
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
O Acre saiu das urnas neste domingo, 4 de outubro, com dois retratos que precisam ser observados juntos: uma expressiva maioria eleitoral favorável ao bolsonarismo e indicadores sociais que revelam dificuldades persistentes de renda, trabalho e moradia. Com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 64,56% dos votos válidos para presidente no estado, contra 28,73% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A vantagem foi de 35,83 pontos percentuais. Entre os 27 estados, o Acre deu a quinta maior votação proporcional ao presidenciável do PL.
A força eleitoral do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro se consolida em um território onde aproximadamente um quarto da população vive em situação de pobreza. Segundo a base do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), o percentual chegou a 25,21% em 2025, equivalente a cerca de 217,5 mil pessoas. Outros 8,72% estavam em extrema pobreza, aproximadamente 75,2 mil moradores.
Os dados foram extraídos pelo Varadouro da planilha do painel “Eleições 2026: Indicadores Estaduais”, desenvolvido pelo IMDS. Na comparação desse indicador entre as unidades da Federação, o Acre apresentou a maior proporção de pessoas em situação de pobreza em 2025. O cálculo utiliza linhas regionalizadas de pobreza, conforme a metodologia descrita pelo instituto, e não deve ser confundido com levantamentos baseados na linha internacional do Banco Mundial.
O quadro é ainda mais duro entre crianças e adolescentes. Na população de até 17 anos, 38,09% estavam em situação de pobreza, cerca de 101,5 mil pessoas. A extrema pobreza atingia 12,63% dessa faixa etária, aproximadamente 33,7 mil crianças e adolescentes. São condições que colocam alimentação, permanência escolar e proteção social no centro das responsabilidades dos próximos governantes.
“Você teve um desmantelamento da máquina pública [durante o governo de Bolsonaro]. E este é o maior problema, e estados como o Acre vão sofrer na carne esse desmantelamento. E os projetos que estão aí na agenda, se é que tem algum, são projetos de concentração de renda e devastação ambiental”, afirma o cientista político Nilson Euclides da Silva, da Universidade Federal do Acre.

Juventude sem oportunidades
Entre os jovens de 18 a 24 anos, 36,44% não estudavam nem estavam ocupados em 2025. Foi a segunda maior proporção entre os estados, atrás de Alagoas, na comparação feita pelo Varadouro na base do IMDS. O indicador descreve uma situação de afastamento simultâneo do ensino e do trabalho, mas não identifica sozinho suas causas.
A precariedade aparece também na inserção profissional e nas condições de vida. A informalidade alcançava 45,19%, enquanto a renda domiciliar mensal por pessoa era de R$ 1.372,30. Além disso, 15,56% da população vivia em domicílios sem banheiro de uso exclusivo, a maior proporção registrada entre as unidades da Federação nesse indicador.
O retrato exige reconhecer as melhoras. A proporção de pessoas em situação de pobreza caiu de 32,99% em 2022 para 25,21% em 2025. No mesmo período, o percentual de jovens sem estudar e sem ocupação recuou de 40,30% para 36,44%. Houve avanço, mas os resultados mais recentes ainda mostram uma parcela expressiva da população distante das oportunidades prometidas nas campanhas.

Racismo ambiental
A vulnerabilidade social também precisa ser observada diante da crise climática. Nas periferias, as enchentes atingem famílias que dispõem de poucos recursos para deixar suas casas, proteger seus pertences e reconstruir a vida depois que a água baixa. Perder móveis, às vezes as próprias casas, alimentos e dias de trabalho pode aprofundar uma pobreza que já compromete o orçamento doméstico. É nesse cotidiano que a agenda ambiental se encontra com o combate às desigualdades.
Para os próximos governantes, enfrentar esse cenário exige combinar proteção da floresta com políticas de moradia, saneamento, drenagem e prevenção de desastres. O debate eleitoral precisa cobrar como essas medidas chegarão aos bairros expostos às alagações e como serão protegidas as famílias que perdem quase tudo a cada enchente. A resposta à crise climática precisa fazer parte das propostas de redução da pobreza.
Todavia, o que temos visto no Acre nos últimos anos vai no sentido totalmente oposto. A principal agenda da extrema-direita é a defesa do agronegócio como a única e melhor via para o Acre sair de seu marasmo econômico e social. Para isso, apresentam um forte discurso e retórica antiambientais, de responsabilizar as políticas de preservação como entraves ao “progresso” do estado, defendendo a flexibilização de normas que afrouxam o arcabouço de proteção ambiental.

Hegemonia nas urnas
O predomínio conservador ultrapassou a votação presidencial. Márcio Bittar (PL) e Mara Rocha (Republicanos) conquistaram as duas vagas do Acre no Senado. Na disputa pelo governo, Mailza Assis (PP) e Alan Rick (Republicanos) avançaram ao segundo turno, marcado para 25 de outubro. A escolha do próximo ocupante do Palácio Rio Branco ocorrerá, portanto, entre duas candidaturas do campo da direita.
Na Assembleia Legislativa, PP, União Brasil, PL e Republicanos conquistaram juntos 16 das 24 cadeiras. Essa composição amplia o espaço desses partidos nas decisões sobre orçamento, fiscalização do Executivo e políticas estaduais. Não significa, entretanto, que todos os parlamentares tenham posições idênticas ou possam ser classificados automaticamente como integrantes da extrema direita.
A aproximação entre os indicadores sociais e o resultado eleitoral evidencia uma questão para a cobertura: a hegemonia bolsonarista convive com níveis elevados de pobreza e falta de oportunidades. Os dados agregados não permitem concluir como votaram as pessoas pobres, os beneficiários de programas sociais ou os jovens sem ocupação. Tampouco demonstram que a pobreza explique a preferência eleitoral.
O que eles permitem é cobrar o campo político fortalecido pelas urnas. Como transformar sua força eleitoral em redução das desigualdades? Quais propostas chegarão às crianças pobres, aos jovens afastados da escola e do trabalho e às famílias sem condições adequadas de moradia? No Acre que deu ampla vantagem a Flávio Bolsonaro, essas respostas precisam ocupar o debate do segundo turno.

O resultado do primeiro turno expõe um paradoxo político no Acre: a persistência da pobreza e das desigualdades convive com o fortalecimento de representantes que defendem a redução do papel do Estado.
A contradição aparece quando a defesa da meritocracia ignora as condições desiguais de acesso à educação, ao trabalho e à renda, ou quando a assistência social é tratada como obstáculo à autonomia, em vez de instrumento para assegurar direitos e criar oportunidades.
Esse contraste aproxima o Acre do debate sobre o chamado “pobre de direita”. Os indicadores sociais e os resultados eleitorais revelam um estado profundamente vulnerável que concede ampla força eleitoral e política à extrema direita.
A cobrança que emerge das urnas é concreta: como os representantes desse campo pretendem enfrentar as desigualdades se suas propostas limitarem justamente a capacidade do poder público de financiar a proteção social e ampliar as oportunidades de quem mais precisa?