Enchentes afetam comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas no Acre e Amazonas

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Na TI do Rio Gregório, em Tarauacá, todas as 18 aldeias Yawanawa e Noke Ko’í estão afetadas pela alagação do manancial; roçados e criações estão comprometidos (Fotos: Divulgação)




Na TI do Rio Gregório, em Tarauacá, todas as 18 aldeias dos povos Yawanawa e Noke ko’í estão afetadas pela alagação. Também há registro de impactos em aldeias Shawãdawa e Apolima Arara, no Alto Juruá. Na Resex do Riozinho da Liberdade, comunidades tiveram casas e roçados invadidos pela água. Inundação deixa população em situação de insegurança alimentar e de acesso à água potável.



Tatiane Sousa
dos varadouros de Cruzeiro do Sul

As fortes e intensas chuvas que caem sobre o Acre ao longo dos últimos dias provocaram o transbordamento de mananciais em todo o Vale do Juruá. Nesta sexta, 24, há registro de alagações nas comunidades dos rios Liberdade, em Cruzeiro do Sul, rio Gregório, em Tarauacá, rio Humaitá, em Porto Walter, e rio Amônia em Marechal Thaumaturgo.

A cheia do rio Gregório inundou aldeias do povo Yawanawa e Noke Ko’í. Há também registro de inundações nas aldeias Foz do Nilo e Raimundo do Vale, do povo Shawãdawa, na Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá. Outras áreas intensamente impactadas estão no município de Mâncio Lima, no rio Moa. No rio Amônia, famílias Apolima Arara da aldeia Nova Vitória estão sem água potável para beber e perderam criações de animais e roçados.

Esta é a segunda vez, em pouco mais de dois anos, que as populações indígenas do Alto Juruá são intensamente impactadas pelo transbordamento de rios e igarapés. No fim de fevereiro de 2024, aldeias Apolima-Arara e Ashaninka do rio Amônia também perderam plantações e criações de animais – o que deixou a população em extrema vulnerabilidade no acesso a alimentos e água potável.

De acordo com levantamento da Secretaria Especial dos Povos Indígenas (Sepi), também há pedidos de ajuda de aldeias da TI Katukina Kaxinawa, em Feijó, habitada pelos povos Shanenawa e Huni Kuĩ. O rio Envira apresenta elevação de nível.

De acordo com a secretária Francisca Arara, a Defesa Civil do estado enviou equipes para o rio Gregório para avaliar os impactos da alagação e prestar ajuda emergencial. “A nossa principal preocupação é com a segurança alimentar nestas aldeias. Eles perderam tudo. Os roçados, os galinheiros, as placas de energia solar ficaram debaixo d’água”, diz.

No rio Gregório, segundo a liderança Julia Yawanawa, “estamos praticamente numa ilha, ainda não tinha visto uma enchente dessa e o rio continua enchendo forte”. Todas as 18 aldeias do rio Gregório dos povos Yawanawa e Noke Koi estão sendo afetadas.

A liderança Tashka Yawanawa faz um alerta à população acreana: “As mudanças climáticas não são uma lenda, ela está acontecendo e afetando nossas vidas. Essa alagação é totalmente fora de eixo, o mês de abril começa as primeiras semanas de friagem do verão amazônico e está acontecendo a maior alagação histórica na Terra Indígena do Rio Gregório”, afirma ele.



Na aldeia Mutum, do povo Yawanawa, comunidade tenta salvar trator usado no cultivo dos roçados da comunidade (Foto: Divulgação)




Impactos na Resex do Liberdade

Na Reserva Extrativista (Resex) Riozinho da Liberdade, conforme informações da presidente da Associação Feminina Força da Mulher Rural do Rio Liberdade (Mulher Flor), Maria Renilda, a dona Branca, a alagação já afeta as comunidades Passo da Pátria, Tristeza, Cavanhaque e todos os moradores do Igarapé Forquilha. No Forquilha, seis famílias precisaram se abrigar na escola da comunidade.

Na Resex, os prejuízos envolvem perda da produção agrícola, como farinha, milho e plantações de banana e de macaxeira. A alagação afetou a rede de energia solar e o Instituto Chico Mendes de Consevação da Biodiversidade (ICMBio) já acionou à concessionária de energia apoio técnico para avaliação das condições do sistema, e para que oriente as pessoas quanto aos procedimentos seguros de desligamento, isolamento e reativação quando as águas baixarem.

Na Resex do Rio Liberdade, em Cruzeiro do Sul, casas de farinha ficaram debaixo d’água; cultivo da macaxeira e produção de farinha são fonte de renda essencial para comunidades (Foto: Divulgação)



Neste sábado, 25, equipes da Defesa Civil de Cruzeiro do Sul, do Corpo de Bombeiros e da Secretaria de Assistência Social estão no rio Liberdade para realizar a avaliação da situação e prestar apoio às famílias afetadas.

De acordo com a Defesa Civil, em Cruzeiro do Sul, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, diante da situação apresentada, é possível que o rio Juruá atinja a cota de transbordamento – que é de 13 metros – nos próximos dois ou três, o que levaria a região sofrer com a quarta alagação consecutiva do manancial – apenas em 2026. No começo do mês, Cruzeiro do Sul já foi impactada pelo transbordamento do rio Juruá, que chegou à marca dos 14,15m.

No Amazonas, a alagação também já afeta as comunidades do rio Boa Fé, afluente do Juruá, no município de Guajará, divisa com o Acre. Em Ipixuna, ainda no rio Liberdade, a comunidade São Luís está completamente ilhada, afetando principalmente as plantações dos moradores.



Um abril atípico

Segundo a ANA, houve registro significativo de chuva nas últimas 24 horas em Cruzeiro do Sul (39,4 mm), Ponte do Liberdade (30,0 mm) e Porto Walter (100,4 mm). Segundo o Cemaden, houve registro elevado de chuvas também em Marechal Thaumaturgo (69,0 mm).

O mês de abril tem se caracterizado por chuvas acima da média para o período no estado. Até o fim de abril, o prognóstico indica haver chuvas com volume entre 15 mm até 75 mm. “Há indicativo de anomalia positiva em quase todo o Estado do Acre, onde as chuvas poderão estar acima para o período analisado”, diz boletim emitido pelo Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma), da Secretaria de Meio Ambiente. (Colaboraram Samuel Arara e Fabio Pontes)

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