdade filhos e netos de seringueiros que, no passado, foram expulsos das colocações.
Antes o seringueiro e sua famílias eram expulsos sob a mira de espingardas; hoje, mandados de reintegração de posse legitimam a força do grande latifúndio sobre os pequenos camponeses. Mas, sim, em alguns casos a pistolagem continua a alimentar a violência na disputa pela posse da terra.
A própria Resex Chico Mendes virou o símbolo desta intensificação da violência no campo no Acre. O aumento da pressão da atividade agropecuária dentro e no entorno da unidade de conservação elevam as pressões sobre a manutenção da floresta em pé e o modo de vida tradicional dos seringueiros.
A venda de lotes com o fracionamento das colocações, a chegada de novos moradores (rondonienses) e os assédios políticos com projetos de lei para desafetar áreas dentro da UC, além da própria omissão do Estado, fizeram a Resex Chico Mendes ocupar, desde 2019, as primeiras posições entre as áreas protegidas mais ameaçadas e desmatadas na Amazônia Legal.
Uma pressão que ameaça a sobrevivência da floresta, a sobrevivência de lideranças como a seringueira Luzineide da Silva e de Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, primo de Chico Mendes, que teve sua vida ameaçada em junho do ano passado após a realização de operação do ICMBio para a retirada de gado ilegal do interior da reserva.
E essa violência se espalha para outras partes do estado, em especial a região Leste, na divisa com o Amazonas e Rondônia. É a chamada tríplice divisa Amacro, que a partir de 2019 – com a consolidação de grupos políticos ligados à velha direita – passou a ser vendida como a nova fronteira do agronegócio; uma nova Matopiba.
Para além de uma nova frente agropecuária, a zona Amacro vem se consolidando como a nova fronteira do desmatamento, de crimes ambientais, de grilagem e de conflitos fundiários no sul da Amazônia Ocidental.

Nos últimos meses, seis pessoas foram executadas em emboscadas na região sul do Amazonas, na divisa com o Acre. Todas as mortes praticamente têm algum tipo de relação pela posse da terra.
Há a acusação da participação de policiais contratados para atuar como seguranças das fazendas – incluíndo até mesmo a criação de empresas de segurança privada para “legitimar” o jaguncismo nas áreas em disputa.
É aí que se encontra o seringal Novo Andirá, na região, onde mais se intensifica os crimes ambientais e de grilagem na região amazônica: a tríplice divisa Amacro, formada pelo encontro dos territórios do Amazonas, do Acre e de Rondônia. Trata-se de uma região marcada pela completa ausência do Estado e a atuação de milícias rurais armadas, com denúncias da participação de policiais contratados para atuar como jagunços dos fazendeiros e de facções criminosas.
Os casos registrados pelo Varadouro exemplificam essa realidade. Recentemente, em Lábrea (AM), três trabalhadores rurais, incluindo Arthur Henrique Ferreira Said, um adolescente de apenas 14 anos, foram executados com tiros de fuzil na Gleba Recreio do Santo Antônio.
Já no começo de junho, nesta mesma região, um homem foi assassinado e outros três baleados numa emboscada. Segundo relatos, há uma lista de nove pessoas marcadas para morrer na disputa por terras dentro da gleba no sul amazonense.
O uso de armamento de guerra e a tentativa de ocultar os corpos em um córrego revelam o que organizações chamam de “A Justiça dos Jagunços”.
Este “novo jaguncismo” atua com logística sofisticada – armamento especializado e conexões com facções criminosas. Em Boca do Acre (AM), execuções em via pública com dezenas de disparos indicam a naturalização da “justiça pelas próprias mãos”. Em Machadinho d’Oeste (RO), operações policiais no acampamento Valdiro Chagas também resultaram em mortes e denúncias de abusos.
A violência é impulsionada pela expansão da soja e do gado, além de um novo fenômeno: a “grilagem verde”, onde o Cadastro Ambiental Rural (CAR) é usado para validar a apropriação de terras de comunidades tradicionais como reservas legais privadas, segundo análise de especialistas, feitas durante o lançamento dos dados.

Caso João César Dotto
No segundo processo, de autoria de João César Dotto, revelado no Capítulo 2 desta série, a Defensoria Pública do Acre informa que atua desde o início da ação, acompanhando ocupantes da área e apresentando defesa técnica desde as fases iniciais.
Com o andamento do caso, novos assistidos teriam sido incorporados ao acompanhamento institucional. Posteriormente, a disputa passou a envolver questionamentos sobre possível irregularidade na transferência de patrimônio público para particulares.
Com base em informações técnicas apresentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), surgiu a hipótese de interesse da União sobre a área. Diante disso, a Defensoria passou a defender o deslocamento da competência para a Justiça Federal.
“O juízo determinou manifestação da Procuradoria da União, e a definição sobre qual esfera do Judiciário ficará responsável pelo caso ainda segue pendente.”
Uma trégua na luta
“A arrecadação das terras do Novo Andirá pelo Incra deverá encerrar um período de ameaças e inseguranças para milhares de famílias de posseiros que vivem naquela área há mais de uma geração”, afirma Rosana Nascimento.
As manifestações dos posseiros do Seringal Novo Andirá na sede regional do Incra em Rio Branco se tornaram recorrentes ao longo dos últimos anos e passaram a simbolizar a escalada do conflito agrário na região localizada entre os municípios do Bujari, no Acre, e Boca do Acre, no Amazonas.
Os atos reuniram famílias de agricultores, extrativistas e moradores antigos da área, que reivindicam reconhecimento como posseiros tradicionais e cobram do Incra a conclusão dos processos de regularização fundiária iniciados ainda nos anos 1980.
Em janeiro de 2026, uma das maiores mobilizações levou mais de 100 posseiros à frente da sede do órgão federal. O protesto ocorreu após a divulgação de uma decisão judicial de reintegração de posse que, segundo os manifestantes, poderia atingir cerca de 300 famílias instaladas no Seringal Novo Andirá.

Durante a manifestação, os trabalhadores rurais denunciaram supostas inconsistências no processo judicial. Eles afirmaram que o número de famílias residentes teria sido reduzido nos autos e que o tempo de ocupação da área não corresponderia à realidade vivida pelas comunidades. Segundo lideranças do movimento, muitas famílias vivem no local há mais de uma década, enquanto outras alegam presença histórica de mais de 40 anos.
Os protestos também tiveram momentos de tensão. Em uma das mobilizações, os manifestantes chegaram a ocupar a sede do Incra e anunciaram que só deixariam o local após receberem uma resposta oficial da superintendência regional.
As reivindicações giravam em torno da cobrança para que o Incra encaminhasse ao Judiciário documentos sobre antigos levantamentos fundiários realizados na área. Os posseiros sustentam que processos administrativos conduzidos pelo órgão identificaram famílias tradicionais dentro do seringal ainda na década de 1980, mas que a regularização nunca foi concluída.
Antes disso, ainda em 2018, representantes das comunidades estiveram em Rio Branco para denunciar ameaças armadas e intimidações no interior do seringal. Na época, relatos encaminhados ao Ministério Público apontavam a atuação de homens armados contra moradores da área em conflito.
Em 2022, novos atos e denúncias ganharam repercussão após posseiros acusarem a destruição de casas e plantações como forma de pressão para que deixassem a região. As famílias afirmavam que viviam em constante insegurança diante das disputas judiciais e da ausência de uma definição fundiária definitiva.

Um conflito longe do fim
Quase quatro décadas após os primeiros levantamentos fundiários realizados pelo Incra, o destino do Seringal Novo Andirá continua indefinido.
Embora a arrecadação das terras pela União represente um avanço para as famílias que reivindicam o reconhecimento como posseiras tradicionais, a medida não encerra os impasses acumulados ao longo de décadas. Permanecem em discussão a validade de títulos emitidos no passado, a responsabilidade por possíveis fraudes documentais, os processos judiciais ainda em curso e a definição sobre qual esfera do Judiciário deverá conduzir parte das ações.

Enquanto órgãos públicos, proprietários, posseiros e instituições de controle apresentam versões distintas sobre a origem e a titularidade das terras, dezenas de famílias seguem vivendo sob a mesma incerteza que marcou gerações anteriores.
Para os que decidem ficar, o conflito é marcado por algo que vai muito além das matrículas cartoriais: o direito de permanecer no lugar onde nasceram, trabalharam e construíram suas histórias.
No Novo Andirá, a disputa pela terra é um exemplo da disputa do território pela memória e pelo reconhecimento de direitos dos que vivem nele. Os nós que mantêm o conflito vivo na floresta continuam longe de serem desfeitos.
Os recursos gráficos que acompanham esta reportagem especial foram produzidos com o uso de recursos da inteligência artificial, utilizando como fundamentação a apuração jornalística de João Maurício da Rosa.


