Seca atinge 67% do Acre e reacende alerta para novo ciclo de eventos extremos em 2026

Monitor da ANA mostra retorno da estiagem após quatro meses sem registro do fenômeno; rios entram em vazante, previsão indica chuvas abaixo da média e aumenta preocupação com queimadas e impactos sobre comunidades rurais e ribeirinhas. Rio Branco pode decretar, ainda essa semana, situação de alerta por conta da estiagem. MPF realiza audiência para debater ações de mitigação ante cenário de crise climática.
dos varadouros de Rio Branco
Depois de um primeiro semestre marcado por enchentes em diversas regiões do estado, o Acre começa a entrar novamente no ciclo da estiagem, à medida que os dias do verão amazônico se intensificam. A combinação entre a redução do nível dos principais rios, a previsão de chuvas abaixo da média histórica e o retorno da seca a cerca de 67% do território acreano acendem um novo sinal de alerta para os próximos meses. Com a chegada do mês de julho e o aumento da severidade da seca também crescem os casos de queimadas e incêndios florestais – com a consequente contaminação do ar respirado pela população.
Os dados mais recentes do Monitor de Secas, elaborado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), mostram que o fenômeno voltou a atingir o Acre em maio, após quatro meses sem registro de estiagem no estado. O período, obviamente, está relacionado com os meses do “inverno amazônico”, quando recorrentes alagações foram registradas do Vale do Acre ao Juruá.
Embora classificada como “seca fraca”, a estiagem já alcança aproximadamente dois terços do território acreano, evidenciando o início de uma nova transição para o período seco. Conforme o monitoramento, a seca registrada em 67% das terras acreanas, em maio passado, é o maior percentual do Acre, desde os 88% observados em novembro de 2025.
A, o avanço da estiagem ocorre em um contexto de intensificação do fenômeno em parte da Amazônia e do Centro-Oeste brasileiro, enquanto outras regiões do país registram redução dos efeitos da estiagem. O monitor considera indicadores como volume de chuvas, umidade do solo, vazão dos rios e impactos observados na vegetação e nas atividades econômicas.
O cenário coincide com o mais recente boletim hidrometeorológico divulgado pelo Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma), que aponta redução dos níveis em praticamente todas as bacias hidrográficas monitoradas no Acre. As medições realizadas nesta semana registraram queda nos rios Acre, Purus, Tarauacá, Envira e Juruá, acompanhando a diminuição das chuvas observada nos últimos dias.
Em Rio Branco, por exemplo, o Rio Acre atingiu 2,58 metros na manhã deste primeiro dia de julho, permanecendo abaixo da cota de alerta máximo de estiagem, que são de 2,69 metros. Em praticamente todas as plataformas de monitoramento da Bacia do Rio Acre houve redução do nível das águas, com exceção de Xapuri, que apresentou pequena elevação.
O boletim também indica que entre o fim de junho e o início de julho as chuvas deverão variar entre apenas 1 e 10 milímetros em grande parte do estado, com anomalias negativas de precipitação em praticamente todo o território acreano. Em outras palavras, na prática, isso significa que deverá chover menos do que normalmente se espera para esta época do ano.
COMBATE À DESINFORMAÇÃO
No Instagram, Varadouro aborda boatos em redes sociais de que estado não é impactado pelo fenômeno El Niño
Diante do cenário de intensificação da seca, a Defesa Civil de Rio Branco já prepara seu plano de contigência para o enfrentamento a uma crise de segurança hídrica na capital acreana, em especial nas comunidades rurais. Desde 2020 a prefeitura realiza a operação Estiagem, que fornece água potável para as áreas que veem suas fontes de abastecimento (como açudes, poços e igarapés) secarem por completo.
De acordo com o coronel Cláudio Falcão, coordenador da Defesa Civil, a perspectiva é que a distribuição de água para as comunidades já se inicie nos próximos dias. Se antes este fornecimento se dava a partir de agosto, com a intensificação da seca ele se faz necessário começar cada vez mais cedo.
“Nós já fizemos vistoria em todas as comunidades onde a gente já atende, que são 42. Nós saímos de 34 caixas d’águas instaladas nas comunidades para mais de 350. Neste locais nós vamos até ampliar o abastecimento, pois há um aumento no número de moradores, e houve um aumento nos pedidos por parte das comunidades”, afirma o coordenador.
Cláudio Falcão afirma que a Defesa Civil, em conjunto com o gabinete do prefeito Alysson Bestene (PP), estuda decretar, ainda essa semana, situação de alerta ambiental na capital acreana por conta da seca. Essa é uma medida que já acontece praticamente todos os anos ante à intensificação dos impactos da estiagem não só em Rio Branco, mas em todo o Acre.
O agravamento da crise climática no estado ao longo da última década – que impacta sobretudo as comunidades mais vulneráveis nas periferias e zona rural – demonstram exigir não somente ações de pronta-resposta (com a decretação de emergência ambiental, distribuição de água e cestas-básicas, combate a incêndios), mas também políticas séries e contínuas de adaptação ao “novo normal” do clima.

Este foi o tema central debatido durante audiência pública realizada pelo Ministério Público Federal (MPF) nesta terça-feira, 30, em Rio Branco. “O Ministério Público Federal vem tratando a emergência climática como uma realidade presente e contínua, não mais como algo eventual”, afirmou a subprocuradora-geral da República Luiza Frischeisen, coordenadora da Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (4CCR).
Frischeisen também chamou atenção para a necessidade de incorporar evidências científicas ao planejamento urbano e territorial, inclusive diante de medidas complexas, como a eventual realocação de comunidades afetadas por desastres recorrentes.
Responsável por instaurar inquérito civil que apura a omissão da União em cenários de emergência climática, o procurador regional dos Direitos do Cidadão no Acre, Lucas Dias, declarou que, desde sua chegada ao estado, em 2020, observou fenômenos intensos que se agravam pela falta de capacidade institucional do Estado para lidar com esses eventos.
“Historicamente, o sistema de justiça atua de forma repressiva ou após os desastres. Percebe-se uma clara falta de coordenação: o município desenvolve atividades que não necessariamente se conectam com as do estado”, disse.
Segundo o procurador, o objetivo do encontro é reunir informações técnicas, ouvir especialistas, órgãos públicos e representantes da sociedade civil para subsidiar a atuação do MPF na fiscalização das políticas públicas voltadas à prevenção, mitigação e adaptação climática.

Populações mais vulneráveis
Na avaliação do procurador da República Luigi dos Santos, titular da área socioambiental no Acre, os efeitos da crise climática recaem de forma desproporcional sobre povos indígenas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais, cuja organização social e acesso às políticas públicas dependem diretamente do regime dos rios amazônicos.
No fim de abril, diferentes comunidades indígenas das bacias do Tarauacá/Envira e do Juruá foram afetadas pelo transbordamento dos mananciais, destruindo seus roçados, criações de animais, fontes de água potável e sistema de geração de energia com placas solares.
“O impacto climático nas comunidades tradicionais, especialmente as indígenas, é muito palpável; eles são os primeiros a serem atingidos por esses eventos extremos”, afirmou o procurador.
Ele explicou que alterações no regime de chuvas e secas comprometem desde a construção de escolas indígenas até o abastecimento de água e alimentos. Após as grandes enchentes registradas em 2024, o MPF recomendou a criação de um grupo de trabalho envolvendo órgãos como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) para aprimorar as respostas institucionais às emergências climáticasz
Embora reconheça avanços, como ações integradas voltadas à segurança alimentar e ao abastecimento de água, o procurador defendeu maior coordenação entre os entes federativos e planejamento de longo prazo para áreas sujeitas a inundações recorrentes.
Temperaturas acima da média e sinais de fortalecimento do El Niño
Além da redução das chuvas neste verão de 2026, outro fator preocupa meteorologistas. As análises utilizadas pela Sema apontam o aumento das temperaturas do Oceano Pacífico, um comportamento considerado compatível com a evolução para um novo episódio do fenômeno El Niño.
Os modelos climáticos também indicam temperaturas acima da média histórica para o Acre, Rondônia, Mato Grosso e parte do sul da Amazônia. Caso o fenômeno se consolide nos próximos meses, existe potencial para redução adicional das chuvas, prolongamento da estiagem e aumento do risco de queimadas e incêndios florestais.
Embora ainda seja cedo para afirmar que o estado enfrentará uma seca semelhante à registrada em 2024, especialistas destacam que o conjunto de indicadores merece acompanhamento permanente. Nos últimos anos, o Acre passou a conviver com uma sucessão de eventos climáticos extremos, alternando enchentes históricas durante o inverno amazônico e secas severas acompanhadas por ondas de calor e e incêndios florestais durante o verão.

Um novo padrão climático
A alternância cada vez mais rápida entre cheias e estiagens vem sendo apontada por pesquisadores como uma das principais características da crise climática na Amazônia. Além das variações naturais do clima, fenômenos como El Niño atuam hoje sobre uma floresta submetida ao avanço do desmatamento, das queimadas e ao aumento da temperatura média global, potencializando seus impactos.
Os efeitos vão muito além da redução dos níveis dos rios. A estiagem compromete o abastecimento de comunidades rurais e indígenas, dificulta a navegação, eleva os custos do transporte fluvial, afeta a produção agrícola e cria condições favoráveis para a propagação de incêndios florestais, que nos últimos anos cobriram cidades acreanas por semanas com fumaça intensa.
Diante desse cenário, o retorno da seca registrado pelo Monitor de Secas da ANA representa mais do que uma mudança sazonal. Ele reforça a necessidade de planejamento antecipado por parte do poder público para enfrentar um período que, nos últimos anos, deixou de ser apenas o verão amazônico para se transformar em uma sucessão de crises ambientais, econômicas e sociais.
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