POBRE E DE DIREITA

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Com baixos indicadores sociais, Acre dá 64,56% a Flávio e consolida força do bolsonarismo

Um quarto da população vive na pobreza e mais de um terço dos jovens está sem estudar e sem ocupação. Resultado eleitoral reforça hegemonia conservadora em um estado marcado pela falta de oportunidades, e o antagonismo do apoio de uma sociedade empobrecida a uma classe política que atua para fragilizar direitos sociais

O presidenciável Flávio Bolsonaro durante ato de campanha; no Acre, filho do ex-presidente obteve a quinta maior votação proporcional do país, mostrando a consolidação do bolsonarismo no estado (Foto: Vittor Sales)


Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco

O Acre saiu das urnas neste domingo, 4 de outubro, com dois retratos que precisam ser observados juntos: uma expressiva maioria eleitoral favorável ao bolsonarismo e indicadores sociais que revelam dificuldades persistentes de renda, trabalho e moradia. Com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 64,56% dos votos válidos para presidente no estado, contra 28,73% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A vantagem foi de 35,83 pontos percentuais. Entre os 27 estados, o Acre deu a quinta maior votação proporcional ao presidenciável do PL.

A força eleitoral do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro se consolida em um território onde aproximadamente um quarto da população vive em situação de pobreza. Segundo a base do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), o percentual chegou a 25,21% em 2025, equivalente a cerca de 217,5 mil pessoas. Outros 8,72% estavam em extrema pobreza, aproximadamente 75,2 mil moradores.

Os dados foram extraídos pelo Varadouro da planilha do painel “Eleições 2026: Indicadores Estaduais”, desenvolvido pelo IMDS. Na comparação desse indicador entre as unidades da Federação, o Acre apresentou a maior proporção de pessoas em situação de pobreza em 2025. O cálculo utiliza linhas regionalizadas de pobreza, conforme a metodologia descrita pelo instituto, e não deve ser confundido com levantamentos baseados na linha internacional do Banco Mundial.

O quadro é ainda mais duro entre crianças e adolescentes. Na população de até 17 anos, 38,09% estavam em situação de pobreza, cerca de 101,5 mil pessoas. A extrema pobreza atingia 12,63% dessa faixa etária, aproximadamente 33,7 mil crianças e adolescentes. São condições que colocam alimentação, permanência escolar e proteção social no centro das responsabilidades dos próximos governantes.





Juventude sem oportunidades


Entre os jovens de 18 a 24 anos, 36,44% não estudavam nem estavam ocupados em 2025. Foi a segunda maior proporção entre os estados, atrás de Alagoas, na comparação feita pelo Varadouro na base do IMDS. O indicador descreve uma situação de afastamento simultâneo do ensino e do trabalho, mas não identifica sozinho suas causas.

A precariedade aparece também na inserção profissional e nas condições de vida. A informalidade alcançava 45,19%, enquanto a renda domiciliar mensal por pessoa era de R$ 1.372,30. Além disso, 15,56% da população vivia em domicílios sem banheiro de uso exclusivo, a maior proporção registrada entre as unidades da Federação nesse indicador.

O retrato exige reconhecer as melhoras. A proporção de pessoas em situação de pobreza caiu de 32,99% em 2022 para 25,21% em 2025. No mesmo período, o percentual de jovens sem estudar e sem ocupação recuou de 40,30% para 36,44%. Houve avanço, mas os resultados mais recentes ainda mostram uma parcela expressiva da população distante das oportunidades prometidas nas campanhas.

Juventude sem perspectiva de futuro; quase 37% dos jovens acreanos estavam sem ocupação em 2025. Falta de oportunidades deixa a juventude exposta a todo tipo de vulnerabilidade (Foto: Agência de Notícias do Acre)


Racismo ambiental


A vulnerabilidade social também precisa ser observada diante da crise climática. Nas periferias, as enchentes atingem famílias que dispõem de poucos recursos para deixar suas casas, proteger seus pertences e reconstruir a vida depois que a água baixa. Perder móveis, às vezes as próprias casas, alimentos e dias de trabalho pode aprofundar uma pobreza que já compromete o orçamento doméstico. É nesse cotidiano que a agenda ambiental se encontra com o combate às desigualdades.

Para os próximos governantes, enfrentar esse cenário exige combinar proteção da floresta com políticas de moradia, saneamento, drenagem e prevenção de desastres. O debate eleitoral precisa cobrar como essas medidas chegarão aos bairros expostos às alagações e como serão protegidas as famílias que perdem quase tudo a cada enchente. A resposta à crise climática precisa fazer parte das propostas de redução da pobreza.

Todavia, o que temos visto no Acre nos últimos anos vai no sentido totalmente oposto. A principal agenda da extrema-direita é a defesa do agronegócio como a única e melhor via para o Acre sair de seu marasmo econômico e social. Para isso, apresentam um forte discurso e retórica antiambientais, de responsabilizar as políticas de preservação como entraves ao “progresso” do estado, defendendo a flexibilização de normas que afrouxam o arcabouço de proteção ambiental.


Em um Acre cada vez mais marcado pelos fenômenos climáticos extremos, como as alagações, as famílias mais pobres, moradoras das áreas de risco, são as mais vulneráveis diante da falta de políticas de mitigação do “novo normal” do clima; cenário é agravado por um forte discurso antiambiental pela classe política (Foto: Paulo Henrique Costa(


Hegemonia nas urnas


O predomínio conservador ultrapassou a votação presidencial. Márcio Bittar (PL) e Mara Rocha (Republicanos) conquistaram as duas vagas do Acre no Senado. Na disputa pelo governo, Mailza Assis (PP) e Alan Rick (Republicanos) avançaram ao segundo turno, marcado para 25 de outubro. A escolha do próximo ocupante do Palácio Rio Branco ocorrerá, portanto, entre duas candidaturas do campo da direita.

Na Assembleia Legislativa, PP, União Brasil, PL e Republicanos conquistaram juntos 16 das 24 cadeiras. Essa composição amplia o espaço desses partidos nas decisões sobre orçamento, fiscalização do Executivo e políticas estaduais. Não significa, entretanto, que todos os parlamentares tenham posições idênticas ou possam ser classificados automaticamente como integrantes da extrema direita.

A aproximação entre os indicadores sociais e o resultado eleitoral evidencia uma questão para a cobertura: a hegemonia bolsonarista convive com níveis elevados de pobreza e falta de oportunidades. Os dados agregados não permitem concluir como votaram as pessoas pobres, os beneficiários de programas sociais ou os jovens sem ocupação. Tampouco demonstram que a pobreza explique a preferência eleitoral.

O que eles permitem é cobrar o campo político fortalecido pelas urnas. Como transformar sua força eleitoral em redução das desigualdades? Quais propostas chegarão às crianças pobres, aos jovens afastados da escola e do trabalho e às famílias sem condições adequadas de moradia? No Acre que deu ampla vantagem a Flávio Bolsonaro, essas respostas precisam ocupar o debate do segundo turno.

Polícias e populares entram em confronto durante reintegração de posse na antiga ocupação Terra prometida, em Rio Branco. 25,21$ da população acreana vivia em situação de pobreza em 2025 – outros 8,72 em extrema pobreza (Foto: Juan Diaz)


O resultado do primeiro turno expõe um paradoxo político no Acre: a persistência da pobreza e das desigualdades convive com o fortalecimento de representantes que defendem a redução do papel do Estado.

Esse contraste aproxima o Acre do debate sobre o chamado “pobre de direita”. Os indicadores sociais e os resultados eleitorais revelam um estado profundamente vulnerável que concede ampla força eleitoral e política à extrema direita.

A cobrança que emerge das urnas é concreta: como os representantes desse campo pretendem enfrentar as desigualdades se suas propostas limitarem justamente a capacidade do poder público de financiar a proteção social e ampliar as oportunidades de quem mais precisa?








Sobre o autor

Fábio Pontes

Fabio Pontes é jornalista acreano, nascido e criado pelas curvas do Aquiry.
Escreve sobre temas relacionados à Amazônia, populações da floresta, política e temas da fronteira pan-amazônica.

É o refundador e editor-executivo do Varadouro
fabiopontes@ovaradouro.com.br

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