
Por Redação Varadouro
O Museu da Pessoa acaba de imortalizar em seu projeto “Vidas, Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas”, a história de um dos personagens mais emblemáticos da luta indigenista na Amazônia: Terri Valle de Aquino, conhecido como Txai Terri.
Filho das “águas brancas” amazônicas, Terri nasceu em Jaguaribe, Ceará, em 1946, durante uma travessia fluvial de seus pais rumo ao Nordeste. Criado no Acre, partiu para o Rio de Janeiro em 1963 com uma bolsa de estudos, onde se formou em Sociologia e Política pela PUC-Rio. Foi lá, e em incursões pelo Maranhão estudando o Bumba meu boi, que ele descobriu o poder do gravador e da história de vida como ferramentas de resistência cultural.
Ao retornar ao Acre em 1975, a convite do governo para auxiliar a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Terri deparou-se com uma realidade invisibilizada: os índios dos seringais. Em locais como o Seringal Fortaleza, ele encontrou povos como os Huni Kuin vivendo sob o “cativeiro da dívida”, pagando aluguel (renda) para morar na própria floresta.
Ao lado de lideranças como o xamã Carlito e o mestre Sueiro, Terri foi além do antropólogo pesquisador; desse convívio nasceu o “Txaísmo”: um modelo de indigenismo baseado na parceria, onde o antropólogo atua como facilitador, garantindo que o protagonismo seja sempre dos povos originários.
Um dos pontos centrais da homenagem no Museu da Pessoa é a relação de Terri com as plantas de poder, como a Ayahuasca (Nixi Pae) e o Rare Muká (a batata dos sonhos). Em uma miração histórica no Rio Breu em 1978, Terri relata ter tido um diálogo com espíritos onde escolheu a “fama” em vez do “dinheiro”, sob a condição de que os recursos atraídos por seu trabalho beneficiariam apenas as comunidades.
Essa orientação definiu sua ética: transparência absoluta e dedicação à formação de agentes agroflorestais, professores e profissionais de saúde indígenas. Recentemente, sua atuação foi decisiva no processo de identificação da terra do povo Nawa.
A Luta e o “Pasto de Boi”
A trajetória de Terri foi marcada por enfrentamentos. Em 1979, chegou a ser dado como desaparecido enquanto fugia de uma ordem de prisão emitida pelo governo da época, o que gerou repercussão nacional. Em 1983, em Cruzeiro do Sul, foi violentamente agredido por herdeiros de seringalistas por defender os direitos territoriais dos povos da região.
Ele foi uma das vozes que denunciou que o Acre corria o risco de “virar pasto de boi” devido ao avanço da pecuária sobre as terras indígenas e seringais. Como cofundador da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre) em 1979, ajudou a pavimentar o caminho para a demarcação de mais de dez terras indígenas, incluindo as bacias dos rios Jordão e Humaitá.



