
Artigo de Francisco Piyãko*
Está ficando comum ver políticos, em várias partes do Brasil, adotando uma postura perigosa quando falam dos povos indígenas, da floresta e do desenvolvimento. A gente vê isso no Congresso, nos estados, nos municípios, de vereador a senador. Eles começam dizendo que querem discutir progresso, mas logo colocam os povos indígenas como atrasados, pobres, coitadinhos, impedidos de crescer porque estariam controlados por ONG ou por alguém de fora.
Isso não é verdade. Isso é desconhecimento. E mais do que desconhecimento: é uma forma de preconceito.
Nenhuma pessoa que fala assim tem legitimidade para falar por nós. Nenhuma autoridade, nenhum parlamentar, nenhum prefeito, nenhum vereador tem o direito de falar em nome dos povos indígenas sem nos ouvir. Muito menos de questionar nosso modo de vida, nossa cultura, nossa língua, nossa relação com a floresta, com os rios e com os nossos territórios.
Não somos pobres do jeito que tentam nos apresentar. Não estamos vivendo a miséria que alguns políticos querem usar como argumento para defender seus próprios interesses. Nós sabemos quem somos. Sabemos onde estamos. Sabemos o que defendemos. Sabemos também o que está acontecendo no mundo.
Nós temos produção. Temos alimento. Temos fartura nos nossos territórios. Em cada lugar por onde passamos, a gente vê a força da produção indígena, a comida partilhada, o banquete que nasce da terra, do rio, da floresta e do trabalho das comunidades. Isso também é riqueza. Isso também é desenvolvimento. Isso também é vida.
Querer empobrecer os povos indígenas é tirar a gente desse ambiente. É arrancar nossas crianças do lugar onde elas têm espaço para brincar, crescer, aprender, viver com liberdade e conhecer a história do seu povo. É levar uma população inteira para dentro dos centros urbanos com a promessa de que ali vai melhorar de vida, quando muitas cidades ainda não resolveram a pobreza, a falta de saneamento, de moradia, de alimento, de saúde e de educação.
Que vida querem dar para nós?
A vida da periferia abandonada?
A vida sem território?
A vida sem rio limpo, sem floresta, sem língua, sem cultura, sem autonomia?
Dizer que estamos isolados é conversa. Daqui da floresta, nós enxergamos o mundo. Sabemos das guerras, dos interesses econômicos, das disputas por terra, água, minério, madeira e energia. Sabemos também o grau de pobreza que existe em muitas cidades, principalmente nas periferias, onde falta saneamento, moradia, alimento, educação e saúde. Se esse modelo urbano ainda não resolveu a pobreza de tanta gente, por que querem dizer que ele é a única salvação para os povos indígenas?
Nós vivemos na floresta porque essa é uma escolha nossa, uma herança dos nossos antepassados e um direito reconhecido. A Constituição Federal reconhece a organização social, os costumes, as línguas, as crenças, as tradições e os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Isso não é favor de governo. Não é concessão de político. É direito.
Quando dizem que querem nos dar liberdade, é preciso perguntar: liberdade para quem? Para nós decidirmos ou para outros decidirem por nós? Porque a autonomia indígena não é abrir nossas terras para invasão.
Autonomia não é permitir que interesses de fora entrem nos territórios em nome de um progresso que não foi escolhido por nós. Autonomia é o direito de viver, se organizar, proteger e decidir conforme nossa cultura, nossa história e nossa forma de compreender a vida.
Nós respeitamos o meio ambiente porque sabemos a importância da floresta. Sabemos a importância do rio. Para nós, o rio não é esgoto. O rio é vida. A floresta não é atraso. A floresta é vida. É alimento, remédio, espiritualidade, memória, conhecimento, futuro. A nossa cultura, a nossa tradição, a nossa língua e o nosso modo de viver em harmonia com a natureza não foram inventados agora. Vêm dos nossos antepassados.
Também não aceitamos que esse modelo de fora seja levado para dentro dos nossos territórios como se fosse solução. Onde esse modelo chegou abrindo estrada, levando agronegócio, explorando rio, minério e madeira, ele não ajudou os povos indígenas. Ele empobreceu. Ele trouxe conflito, invasão, destruição e perda de autonomia. Esses exemplos nós conhecemos. E é por isso que nós não queremos esse caminho.
Por isso, quando alguém diz que terra indígena impede o desenvolvimento, está olhando para a Amazônia com os olhos da exploração. Para nós, desenvolvimento não é destruir a floresta para depois chamar isso de progresso. Desenvolvimento é ter saúde, educação, comunicação, transporte quando necessário, produção, segurança, autonomia e respeito, sem perder o território, a cultura e a vida.
Nós não somos contra direitos. Nós queremos direitos. Queremos políticas públicas. Queremos ser respeitados. Queremos que nossos jovens estudem, que nossas comunidades tenham atendimento de saúde, que nossas línguas continuem vivas, que nossos territórios sejam protegidos, que nossas decisões sejam ouvidas.
O que nós não aceitamos é que usem a palavra desenvolvimento para tentar violar nossos direitos. Não aceitamos que nos chamem de atrasados para justificar invasão. Não aceitamos que digam que somos manipulados para negar nossa capacidade de pensar, decidir e lutar. Não aceitamos que falem por nós sem conhecer nossa realidade.
As nossas terras não estão disponíveis para esse tipo de invasão. Nós sabemos nos organizar. Sabemos nos proteger. Estamos firmes na defesa daquilo que é nosso direito.
Quem quer discutir desenvolvimento precisa primeiro aprender a respeitar. Precisa conhecer a realidade dos povos indígenas antes de nos taxar de pobres, miseráveis ou incapazes. Precisa entender que floresta em pé não é atraso. Rio limpo não é atraso. Língua viva não é atraso. Cultura preservada não é atraso. Território protegido não é atraso.
Atraso é continuar repetindo preconceitos antigos com palavras novas. Atraso é achar que os povos indígenas precisam ser tutelados. Atraso é tratar a floresta como mercadoria e o rio como esgoto. Atraso é imaginar que só existe um jeito de viver, produzir e desenvolver. Nós sabemos muito bem o que estamos fazendo. E o que estamos fazendo é proteger a vida.
Então, deixa a gente viver em paz. Deixa a gente viver no nosso canto. Se quiserem saber o que nós queremos, vão visitar o nosso território. Vão conversar com a gente. Vão ouvir nossas lideranças, nossas mulheres, nossos jovens, nossos anciãos. Não fiquem fazendo discurso sobre nós sem perguntar o que nós queremos.
Porque ninguém tem o direito de falar por nós sem nos ouvir. E ninguém tem o direito de chamar de atraso aquilo que, para nós, é vida.
*Francisco Piyãko é liderança do povo Ashaninka e Coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj)



