QUEM PAGA A CONTA?

Compartilhe

Quinta alagação consecutiva em Cruzeiro do Sul escancara o racismo ambiental na Amazônia

Entre o barranco e o concreto: mesmo “adaptadas” aos transbordamentos do rio Juruá, população dos bairros mais vulneráveis de Cruzeiro do Sul têm suas vidas seriamente afetadas com as cheias (Foto: Tatiane Sousa/Varadouro)




No último fim de semana, o Varadouro percorreu, de canoa, bairros da cidade afetados pela quinta inundação consecutiva em quatro meses. Mesmo com as suas próprias adaptações ribeirinhas, comunidades mais vulneráveis relatam os impactos de terem suas vidas afetadas por uma crise climática que elas não provocaram; pelas ruas do Miritizal e do Cruzeirinho é evidente notar que o conceito de racismo ambiental não é apenas uma retórica – mas uma realidade.



Tatiane Sousa
dos varadouros de Cruzeiro do Sul

Mesmo com a vazante do rio Juruá, a paisagem que se revela em Cruzeiro do Sul está longe de qualquer sensação de alívio. Ao percorrer a cidade de canoa, o que se vê é o rastro insistente de um ciclo que se repete com frequência cada vez mais alarmante e intenso: águas que invadem, desalojam, adoecem e empobrecem. Este foi o cenário encontrado pela reportagem do Varadouro no último fim de semana ao percorrer ruas transformadas em córregos pelos bairros do Miritizal, Cruzeirinho e a comunidade ribeirinha da Boca do Môa no último fim de semana.

Após alcançar a marca de 14,19 metro (m) em primeiro de maio, o Juruá apresenta sinais de vazante e estava, na manhã desta terça-feira (5), em 13,81m – 80 centímetros acima da cota de transbordamento na cidade, que é de 13m. Em 2026, já foram cinco alagações consecutivas.

A terceira maior cheia da história recente da “capital do Juruá” atingiu quase 30 mil pessoas e mais de 7 mil famílias – números que, por si só, não dão conta de traduzir o impacto cotidiano vivido nas margens do rio.

Abril, mês em que tradicionalmente o Acre começa a sentir a transição do inverno para o verão amazônico, veio acompanhado de chuvas acima da média. Foram 219,6 milímetros (mm) acumulados – 7,5% acima do esperado – um dado que ajuda a explicar o comportamento cada vez mais imprevisível dos rios na região.

Antes de atingir as cidades, os transbordamentos causaram estragos imensuráveis em comunidades indígenas e ribeirinhas, destruindo roçados de macaxeira, casas de farinha, criações de animais e poços – criando um ambiente de verdadeira vulnerabilidade para as populações da floresta.

Ao todo, 12 bairros, 15 comunidades rurais e quatro vilas foram afetados. Mais de 600 famílias ficaram desalojadas e ao menos 160 residências tiveram o fornecimento de energia cortado. Com o nível do rio recuando para 13,81 metros, a prefeitura iniciou o trabalho de retorno gradual das famílias que estavam abrigadas em escolas – um retorno que, na prática, significa recomeçar entre perdas.

Nos bairros mais baixos, aqueles espremidos entre a cidade e o barranco do rio, os prejuízos são múltiplos. Trabalhadores que sustentam a economia local – pescadores, feirantes, pequenos produtores – enfrentam dificuldades para se deslocar, perdem utensílios, veem suas casas deterioradas e ficam expostos a doenças como leptospirose, além da constante falta de água potável.

No Miritizal, um dos bairros mais populosos, a rotina segue atravessada pela água. Mesmo com o imponente Juruá aos poucos vazando, ruas inteiras ainda só podem ser acessadas por canoas, evidenciando a precariedade estrutural de uma cidade que cresce sem conseguir se proteger – ou se adaptar aos eventos climáticos extremos.



LEIA TAMBÉM:

Como a população de Cruzeiro do Sul faz sua própria adaptação ante as alagações do rio Juruá

“Por mais que a gente tenha tradição de viver às margens do rio, a cheia dificulta tudo: falta energia, falta água, as pessoas não conseguem trabalhar e ainda perdem o pouco que têm”, relata Lourenço de Jesus, liderança comunitária do Miritizal de Baixo.

Com a vazante, a vida tenta retomar seu curso. Pescadores voltam às margens do Juruá e à foz do rio Moa, amarram suas redes, procuram o mandim – não apenas como alimento, mas como gesto de resistência diante de um cotidiano que insiste em desmoronar.

Mas o que acontece no Vale do Juruá está longe de ser um episódio isolado. A região se consolida como uma das mais vulneráveis do Acre diante da intensificação dos eventos climáticos extremos. Cheias e secas severas deixaram de ser exceções e passaram a compor um “novo normal” – marcado pela repetição de desastres e pela ausência de respostas estruturais em todo o Acre.

Os impactos recaem, sobretudo, sobre quem menos contribuiu para essa crise: populações periféricas, comunidades ribeirinhas, povos indígenas, extrativistas e agricultores familiares. Trata-se do que especialistas definem como racismo ambiental – quando os efeitos das mudanças climáticas atingem de forma desproporcional aqueles que, historicamente, vivem à margem das políticas públicas.

Recém-inaugurado, “linhão” de transmissão de energia levou o “progresso” a Cruzeiro do Sul, enquanto a população mais pobre é a mais impactada pela crise climática (Foto: Tatiane Sousa/Varadouro)



Estudos recentes reforçam esse cenário. Segundo o Observatório do Clima, 77% dos municípios acreanos apresentam alta vulnerabilidade climática e fiscal, sem recursos suficientes para enfrentar eventos cada vez mais frequentes e intensos.

A cada evento de seca ou alagações, prefeituras e governo recorrem a decretos de calamidade pública para receberem recursos de Brasília. Uma verba que, muitas das vezes chega atrasada, e nunca sabemos exatamente como é aplicada.

Diante disso, as enchentes do Juruá deixam de ser apenas fenômenos naturais e passam a revelar um colapso anunciado. No Vale do Juruá, a crise climática não é uma abstração – é uma realidade que invade casas, interrompe vidas e expõe, mais uma vez, a urgência de políticas públicas capazes de proteger quem vive na linha de frente dessa emergência.

E o mais preocupante ainda é saber que, dentro de mais algumas semanas (talvez meses), poderemos estar vivendo sob os efeitos de uma das mais graves secas dos últimos anos; de um verão amazônico que tende a ser bastante rigoroso, influenciado pelo fenômeno El Ninõ.



Nascida às margens do rio Juruá, a cidade de Cruzeiro do Sul se vê afetada, ano após ano, por um manancial de comportamentos cada vez mais intensos; quando não são as alagaões, as secas severas o levam a vazantes críticas (Foto: Tatiane Sousa/Varadouro)
Logomarca

Deixe seu comentário

VEJA MAIS