BEIRA DO RIO

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Clima, falta de preços agrícolas e tráfego de barcaças mobilizam o Beiradão do Rio Madeira

Porto do Chicória em Humaitá passou mais de um ano fechado devido a acidentes causados pela movimentação de balsas no local (Foto: Montezuma Cruz)




A coordenadora da área missionária da Diocese de Humaitá, Irmã Ivonete Aparecida Paes, traduz a inquietude de ribeirinhos e indígenas Apurinã espalhados por mais de 50 comunidades do conhecido beiradão amazonense. “Nós nos preocupamos com a situação, o silêncio em relação ao uso do rio pesa mais do que o decreto entendido como privatização ”, ela diz. Nascidos às margens de rios afluentes do Purus, muitos desses indígenas perderam sua identidade no próprio batismo e em cartórios, hoje pelejam para resgatá-la.

Montezuma Cruz
dos varadouros da Comunidade São Luís em Humaitá (AM)

O impacto da atividade hidroviária é grave, mas também se nota nesta região do Sul amazonense, a 700 quilômetros de Manaus, a ausência da política de preços da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Caritas Brasileira, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Instituto Madeira Vivo, GT Infra e Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) descobriram que os pontos de dragagem ao longo do rio serão 14, o dobro do anunciado em 2025.


Situada no entroncamento entre as rodovias Transamazônica (BR-230) e Manaus-Porto Velho (BR-319), Humaitá teve origem em 1693, com a Missão de São Francisco, fundada pelos jesuítas no rio Preto, afluente do Rio Madeira. Alguns acidentes provocados pelo tráfego fluvial de barcaças despertaram as entidades para ampliar o debate. “Todos se sentem afetados, de Humaitá até Fortaleza Bom Intento e, rio acima, até a Barreira do Tambaqui” , assinala a coordenadora.

Irmã franciscana Ivonete Paes alerta: as águas do
Rio Madeira exigem debate (
Fotos: Montezuma Cruz)

Num dos acidentes, uma barcaça da Hermasa atingiu três balsas de garimpo pertencentes a Jorge Leão Fernandes e Geremias Marques dos Santos. As balsas afundaram, eles tiveram perda total e apenas uma foi retirada do rio. Apesar da promessa de indenização feita pelos condutores da carga de grãos, até hoje os proprietários nada receberam.

Lixo de todo tipo despejado por moradores de Humaitá nas proximidades do Igarapé do Beem é levado para as barrancas onde a Comunidade São Luís se abastece com água. As obras de dragagem serão realizadas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Em agosto do ano passado, o governo federal editou o Decreto nº 12.600, incluindo a Hidrovia do Rio Madeira (junto com os rios Tapajós e Tocantins) no Programa Nacional de Desestatização. A estimativa oficial aponta tráfego fluvial de aproximadamente 12 milhões de toneladas.

Na região, os rios Maici e Marmelo, também chamados de rios Torá e Tenharim, abrigavam a maior parte das etnias indígenas Parintintins, Pirarrãs e Muras.

“Nossos rios não são mercadoria, são vida, cultura e futuro. Seguiremos vigilantes, porque quando o povo se levanta, a luta vira vitória!”, protestou em fevereiro deste ano o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns. Rapidamente, o grito ecoou no Madeira.

A pressão exercida por movimentos sociais, lideranças de povos indígenas e os debates no Congresso causaram a revogação do decreto que autoriza a desestatização direta nos moldes até então elaborados. Ao mesmo tempo, no Beiradão de Humaitá a desconfiança aponta dúvidas: ações empresariais guardariam regras ambientais corretas?

Sem preços

Se o debate parlamentar quase sempre se inclina a privilegiar o escoamento de grãos, a região de Humaitá integra um conjunto de “primos pobres” sem assistência técnica e sem cooperativa. A coordenadora da área missionária, irmã Ivonete Paes, aponta a dura realidade das mais de 50 mil pessoas que plantam para subsistência: “A cotação do cacau caiu para R$ 3 o quilo na safra passada, o cacho de banana baixou para R$10, eles precisam de apoio financeiro.”

Açaí, cacau, coco, limão, laranja, mamão, mandioca, melancia, entre outros, não foram ainda contemplados pelo Programa de Aquisição de Alimentos da Conab, cujo funcionamento no vizinho Estado de Rondônia facilitou a famílias assentadas a venda para prefeituras que, por sua vez, abastecem escolas, creches, Apae e Sociedade Pestalozzi.

Igarapé do Beem: indígenas e caboclos ribeirinhos da Comunidade São Luís participam da reunião de avaliação (Foto: Montezuma Cruz)



Os sonhos do progresso aceitável

Igarapé do Beem, 8 de julho, quinta-feira: a mesa farta com farofa, banana, caju, caldo de cana e sucos de frutas demonstram o bem-querer da Comunidade São Luís, distante da cidade uma hora de barco com motor rabeta.

Aqui, o norte brasileiro indígena se encontrou com o norte caboclo, resultando na formação de famílias miscigenadas. Apurinãs, originários de Lábrea, Maici e Pauini, se casam com brancos há décadas. Ao todo, são aproximadamente 30 famílias no Beem.

O pequeno barco da Funai conduzindo a equipe da Cáritas* trouxe uma caixa de livros infanto-juvenis para a escola Municipal Indígena Pupykari, que funciona em três turnos: de manhã para alunos até o 5º ano; à tarde, do 6º ao 9º; e à noite, a turma do EJA, com aulas dos professores Welton Prata, Maysa Nascimento e Vânia Ferreira da Cruz.

Eles pedem melhoria de preços para o açaí, abacate, abacaxi, cacau, coco, café, mandioca e cítricos (Foto: Montezuma Cruz)


Gracinete, 21 anos, nascida em Manicoré, mostra peças de artesanato, pacotinhos de café verde, sementes e colorau. Ailane, a filha de três meses, está com ela na mesa. “Eu senti as dores, saí daqui de barco com o meu marido (José Augusto Apurinã), para um hospital em Humaitá” conta. A avó Maria Roseni Apurinã pega Ailane no colo a sorridente criança, e a conversa espicha com a apresentação de Francisca Vicente Uchôa Apurinã, 71, nascida numa comunidade do Rio Sepatini (afluente da margem direita do Purus). “Eu moro aqui no (igarapé) Beem faz 25 anos”, diz.

As mulheres contam que a água do igarapé tanto serve para beber, quanto para cozinhar e fazer comida. Lamentam “a lama” ocorrida a cada verão, ou seja, a água barrenta. Todos aguardam pacientemente a chegada de um programa ambiental do Campus Rio Madeira da Universidade Federal do Amazonas.

Roçadeira e identidade

Reunidos no pequeno salão redondo, indígenas e ribeirinhos relatam suas experiências apoiadas pela Cáritas. O chefe da comunidade, José Apurinã lamenta a perda de 30 árvores de açaí derrubadas pelo mais recente temporal e diz que farão assembleia para reivindicar apoio financeiro à Associação dos Povos Indígenas do Amazonas (APIAM).

Segundo ele, os mais antigos na região plantavam urucum e se dispõem a retomar a atividade, juntamente com roças de abacaxi, abacate, café, ingá e laranja “Precisamos da roçadeira, porque ela resolve mais do que palavras bonitas” – ele sorri.

Apesar do solo com média fertilidade, plantou cinco pés de jambo, um rendeu.

José Apurinã toca num tema delicado: a identidade, algo que já é desrespeitado até por políticos federais na vizinha Rondônia: “Sabe, aqui (no sudoeste amazonense) tem muitas comunidades atendidas pela Igreja, somos cadastrados em programas, hoje a Funai nos reconhece, mas no passado muitos não tiveram o nome Apurinã para identificar a origem, isso atrapalhou bastante.”

Tempos atrás, na visita da ministra Sônia Guajajara à cidade, ele formalizou pedido escrito para obter esse resgate, motivando-a. “Vocês também são meu sangue”, ela disse a José.

Enquanto isso, o prefeito Dedei Lobo se comprometia a levar escola e energia elétrica aos pontos ainda escuros. Eles ainda existem, conforme testemunha Francisca Apurinã, ao lado do neto Johnny R8ibeiro, 25. Lindalva Apurinã, 71, cristã evangélica, fala: “Eu planto e colho tudo com a saúde que Deus me dá.” São unânimes em manifestar gratidão à Caritas e à Funai.

“Eu pesco, faço roça no dia que eu quero, e não preciso de remédio” – desabafa Francisco Santos da Silva, 66, nascido no Lago da Pupunha. Compositor de músicas evangélicas, ele toca bateria, guitarra, pandeiro e violão. Seu sonho: construir uma granja para vender galinhas e ovos caipiras em Humaitá.

Picado de cobra duas vezes, Francisco se diz sobrevivente “das surpresas da floresta” que ainda existem por aqui. Antes abundante, a pesca diminuiu, conforme relata Francisca de Queiroz Apurinã, 67. “Só peixe de escama e com espinho”, queixa-se.

Comboios pesados ainda utilizam a BR-319

Diante da demora nas obras previstas para os trechos, rebocadores de balsas que trafegam pelo Rio Madeira cedem espaço temporariamente para caminhoneiros que têm descarregado soja em Porto Velho e atualmente passam direto pela BR-319 rumo ao porto de Itacoatiara. onde o transbordo é feito diretamente para navios graneleiros.

Dados do DNIT revelam: A HN117 Rio Madeira é uma das mais importantes vias de transporte localizadas no chamado Corredor Logístico Norte. Na condição de segunda hidrovia mais importante do Norte, atrás apenas da HN-100 Rio Amazonas, ela é considerada o principal meio de escoamento da produção de grãos soja e milho e açúcar proveniente do Estado de Mato Grosso – cargas para exportação.

Esses grãos chegam ao porto de Porto Velho (RO), depois de percorrerem 800 quilômetros pela BR-364. A hidrovia permite a navegação de grandes comboios, com até 18 mil toneladas, mesmo durante a estiagem. A largura varia entre 440 m e 9.900 m, e a profundidade oscila de acordo com as estações seca e chuvosa e pode chegar a 13 m. (M.C.)

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* Equipe: Edilaine Guariniri de Oliveira, Irmã Franciscana Noeli Klaus, Márcia Miranda, e colaboradora Juliana Montanari

MAIS IMAGENS DA COMUNIDADE

Urucum, matéria-prima para o colorau, é riqueza entre ribeirinhos no interior do município de Humaitá, Amazonas (Foto: Montezuma Cruz)
Maria Roseni Apurinã, feliz, com a neta Ailane, de três meses, nascida em Humaitá (Foto: Montezuma Cruz)

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