UM ACRE EM CRISES

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Após inundações, Acre pode ser impactado por mais uma seca severa

Acre, de um extremo a outro; à esquerda, populaão de Cruzeiro do Sul afetada pelas constantes e intensas alagações do rio Juruà. À direita, o rio Acre em suas estiagens críticas que comprometem a segurança hídrica de metade do estado (Fotos: Paulo Henrique Costa e Alexandre Cruz Noronha)




Cientistas da tríplice fronteira MAP alertam para avanço do El Niño e listam medidas urgentes para evitar colapso ambiental e crise humanitária na Amazônia Sul-Ocidental; crise de uma seca severa vem logo após região ser impactada por um dos períodos de chuvas mais intensos dos últimos anos, com transbordamento constante de mananciais.


dos varadouros de Rio Branco

Ainda nem recuperado dos impactos ocasionados por um dos invernos amazônicos mais intensos dos últimos anos, com comunidades indígenas e ribeirinhas tentando se recompor das alagações de uma semana atrás, o Acre pode estar à beira de uma nova crise climática – desta vez, marcado pela seca severa, ondas de calor, incêndios florestais e contaminação do ar. Um verdadeiro apocalipse climático para uma sociedade que passa a ser atingida, ano após ano, pelos eventos extremos de um clima em colapso.

Um alerta divulgado nesta quinta-feira, 30 de abril, por cientistas da Iniciativa MAP – que reúne pesquisadores de Madre de Dios (Peru), Acre e Pando (Bolívia) – aponta que há mais de 60% de probabilidade de formação de um novo fenômeno El Niño já entre maio e julho, com intensificação até o fim de 2026 -e efeitos ainda em 2027. Já a chance de sua intensidade ser classificada como muito forte, igual à ocorrida e vivida pela população entre 2023 e 2024, é de 20%.

Os efeitos daquele grande El Niño de dois anos atrás ainda estão na memória. Foi um momento crítico marcado pela seca de rios, igarapés, açudes e poços (deixando uma parte expressiva da população em insegurança hídrica), incêndios florestais e queimadas que deixaram as cidades acreanas em níveis extremos de contaminação do ar por material particulado – levando milhares de pessoas aos hospitais por problemas respiratórios – e mais os efeitos das ondas de calor para a saúde.

“Essa seca deve se intensificar a partir de julho, porém em maio e junho já vamos sentir o seu início, com situação de saturação do solo, seca, altas temperaturas , o que proporciona um cenário para queimadas. Vamos sair da inundação para uma seca que afetará 100% da população”, afirmou o coronel Cláudio Falcão, coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, em entrevista recente.

O alerta para 2026, construído por mais de 20 pesquisadores ligados a instituições como a Universidade Federal do Acre (Ufac), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e universidades amazônicas, indica que o cenário pode repetir – e até agravar – episódios recentes de crise climática. Eventos anteriores de El Niño já provocaram secas intensas e favoreceram grandes incêndios florestais na tríplice fronteira MAP, como em 1997–98, 2015–16 e 2023–24.

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Um dos coordenadores do estudo é o ecólogo Irving Foster Brown, da Ufac. Em 2023, ele concedeu entrevista ao Varadouro falando sobre o cenário de crise e colapso do clima na região amazônica.

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Mas desta vez há um agravante: o aquecimento global. A concentração de dióxido de carbono aumentou cerca de 16% nas últimas décadas, intensificando o calor e a irregularidade das chuvas. Na prática, isso significa secas mais severas, ondas de calor mais prolongadas e maior risco de colapso de ecossistemas amazônicos .

Outro dado alarmante está ligado à saúde pública. Segundo o relatório, a fumaça das queimadas pode reduzir a expectativa de vida da população da região entre dois e três anos – um impacto silencioso, mas devastador .



Região sob pressão climática

Os pesquisadores alertam que a crise não depende apenas do El Niño, que são as temperaturas acima da média das águas do oceano Pacífico na chamada Zona Equatorial – próximo ao litoral peruano.

Outros fatores, como o aquecimento do Atlântico (fenômeno denominado pela sigla em inglês AMO) e o avanço do desmatamento e da mineração na fronteira panamazônica, também contribuem para agravar a seca.

Em 2005, por exemplo, a Amazônia Sul-Ocidental registrou um dos piores anos de incêndios florestais sem influência direta do El Ninõ, porém mais do AMO e de aspectos locais do clima. Estima-se que em 2005 o Acre teve mais de meio milhão de hectares de fogo em áreas de floresta fechada.

Rio Branco, setembro de 2024: uma cidade tomada pela fumaça das queimadas fora de controle, num cenário de falta de chuvas e ondas de calor (Foto: Juan Diaz)



Além disso, a combinação entre calor extremo, uso do fogo na agropecuária, mineração e degradação ambiental cria um cenário propício para crises rápidas: falta de água, mortandade de animais, perdas agrícolas e riscos diretos à vida humana.

De acordo com o relatório MAP, aspectos globais das mudanças climáticas também acabam por interferir nos eventos mais extremos na região amazônica, como a emissão de gases do efeito estufa. “Mais preocupante do que os impactos dos El Niños e AMO é o aumento de gases de efeito estufa, principalmente o CO2 (gás carbônico), que serve como meio para ter mais energia termal na atmosfera, aumentando a capacidade da atmosfera para reter água, seja secando ambientes, seja no transporte de chuvas mais fortes”, diz trecho do estudo.

Diante desse quadro, os cientistas defendem que governos e comunidades se preparem para o pior cenário possível – inclusive um El Niño muito forte, mesmo que sua probabilidade seja estimada em cerca de 20% .


Os 10 alertas urgentes às autoridades

O relatório lista um conjunto de recomendações que, na prática, funcionam como um plano emergencial para evitar uma nova tragédia socioambiental na região:

  1. Reforçar o sistema de saúde
    Ampliar a capacidade de atendimento, especialmente para doenças relacionadas ao calor e à fumaça.
  2. Garantir abastecimento de água
    Criar planos de contingência para comunidades urbanas e rurais.
  3. Evitar o uso do fogo na produção rural
    Reorganizar calendários agrícolas para eliminar queimadas em 2026.
  4. Combater incêndios com rapidez
    Investir em brigadas, equipamentos e monitoramento para conter focos iniciais.
  5. Proteger populações vulneráveis do calor extremo
    Foco em idosos, crianças e trabalhadores expostos.
  6. Priorizar territórios indígenas
    Criar estratégias específicas para povos altamente vulneráveis, incluindo grupos isolados.
  7. Educar para a crise climática
    Inserir o tema nas escolas e universidades como política pública permanente.
  8. Expandir o monitoramento climático e da qualidade do ar
    Fortalecer redes de dados para antecipar desastres.
  9. Proteger e recuperar ecossistemas
    Combater o desmatamento e restaurar áreas degradadas.
  10. Controlar impactos da mineração
    Garantir água, monitoramento ambiental e proteção aos trabalhadores durante a seca .



Entre a cheia e a seca: um Acre de extremos climáticos e políticos

O alerta da Iniciativa MAP evidencia uma realidade cada vez mais comum na Amazônia: extremos climáticos sucessivos. Se antes a região era marcada pela regularidade das chuvas, hoje vive um ciclo instável de cheias intensas e secas prolongadas.

Para o Acre, que ainda contabiliza prejuízos recentes das enchentes, o risco de uma nova crise ambiental e social acende um sinal vermelho. Mais do que um fenômeno natural, o que está em jogo é a capacidade de resposta dos governos diante de uma emergência climática que já deixou de ser previsão – e passou a ser rotina.

E como se diz que nada é tão ruim que não possa piorar, o estado será afetado por uma seca extrema em pleno período de campanha eleitoral – quando há uma fragilização ainda maior das ações de fiscalização e repressão a delitos ambientais para não se perder voto. E tudo isso ainda mais num ambiente político dominado pelo negacionismo da extrema-direita que rejeita a tese de mudança climática e responsabiliza a agenda de proteção da floresta pelo “empobrecimento do estado”.

Como se observa, o ano de 2026 exigirá muita resiliência – não só ambiental, mas social.

E também como salta aos olhos: a nossa crise não é só a climática, mas também política.


Com ambiente mais seco e quente, há grandes riscos para queimadas e incêndios florestais fora de controle em 2026, ampliando cenário de crise (Foto: Secom Acre)
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