SOB A BENÇÃO DE BOLSONARO

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Pesquisa revela força do bolsonarismo e peso do antilulismo entre os eleitores acreanos

Apoio de Flávio Bolsonaro aumenta a possibilidade de voto para 32% dos acreanos, enquanto endosso de Lula afasta 38%; pesquisa Quaest dimensiona a influência do bolsonarismo sobre uma eleição estadual dominada por candidatos da direita. a parcela que rejeita apoio do presidenciável petista é mais que o dobro daquela que se sente atraída por ele.

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), pesquisa Quaest mediu como o apoio de cada um pode aumentar, diminuir ou não alterar a disposição dos acreanos de votar em candidaturas estaduais (Fotos: Ricardo Stuckert e Charles Vieira)





Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco

A influência do bolsonarismo sobre o eleitor acreano vai além da vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial. Nova pesquisa Quaest mostra que o apoio do candidato bolsonarista também possui maior capacidade de transferir votos para aliados nas eleições estaduais. Para 32% dos entrevistados, o apoio de Flávio aumenta a possibilidade de votar em determinado candidato. Outros 42% afirmam que o endosso não altera sua decisão, enquanto 21% dizem que a aproximação com o senador diminui a chance de conceder o voto.

O resultado produz para Flávio Bolsonaro um saldo positivo de 11 pontos percentuais: a parcela do eleitorado atraída por seu apoio supera aquela que se afasta dos candidatos apoiados por ele.

Com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o efeito é praticamente inverso. Somente 18% dos acreanos dizem que o apoio de Lula aumenta a possibilidade de votar em um candidato. Para 41%, o endosso presidencial não muda nada. Outros 38% afirmam que a manifestação de apoio do petista diminui a chance de voto.

Nesse caso, o saldo de influência é negativo em 20 pontos percentuais. A diferença entre os saldos de Flávio e Lula chega, portanto, a 31 pontos. Os percentuais ajudam a dimensionar eleitoralmente uma transformação política abordada pelo Varadouro na reportagem Um Acre endireitado: depois de duas décadas governado por uma coalizão liderada pelo PT, o estado chega às eleições de 2026 com a disputa pelo Palácio Rio Branco dominada por candidatos da direita e com o bolsonarismo consolidado como sua principal força ideológica.

Essa rejeição ao petismo e ao lulismo no Acre pode ser refletida na mesma pesquisa Quest na intenção de votos dos candidatos do campo da esquerda: o médico infectologista Thor Dantas (PSB) – neófito em disputas majoritárias no estado – recebe apenas 2% das citações dos entrevistados na corrida pelo Palácio Rio Branco.

Num improvável cenário de segundo turno entre Thor Dantas e o candidato Alan Rick (Republicanos), o senador bolsonarista recebe 60% das intenções de voto, contra somente 10% do candidato apoiado por Lula no Acre.

O mesmo desgaste acontece com o ex-governador e ex-senador Jorge Viana (PT), que tenta uma retomada ao Senado Federal em 2026. Apesar de ser um nome bem quisto por parte do eleitorado ante os feitos de sua passagem pelo Palácio Rio Branco – entre 1999 e 2006 – a boa memória eleitoral do petista não supera a rejeição dos eleitores ao PT ou ao presidente Lula.

Segundo a pesquisa Quest, Jorge Viana aparece em terceiro lugar nas intenções de voto ao Senado, tecnicamente empatado com a ex-deputada federal Mara Rocha (Republicanos), que pela primeira vez concorre ao Senado, mas traz o benefício eleitoral de ser uma fiel escudeira do bolsonarismo no estado.

Jorge Viana fica atrás mesmo do ex-governador Gladson Cameli (PP), que mesmo enquadrado na Lei da Ficha Limpa por sua condenação a quase 26 anos por crimes de corrupção está na dianteira na corrida pelo Senado.



Apoio que atrai e apoio que afasta


A pesquisa não significa que todos os eleitores influenciados por Flávio Bolsonaro votarão automaticamente no candidato indicado por ele. Também não permite concluir que o apoio presidencial seja o único fator considerado na escolha de um governador, senador ou deputado.

Os dados mostram, contudo, que associar-se a Flávio pode representar uma vantagem na corrida pelo eleitorado acreano. Ao mesmo tempo, subir no palanque de Lula pode se transformar em um obstáculo: a parcela que rejeita seu apoio é mais que o dobro daquela que se sente atraída por ele.

Em termos comparativos, o poder de atração eleitoral de Flávio – 32% – é 14 pontos maior que o de Lula, de 18%. Já o potencial de rejeição ao petista, de 38%, supera em 17 pontos o registrado pelo candidato do PL, de 21%.

Ainda assim, a maior parcela dos entrevistados afirma que o apoio dos presidenciáveis não altera sua decisão: 42% no caso de Flávio e 41% no de Lula. Isso indica que candidaturas locais não podem depender exclusivamente de padrinhos nacionais e continuam submetidas a fatores como trajetória pessoal, propostas, alianças, identificação partidária e avaliação dos governos.

Mesmo com essa ressalva, o contraste entre os dois presidenciáveis é expressivo. Flávio consegue agregar mais do que afastar. Lula, por sua vez, afasta mais do que agrega.


Mesmo dono de uma boa memória eleitoral entre os acreanos por suas duas passagens pelo Palácio Rio Branco, ex-governador Jorge Viana (PT) carrega o peso da rejeição do eleitorado ao petismo e ao lulismo no estado (Foto: Ricardo Stuckert/PR)



Um estado na contramão do país


A força de Flávio Bolsonaro acompanha sua vantagem na corrida presidencial dentro do Acre. Na pesquisa Quaest, o senador aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Lula registra 30%.

O cenário acreano contrasta com levantamentos nacionais, nos quais o presidente e candidato à reeleição aparece à frente ou tecnicamente próximo de Flávio. No estado, o sobrenome Bolsonaro continua possuindo uma força eleitoral própria, construída a partir da guinada conservadora iniciada nas eleições de 2018.

Naquele ano, Jair Bolsonaro obteve 77,22% dos votos válidos dos acreanos no segundo turno, contra 22,78% de Fernando Haddad, então candidato do PT. Foi uma das maiores votações proporcionais alcançadas pelo ex-presidente no país.

A onda bolsonarista também coincidiu com o encerramento dos 20 anos de governos da Frente Popular do Acre. Gladson Cameli (PP) venceu a eleição estadual ainda no primeiro turno e, quatro anos depois, foi reeleito com 56,75% dos votos válidos.

Jorge Viana, principal liderança histórica do PT acreano, terminou aquela disputa com 24,21%. Nem mesmo as investigações da Operação Ptolomeu, que já colocavam Gladson no centro de um esquema de corrupção dentro do governo, impediram sua vitória por uma diferença superior a 32 pontos percentuais.

O resultado demonstrou que 2018 não havia sido apenas uma interrupção momentânea na hegemonia petista. Uma nova correlação de forças políticas havia se estabelecido no Acre.

Flávio Bolsonaro carrega retrato de pai durante ato de campanha no Rio de Janeiro; mesmo sem apresentar um único feito em benefícoi da população acreana, senador herda o bônus do bolsonarismo num estado de um eleitorado cada vez mais consolidado à direita (Foto: Vittor Sales)



O bolsonarismo depois de Bolsonaro


Os números ainda indicam que o bolsonarismo conseguiu sobreviver eleitoralmente à ausência de Jair Bolsonaro na disputa presidencial. Flávio herdou não apenas o sobrenome do pai, mas uma base política capaz de influenciar votos e organizar alianças estaduais.

No Acre, essa transferência parece especialmente consolidada. O senador lidera a corrida presidencial, seu apoio possui saldo eleitoral positivo e os principais candidatos ao governo pertencem ao campo político que se fortaleceu com a vitória de Jair Bolsonaro em 2018.

A eleição de 2026 poderá mostrar se essa influência será suficiente para determinar qual dos candidatos da direita chegará ao Palácio Rio Branco. Também revelará se o pequeno espaço eleitoral ocupado atualmente pela esquerda representa uma condição passageira ou uma transformação mais profunda na identidade política do estado.

Por enquanto, a pesquisa Quaest acrescenta um novo elemento ao “Acre endireitado”: além de liderar a preferência presidencial, o bolsonarismo tornou-se uma espécie de selo eleitoral capaz de agregar votos a seus aliados. Algo que Lula jamais obteve no estado, mesmo durante os períodos áureos do petismo em suas duas décadas de hegemonia política em terras acreanas.

A questão que se impõe aos três principais candidatos ao governo já não é somente quem receberá a bênção de Flávio Bolsonaro, mas quem conseguirá convencer o eleitor de que é o verdadeiro representante desse campo político no Acre.





Sobre o autor

Fábio Pontes

Fabio Pontes é jornalista acreano, nascido e criado pelas curvas do Aquiry.
Escreve sobre temas relacionados à Amazônia, populações da floresta, política e temas da fronteira pan-amazônica.

É o refundador e editor-executivo do Varadouro
fabiopontes@ovaradouro.com.br

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