A JUSTIÇA DOS JAGUNÇOS

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Execução de suspeito de roubo de gado expõe atuação da pistolagem na divisa Amacro 

Trecho da BR-317 na divisa do AC com o AM: pistolagem e jaguncismo impõem a lei dos fazendeiros em região conflagrada dda Amazônia (Foto: Acervo Varadouro)



Vítima foi emboscada por ocupantes de caminhonete em uma rua de Boca do Acre, no Sul do Amazonas; crime pode ter sido ordenado por “tribunal do jaguncismo” por Luciano Machado ser suspeito de roubo de gado. Atuação de pistoleiros na divisa Amacro transforma a região num “cangaço amazônico”.


João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco

A emboscada e a execução com ao menos 20 tiros de uma pessoa na noite de 23 de março numa rua da cidade de Boca do Acre – crime cometido por homens que estavam fortemente armados dentro de uma caminhonete Hilux -, escancara a atuação de pistoleiros contratados para fazer “justiça com as próprias mãos” e impor a lei do mais forte numa das regiões mais conflagradas da Amazônia: a tríplice divisa Amacro, formada pelos territórios do Amazonas, do Acre e de Rondônia.

A vítima, identificada apenas como Luciano Machado, de 43 anos, era suspeito de integrar uma quadrilha especializada em furto de gado das fazendas localizadas às margens da BR-317, cujas extensões chegam a ocupar os territórios do Acre e do Amazonas. Uma das propriedades furtadas recentemente pertence ao deputado federal Eduardo Veloso (SD-AC).

Após uma intensa mobilização policial – que reuniu as Polícias Civil do Acre e do Amazonas, além da Polícia Rodoviária Federal – os 45 bois furtados da fazenda do parlamentar foram recuperados em uma área do distrito da Vila Caquetá, em Porto Acre. Na ocasião, um homem foi preso por receptação dolosa.

Dias após a operação, Luciano Machado foi executado sem nenhuma possibilidade de defesa. Pelos muros baixos da pequena cidade de Boca do Acre, diz-se que ele era um dos envolvidos no roubo de gado na fazenda do deputado federal. Varadouro até tentou conversar com algumas pessoas da cidade, mas a lei do silêncio é a que prevalece.

A reportagem também procurou a assessoria de Eduardo Veloso, que informou que não tinha nenhum conhecimento sobre a execução ocorrida. Em janeiro, o deputado federal foi alvo de operação da Polícia Federal por suspeitas de irregularidades na destinação das chamadas “emendas pix”.

Operação que mobilizou as polícias do AC e do AM recuperou 45 bois roubados da fazenda de deputado federal (Foto: Reprodução ac24horas agro)




Justiça abala

De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, Luciano Machado teria relação com pessoas envolvidas em furtos de gado na região – informação que ainda não foi confirmada pelas autoridades. Varadouro entrou em contato tanto com o delegado de Boca do Acre quanto com o comandante da PM no município, mas nenhum deles quis se manifestar.

Segundo relatos, o crime ocorreu no Platô do Piquiá, nas proximidades do Banco da Amazônia, entre 21h e 22h40, horários que variam entre testemunhas e o registro policial. A vítima teria sido atraída até o local, onde foi surpreendida por homens que chegaram em uma caminhonete modelo Hilux, de cor cinza.

Testemunhas afirmam que se tratou de uma execução. Luciano não teria tido chance de reagir. Um dos relatos aponta que foram ouvidos cerca de 19 disparos antes da fuga dos suspeitos.

Apesar da gravidade do caso, ainda não há informações oficiais sobre o laudo de necrópsia. O procedimento deveria ser realizado no Instituto Médico Legal (IML) de Rio Branco, que atende ocorrências da região, mas não havia registro de entrada do corpo na unidade.

Nas redes sociais, familiares anunciam a morte de Luciano; na cidade, a lei do silêncio ante a atuação do jaguncismo



Como Boca do Acre não possui unidade de Polícia Técnica Científica, há uma cooperação entre os dois estados para que, em casos como estes, os corpos sejam levados para o IML de Rio Branco para as análises e produção dos laudos cadavéricos.

A Polícia Civil do Amazonas afirma seguir com as investigações e deve apurar a motivação e a autoria do crime. Essas foram as únicas informações oficiais repassadas pela assessoria da instituição em Manaus.

A pouca ou nenhuma disposição das autoridades amazonenses em investigar o caso contrasta com o empenho colocado em identificar os responsáveis pelo furto de gado na propriedade do deputado federal.


Um cangaço amazônico

A tríplice divisa Amacro já é conhecida pelos intensos e violentos conflitos de terra, com denúncias de pistoleiros contratados por fazendeiros para fazer a segurança das propriedades, e retirar à bala quem ousa passar os limites das porteiras e cercas.



SAIBA MAIS: Amacro: uma zona de conflitos



Na região são recorrentes os casos de pessoas que desaparecem ou são achadas mortas por liderar ocupações ou contrariar os interesses dos latifundiários.

Desde 2023, Varadouro produz uma série de reportagens com denúncias de ameaças, torturas e execuções de trabalhadores rurais que reivindicam a criação de projetos de assentamentos em áreas que eles afirmam terem sido griladas.

O ambiente é de um verdadeiro “cangaço amazônico”, em que a pistolagem atua sem nenhum pudor à luz do dia ou da noite; onde o que impera é a lei do manda quem pode, obedece quem tem juízo. Há suspeita, inclusive, da participação de policiais do Acre, de Rondônia e do Amazonas atuando como jagunços dos fazendeiros.

Varadouro apurou que, internamente, a Corregedoria da PM acreana tem inquérito interno sob sigilo para apurar este envolvimento.

Na região da Amacro, a chamada “justiça dos jagunços” não é exceção – é sintoma. Ela revela um território onde o Estado se ausenta, ou pior, se alia aos interesses que promovem a violência e a expulsão de populações tradicionais.

Nesse cenário, a lei que impera não é a dos tribunais, mas a da força, onde conflitos são resolvidos à bala e o medo se torna ferramenta de dominação. Como em outras regiões invisíveis e esquecidas do Brasil, cria-se uma ordem paralela em que a violência se legitima como regra – uma lógica que, longe de ser nova, repete estruturas profundamente enraizadas de poder e impunidade.

Romper com esse ciclo exige mais do que denúncia: requer presença efetiva do Estado, proteção às comunidades e responsabilização dos mandantes e executores dessa engrenagem de terror. Enquanto isso não acontecer, a Amacro seguirá sendo território onde a vida vale menos que a terra ou uma cabeça de gado – e onde a justiça, infelizmente, continua sendo feita à margem da lei.

Na tr´plice divisa Amacro há denúncias do envolvimento de policiais atuando como seguranças particulares de fazendeiros para proteger propriedades (Foto: Acervo Varadouro)





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