VIDAS AMEAÇADAS

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Facções avançam sobre a fronteira e ameaçam lideranças Ashaninka no Alto Juruá

Na última semana, homens do Gefron desembarcaram na aldeia Apiwtxa para garantir a segurança da comunidade indígena Ashaninka e buscar responsáveis por ameaças e intimidações a lideranças (Foto: Divulgação)





Após denúncias de lideranças Ashaninka sobre invasão armada na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, forças estaduais de segurança deflagram operação na região. Episódio expõe a crescente pressão do crime organizado sobre territórios indígenas na fronteira entre Brasil e Peru. Enquanto isso, Estado brasileiro, por meio do Exército, reduz sua presença no Vale do Juruá, fechando bases militares.


dos varadouros de Rio Branco

A escalada da violência associada ao crime organizado na fronteira entre Brasil e Peru voltou a atingir um dos territórios indígenas mais emblemáticos da Amazônia acreana: a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, do povo Ashaninka, localizada no Alto Juruá, encravada bem na linha de fronteira entre os dois países – região considerada estratégica pelo tráfico internacional de drogas como rota de entrada da cocaína produzida em território peruano no Brasil.

Ao menos desde 2016 a fronteira do Acre com a Bolívia e o Peru é alvo de disputa entre as duas principais facções criminosas do país: o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Uma disputa que deixou um banho de sangue nas cidades acreanas e se espalhou pelas áreas rurais, para se ter o controle de estradas, ramais, rios e igarapés que servem de rota para a passagem de drogas e armas.

Uma guerra que praticamente levou o Brasil a perder sua soberania na faixa de fronteira para as facções criminosas, deixando comunidades indígenas, ribeirinhas, extrativistas e de pequenos agricultores reféns da violência.

Nos últimos dias, lideranças Ashaninka receberam ameaças de homens armados dentro da aldeia Apiwtxa por se oporem à passagem de embarcações de facções criminosas vindas do Peru carregadas com entorpecentes. Uma situação pela qual eles já enfrentaram anos atrás.

Para dar uma resposta a essas ameaças, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) deflagrou a Operação Ashaninka após denúncia de invasão armada e ameaças contra lideranças da aldeia Apiwtxa. em Marechal Thaumaturgo.

A denúncia foi apresentada pela liderança Ashaninka Francisco Piyãko, qque também é coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), que relatou a entrada de homens armados no território nos dias 5 e 6 de julho. Segundo o relato encaminhado às autoridades, o grupo teria percorrido a comunidade à procura de lideranças indígenas e intimidado moradores, ampliando o clima de insegurança vivido pelas famílias da região.

A resposta do Estado ocorreu poucos dias depois. Equipes do Grupo Especial de Operações em Fronteira (Gefron), com apoio do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer), foram enviadas para a área. A primeira força policial chegou à região no dia 7 de julho, logo após a comunicação da ocorrência. Um segundo contingente foi deslocado na última quinta, 9, para reforçar as ações.

Embora a presença policial represente uma resposta imediata às denúncias, o episódio evidencia um problema que vem se agravando nos últimos anos: o avanço das facções criminosas sobre os rios e territórios da fronteira amazônica.

“Não é a primeira vez que eles entram aqui nos territórios, na região de fronteira, nesse mesmo formato: ameaçando lideranças, caçando lideranças. Mas eles nunca tinham entrado no nosso território [Ashaninka]. A gente acha isso muita audácia”, diz Francisco Piyãko, em entrevista ao Varadouro.

A liderança Ashaninka Francisco Piyãko denuncia atuaçaõ de grupos criminosos na fronteira que colocam em risco a vida dos povos indígenas (Foto: Arissom Jardim)



“É claro que a gente marca posição firme contra eles. A gente sempre protegeu essa fronteira. E agora eles acham que matando duas, três lideranças está resolvendo o problema deles. Não é bem assim. Eles não vão ter sucesso. A gente vai se fortalecer mais no sentido de proteger essa região”, ressalta ele.

“O que nós estamos vivendo é comum aqui na nossa região, mas nós nunca vamos aceitar isso.

A liderança indígena destaca como positiva a reação do Estado ao enviar suas forças de segurança ao território. Porém, defende Piyãko, a verdadeira resposta precisa ser estrutural. Uma ação conjunta entre os governos do Brasil e do Peru.

“O Estado tem que ter uma ação estrutural, com planejamento, inteligência. Marcar presença na região de fronteira. Eu acho que a fronteira está muito desprotegida pra esse tipo de situação”, afirma. “O Estado tem que se aproximar mais da região de fronteira. Eu sei que não é uma questão pontual. Ele envolve toda uma região fronteiriça.”

Por ser uma área de fronteira, as ações de proteção devem ser executadas pelo governo federal, por meio da Polícia Federal e do próprio Exército. Como destaca Francisco Piyãko, a única presença do Estado na região é o Pelo Especial de Fronteira (PEF), em Marechal Thaumaturgo, subordinado ao 61o Batalhão de Infantaria de Selva (BIS), em Cruzeiro do Sul.

Conforme Varadouro mostrou, em 2022 o Exército encerrou as atividades do Destacamento Especial de Fronteira (DEF) São Salvador, em Mâncio Lima. A base ficava bem na entrada de acesso ao Parque Nacional da Serra do Divisor, uma região localizada na bem fronteira com o Peru, e também rota estratégica para o tráfico internacional de drogas.

Em nota, o Exército informou que a desativação faz parte da modernização de sua presença na Amazônia. Ao desativar a base militar em Mâncio Lima, disse a força, foi possível fortalecer as ações em Marechal Thaumaturgo, por meio do PEF. Todavia, os relatos ainda são de dificuldades operacionais do Exército na região, muitas vezes faltando até combustível para suas embarcações fazer o patrulhamento nos rios.

A Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, bem no coração da fronteira entre Brasil e Peru, uma região cobiçada pelo crime organizado (Foto: Agência de Notícias do Acre)





Guardiões da floresta sob ameaça

Reconhecida internacionalmente pela experiência de gestão territorial e pela recuperação ambiental da região do Rio Amônia, a comunidade Apiwtxa transformou-se, ao longo das últimas décadas, em referência para a proteção da floresta e da cultura Ashaninka.

O povo liderou iniciativas de vigilância territorial, recuperação de áreas degradadas, fortalecimento da agricultura tradicional e cooperação transfronteiriça com comunidades indígenas do Peru.

Esse protagonismo, entretanto, passou a representar um obstáculo para organizações criminosas que buscam ampliar o controle sobre os rios da fronteira. Ao impedir a circulação de embarcações suspeitas e denunciar atividades ilegais às autoridades, as lideranças indígenas passaram a figurar entre os principais alvos de intimidações.

As ameaças relatadas por Francisco Piyãko revelam que a disputa pelo controle territorial deixou de envolver apenas madeireiros, caçadores ou invasores ocasionais. Em diversas regiões da Amazônia, ela passou a incorporar organizações criminosas altamente estruturadas, com atuação transnacional e grande capacidade de intimidação.

Nos últimos anos, autoridades brasileiras e peruanas têm registrado o fortalecimento das rotas do narcotráfico na região do Alto Juruá.

Com a ausência das forças de segurança federais na fronteira, Acre acaba por ser obrigado a executar sua própria estratégia de combate ao crime nas regiões vizinhas ao Peru e Bolívia (Foto: Agência de Notícias do Acre)




A proximidade com áreas produtoras de coca no Peru, associada à baixa presença permanente do Estado em extensas áreas da floresta, transformou rios como o Amônia, Breu, Juruá, Moa, Juruá-Mirim e seus afluentes em corredores estratégicos para o transporte de drogas em direção ao território brasileiro.

Especialistas em segurança pública apontam que o domínio dessas rotas passou a fazer parte da estratégia de expansão de facções criminosas na Amazônia. Nesse contexto, terras indígenas e unidades de conservação deixaram de ser vistas apenas como áreas ambientalmente protegidas. Tornaram-se também territórios estratégicos na disputa pelo controle da logística do crime organizado.

E, dessa forma, a extensa área de fronteira do Brasil com o Peru – com seus mais de dois mil quilômetros – fica vulnerável ao fortalecimento das facções criminosas – onde a soberania do Estado brasileiro por meio de suas instituições está seriamente comprometida ante a presença organizada, financiada e armada dos grupos criminosos, deixando as populações tradicionais da floresta reféns de todo tipo de violência.




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