
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
Durante 20 anos, o Acre foi apresentado ao restante do país como uma espécie de laboratório político da esquerda na Amazônia. Entre 1999 e 2018, quatro mandatos consecutivos, comandados por Jorge Viana, Binho Marques e Tião Viana, mantiveram no poder a Frente Popular do Acre, coalizão liderada pelo Partido dos Trabalhadores, do presidente Luíz Inácio Lula da Silva A experiência começou nas urnas em 1998, quando Jorge Viana venceu a eleição para governador. A partir dali, a Frente Popular atravessaria duas décadas no comando do Palácio Rio Branco.
Vinte e oito anos depois daquela eleição histórica, quando o partido cuja história começou nos movimentos de resistência dos seringueiros em seus sindicatos de trabalhadores rurais, liderados por lideranças como Chico Mendes, o cenário político acreano virou praticamente de ponta-cabeça.
Na disputa de 2026, os três candidatos que concentram a maior parte das intenções de voto para o governo pertencem ao campo da direita, aliados e herdeiros políticos diretos do bolsonarismo: o senador Alan Rick, do Republicanos; a governadora Mailza Assis, do PP; e o ex-prefeito de Rio Branco Tião Bocalom, do PSDB.
Do outro lado, o médico infectologista Thor Dantas, do PSB, tenta ocupar o enorme espaço deixado pela retração eleitoral da esquerda. Pela primeira vez desde a redemocratização, o PT não concorre com nenhum nome ao Executivo estadual. Mesmo feito que aconteceu nas eleições municipais de 2024, quando a legenda teve que apoiar, timidamente, a candidatura do ex-prefeito Marcus Alexandre (MDB), que abandonou o PT para não carregar o peso do antipetismo e do antilulismo.
A principal candidatura do partido do presidente da República no Acre é do ex-prefeito, ex-governador e ex-senador Jorge Viana, que tenta retornar ao Senado, após de lá ser retirado pelo tsunami bolsonarista que invadiu o Acre a partir das eleições de 2018 – quando o então presidenciável Jair Bolsonaro teve uma das maiores votações proporcionais do país.
O tamanho da transformação talvez seja melhor compreendido olhando para os números.
Pesquisa Real Time Big Data realizada entre 22 e 25 de julho mostrou Alan Rick com 38% das intenções de voto, Mailza Assis com 28% e Bocalom com 17%. Somados, os três principais candidatos do campo conservador alcançam 83% das intenções de voto naquele cenário. Thor Dantas aparece com 7% e Jamyr Rosas, do PSOL, com 1%.
Mais do que uma eleição circunstancial, os números sugerem a consolidação de uma transformação iniciada oito anos atrás.

O ponto de inflexão foi a eleição de 2018.
Naquele ano, Gladson Cameli, então candidato pelo PP, venceu ainda no primeiro turno e encerrou os 20 anos consecutivos de governos da Frente Popular. A derrota petista ocorreu no mesmo momento em que uma onda conservadora atravessava o país e Jair Bolsonaro chegava à Presidência da República.
No Acre, entretanto, essa onda foi particularmente intensa.
No segundo turno da eleição presidencial daquele ano, Bolsonaro recebeu 77,22% dos votos válidos dos acreanos, contra apenas 22,78% de Fernando Haddad, do PT. Foi uma das maiores votações proporcionais obtidas pelo então candidato do PSL no país.
Quatro anos depois, a tentativa da esquerda de retornar ao governo estadual também fracassou. Gladson Cameli foi reeleito em 2022 no primeiro turno, com 56,75% dos votos válidos. Jorge Viana, principal liderança histórica da Frente Popular e governador entre 1999 e 2006, terminou em segundo, com 24,21%.A diferença entre os dois ultrapassou 32 pontos percentuais.
Nem mesmo os fortes indícios de corrupção cometidos por Gladson Cameli – a partir da deflagração da operação Ptolomeu, que o apontavam como o chefe de uma organização criminosa responsável por desviar quase R$ 1 bilhão dos cofres públicos – foram suficientes para comprometer a folgada reeleição.
A derrota mostrava que 2018 não havia sido apenas uma interrupção na hegemonia petista no Acre. Uma nova correlação de forças havia se instalado a partir dali.
“O PT sacrificou as forças políticas que lhes davam sustentação. E tudo piorou quando os grupos dominantes do PT começaram a se digladiar, inclusive em público. Tião Viana de um lado, Jorge Viana de outro”, analisa o cientista político Israel Souza, do Instituto Federal do Acre (Ifac).
“Nesse fogo-cruzado, nem mesmo as conquistas dos governos da Frente Popular resistiram. Se eles se orgulhavam de dizer que haviam livrado o estado do esquadrão da morte, deixaram-no sob o domínio das facções”, completa.
Para ele, compreender como um estado governado durante 20 anos por uma coalizão liderada pelo PT chegou a 2026 com a disputa pelo governo amplamente dominada por candidaturas conservadoras exige voltar algumas décadas na história política do Acre. A origem desse processo estaria ainda nos anos 1970 e 1980, quando a Igreja Católica desempenhou um papel decisivo na organização política das populações mais pobres e de trabalhadores urbanos e rurais.

Por meio principalmente das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a Igreja ajudou a estruturar sindicatos, associações de moradores e movimentos sociais num período marcado pela ditadura militar e, no Acre, por violentos conflitos pela posse da terra entre seringueiros e os “novos donos do Acre”, os “paulistas”, asim definidos pelo jornal Varadouro durante as décadas de 1970 e 1980.
Sousa considera as CEBs uma das mais importantes experiências brasileiras de formação política das classes populares. Sua presença cotidiana nas comunidades permitia que trabalhadores, moradores das periferias e populações rurais se organizassem em um ambiente no qual, segundo ele, instituições do Estado e parte importante dos meios de comunicação estavam muito mais próximos dos interesses das elites econômicas.
Foi dessa estrutura capilar de organização social que emergiu parte importante da força política posteriormente incorporada pelo Partido dos Trabalhadores. Com o fim da ditadura e a redução da atuação política direta da Igreja Católica, o PT tornou-se, na avaliação do cientista político, um dos principais herdeiros desse capital social acumulado durante décadas.
A estrutura construída nas comunidades ajudaria primeiro na conquista da Prefeitura de Rio Branco, em 1992 com Jorge Viana, e, posteriormente, na chegada da Frente Popular do Acre ao governo estadual, em 1999, também com Jorge Viana.
Mas é justamente quando a esquerda chega ao poder que Sousa identifica o início de uma contradição que, duas décadas depois, contribuiria para seu próprio enfraquecimento.
Para Sousa, a chegada da Frente Popular ao governo alterou profundamente a relação entre o PT e os movimentos que haviam ajudado a construir sua força eleitoral. Ainda para se sustentar no Palácio Rio Branco, o PT precisou se aliar às velhas correntes políticas conservadoras, como a família Cameli, a mais importante força eleitoral do Vale do Juruá, onde se concentra o segundo maior eleitorado do estado.
Em 2026, os Camelis se aliam à Frente Popular e indicam o ex-prefeito de Cruzeiro do Sul César Messias como vice de Binho Marques. Era o casamento de conveniência perfeito para assegurar a sustentabilidade política-eleitoral do PT frente ao governo.
Se nas décadas passadas a Igreja Católica – liderada por Dom Moacyr Grecchi – era a mais importante instituição religiosa a ajudar nos processos de organização política dos estados junto às periferias, agora este espaço foi ocupado pelas igrejas evangélicas – ou neopentecostais.
E são elas, justamente, o berço da força conservadora e do bolsonarismo que hoje dá as cartas nos processos eleitorais do estado – levando uma parcela expressiva do eleitorado a deixar de lado temas importantes como saúde, educação, segurança e economia para estar focada na chamada”pauta conservadora”.
Neste embate, o PT e Lula são vistos como inimigos. Para estes grupos ditos conservadores, a esquerda carrega as bandeiras progressistas que se chocam com seus princípios morais, conservadores e cristãos. Daí o elevado sentimento antipetismo reinante hoje no Acre.

Do antipetismo ao bolsonarismo
O fenômeno acreano também possui uma característica particular: a perda de força da esquerda foi acompanhada pelo crescimento de um eleitorado fortemente identificado com o bolsonarismo. Em 2026, mesmo sem Jair Bolsonaro nas urnas, essa preferência permanece evidente.
Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 27 de julho mostrou Flávio Bolsonaro com 50% das intenções de voto para presidente entre os acreanos, contra 30% de Luiz Inácio Lula da Silva. Em uma eventual disputa de segundo turno, a diferença aumentava para 57% contra 37%.
Outro levantamento, realizado pela Delta e divulgado em julho, apresentou resultado ainda mais favorável ao senador: Flávio Bolsonaro alcançou 52,39%, enquanto Lula registrou 25,45%.
O cenário acreano segue, portanto, na direção contrária ao quadro nacional. Pesquisas nacionais divulgadas em agosto colocam Lula à frente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, enquanto no Acre o candidato bolsonarista mantém larga vantagem.
É nesse ambiente que ocorre a eleição estadual.
Alan Rick, Mailza Assis e Bocalom possuem trajetórias políticas diferentes e disputam entre si parcelas distintas do eleitorado conservador. Mas os três chegam às urnas dentro de um ambiente político profundamente marcado pelo avanço da direita. A eleição acreana deixou, assim, de ser uma disputa fundamentalmente entre esquerda e direita. Em 2026, a principal disputa ocorre dentro da própria direita.
Cada um dos candidatos tenta se apresentar como o mais legítimo para representar o bolsonarismo – o candidato do Bolsonaro. Camisas da seleção brasileira vestem os principais concorrentes. Conquistar o voto do eleitorado evangélico parece ser a grande batalha. Dos três candidatos, o único declaradamente evangélico é o senador Alan Rick, membro da Igreja Batista do Bosque.
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O esvaziamento da esquerda
A transformação também pode ser observada pelo outro lado da equação. Durante duas décadas, a Frente Popular conseguiu reunir PT, PCdoB, PSB, partidos de centro e movimentos sociais em torno de um projeto político que se tornou hegemônico no estado. Essa capacidade eleitoral foi progressivamente se deteriorando.
Estudo sobre o comportamento eleitoral acreano identifica uma perda gradual de força da esquerda desde meados dos anos 2000, processo que culminou na derrota de 2018 e na ascensão das forças conservadoras.
Para dizer que não tem candidatura ao Palácio Rio Branco, as forças de esquerda lançaram o neófito Thor Dantas, médico infectologista, filiado ao PSB. Apesar de aparentar ser um bom nome, carrega o peso de estar no palanque de Lula e do PT, e de ainda ser pouco conhecido do eleitorado acreano.
Mais do que a ascensão da direita, portanto, a atual eleição revela também uma crise de representação do campo progressista acreano.
E a floresta no meio disso tudo?
A guinada política ocorre justamente quando o Acre enfrenta uma transformação igualmente profunda em seu território. O estado chega à eleição de 2026 pressionado por secas extremas, enchentes recorrentes, incêndios florestais, avanço do desmatamento, conflitos por terra, expansão da fronteira agropecuária e ameaças cada vez maiores à segurança hídrica e alimentar de sua população – em espeial as mais vulneráveis.
É nesse ponto que a eleição deixa de ser apenas uma disputa ideológica. A pergunta passa a ser: qual projeto de Acre emergirá dessa nova hegemonia política a partir do resultado eleitoral de outubro?
Durante os governos da Frente Popular, a proteção da floresta e a exploração de uma economia baseada no uso sustentável dos recursos naturais foram incorporadas ao discurso oficial do Estado – é o que se chamou de governos da floresta.
A demonização de tal modelo de governo pela antiga oposição que hoje está consolidada no poder foi seu principal trunfo para o sucesso das urnas. Figuras como Bocalom e Márcio Bittar por anos venderam – e ainda vendem – o discurso de que as políticas de preservação ambiental são o principal motivo para o empobrecimento da população acreana. Para este grupo, apenas o agronegócio pode tirar o Acre de seu marasmo social e econômico.
O modelo dos governos da floresta foi alvo de críticas, contradições e disputas, inclusive dentro dos próprios movimentos sociais, mas colocou a questão ambiental no centro da narrativa política acreana.

Nos últimos anos, ganharam espaço no debate público acreano discursos favoráveis à expansão da produção agropecuária, abertura e pavimentação de estradas e ramais, exploração econômica de novas áreas e flexibilização de obstáculos ambientais apresentados como entraves ao desenvolvimento.
Esse debate ocorre justamente quando os efeitos das mudanças climáticas tornam mais frágil a relação entre produção, floresta e disponibilidade de água. Por isso, a eleição de outubro poderá decidir muito mais do que quem ocupará o Palácio Rio Branco pelos próximos quatro anos.
Estará em disputa a resposta que o Acre dará a uma questão fundamental:
Como desenvolver sua economia em um território amazônico submetido a extremos climáticos cada vez mais frequentes?
Qual Acre a direita pretende construir?
Alan Rick, Mailza Assis e Tião Bocalom concorrem por um eleitorado que, majoritariamente, abandonou o campo político que governou o estado durante duas décadas.
Isso significa que a campanha deverá revelar diferenças dentro do próprio conservadorismo acreano: na relação com o agronegócio, nas políticas ambientais, na infraestrutura, no papel do Estado na economia, nas políticas sociais e na relação com os povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares.
Depois de governar o Acre durante 20 anos, ela chega a 2026 tentando novamente convencer o eleitorado de que possui um projeto capaz de responder aos problemas contemporâneos do estado.
O Acre que entrou no século XXI governado por uma ampla coalizão liderada pelo PT chega à segunda metade da década de 2020 com a esquerda reduzida eleitoralmente, três candidaturas conservadoras concentrando a esmagadora maioria das intenções de voto e o herdeiro político de Jair Bolsonaro liderando com ampla vantagem a corrida presidencial no estado.
Se durante duas décadas a pergunta eleitoral acreana era se a direita conseguiria finalmente derrotar a Frente Popular, em 2026 ela é outra:
Qual direita governará o Acre – e que projeto de Amazônia ela pretende colocar em prática?
Varadouros nas Eleições 2026
A partir desta reportagem, Varadouro inicia sua cobertura das Eleições 2026, acompanhando não apenas a movimentação das campanhas e das pesquisas eleitorais, mas, principalmente, os projetos de futuro apresentados por quem pretende governar o Acre.
Em um estado amazônico cada vez mais atingido por secas severas, enchentes, queimadas e outros eventos extremos, nossa cobertura terá atenção especial às propostas dos candidatos para o enfrentamento da crise climática, proteção da floresta e dos territórios, combate à pobreza, redução das desigualdades e geração e distribuição de renda.
Ao longo da campanha, o Jornal das Selvas vai acompanhar, analisar e confrontar discursos, propostas e planos de governo, buscando mostrar ao eleitor e à eleitora o que cada candidatura pretende fazer – e como pretende fazer – diante dos grandes desafios sociais, ambientais e econômicos do Acre.
Mais do que acompanhar a corrida eleitoral, queremos contribuir para que o debate sobre qual projeto de desenvolvimento queremos para o Acre e para a Amazônia esteja no centro das eleições de 2026.