
dos varadouros de Rio Branco
O Acre que irá às urnas neste domingo, 4 de outubro, precisa encontrar caminhos para gerar renda, melhorar serviços públicos e enfrentar os efeitos das secas, enchentes e temporadas de queimadas e fumaça. As respostas apresentadas pelos candidatos ao governo, entretanto, partem de concepções diferentes sobre o território e suas possibilidades de desenvolvimento.
Ao longo de setembro, a série Clima das Eleições, do Varadouro, examinou como Alan Rick (Republicanos), Mailza Assis (PP), Tião Bocalom (PSDB) e Thor Dantas (PSB) incorporaram floresta, produção, direitos indígenas e mudanças climáticas aos programas. A comparação permite avaliar a coerência dessas propostas dentro desse recorte, sem estabelecer uma classificação definitiva de todas as políticas de governo.
Thor: maior integração, execução ainda indefinida
Nesse confronto, o programa de Thor Dantas (PSB) apresenta a articulação mais consistente entre produção, conservação e atendimento às populações dos diferentes territórios. Recuperação de áreas degradadas, beneficiamento local e apoio a cooperativas aparecem associados à ampliação da produção nas áreas já abertas.
A diferença está em levar os riscos climáticos e os direitos das comunidades para o planejamento da saúde, educação, infraestrutura e segurança. O documento também considera o acesso fluvial e aéreo e a preparação dos serviços públicos para eventos extremos.
Essa integração fundamenta a avaliação de maior adequação aos desafios abordados pela série. Permanecem, porém, lacunas importantes: faltam metas numéricas de redução do desmatamento e das emissões, estimativas de recursos para recuperação ambiental e detalhamento da governança do carbono. Coerência programática ainda precisa virar capacidade de execução.

Alan: propostas relevantes e contradições políticas
Alan Rick (Republicanos) também propõe aumentar a produtividade sem novas derrubadas, recuperar áreas degradadas e fortalecer produtos da sociobiodiversidade. Seu programa apresenta medidas de adaptação urbana, incluindo intervenções na bacia do Igarapé São Francisco, em Rio Branco, além de drenagem, reflorestamento e reassentamento de famílias em áreas de risco.
São propostas pertinentes aos problemas examinados. Entretanto, faltam metas para desmatamento e queimadas, previsão de investimentos na fiscalização e mecanismos estruturados de participação indígena.
O histórico parlamentar acrescenta uma tensão: conforme documentado na reportagem de setembro, Alan votou pelo marco temporal e pelo novo marco do licenciamento ambiental. A análise precisa considerar tanto as iniciativas positivas do programa quanto a distância entre suas promessas de proteção e decisões tomadas no Senado.

Mailza: compromissos ambientais sob cobrança
Mailza Assis (PP) promete reforçar órgãos ambientais, monitorar desmatamento e queimadas e ampliar a economia da floresta. Entre os compromissos indígenas estão tornar permanente a secretaria da área e assegurar bolsas a até 148 agentes agroflorestais.
O programa reconhece os eventos climáticos extremos, mas não define metas mensuráveis de redução da devastação ou das emissões. Também deixa em aberto salvaguardas e a distribuição dos benefícios do mercado de carbono, cuja governança já enfrenta questionamentos registrados pelo Varadouro.
Como candidata da continuidade, Mailza precisa explicar como executará compromissos ainda pendentes na administração que integra. Essa cobrança deve considerar o histórico completo: o desmatamento medido pelo Prodes cresceu nos primeiros anos de Gladson Cameli, mas registrou quedas consecutivas entre 2023 e 2025. A melhora não elimina o passivo nem dispensa metas futuras.
Bocalom: expansão produtiva e flexibilização
Tião Bocalom (PSDB) apresenta a maior tensão com os critérios socioambientais adotados nesta análise. Seu programa coloca o agronegócio no centro da economia e propõe flexibilizar a legislação ambiental para ampliar o aproveitamento das terras agricultáveis.
Há iniciativas relevantes, como assistência técnica à agricultura familiar, beneficiamento e recuperação ambiental. O problema é que o documento não explica quais exigências seriam alteradas nem como impedir que a flexibilização comprometa a fiscalização.
Também faltam metas de redução do desmatamento e uma estratégia abrangente de adaptação urbana. A reportagem distinguiu essas propostas das declarações de campanha sobre abertura de estradas em territórios indígenas – falas que ampliam as dúvidas sobre a proteção territorial em um eventual governo.
Povos indígenas: quem participa das decisões sobre o Acre?
O lugar reservado aos povos indígenas é um dos pontos que mais diferenciam os programas. A comparação deve considerar serviços públicos, proteção territorial, autonomia e participação nas decisões sobre obras, atividades econômicas e políticas ambientais.
No plano de Thor, os direitos indígenas atravessam os diferentes setores do governo. O programa prevê que cada política considere territórios, conhecimentos tradicionais, consulta e participação. Também propõe uma estrutura estadual de proteção que articule órgãos ambientais, Defesa Civil e mediação de conflitos. Falta explicar sua composição e como as organizações indígenas terão poder efetivo de decisão.
Mailza apresenta compromissos específicos: concluir os Planos de Gestão Territorial e Ambiental das terras indígenas, assegurar bolsas aos agentes agroflorestais e tornar permanente a secretaria responsável pela área. Essas medidas precisam ser confrontadas com as cobranças por participação no mercado de carbono. O programa não detalha como respeitará os protocolos próprios de consulta antes de operações que afetem os territórios.

Alan inclui educação diferenciada, assistência social, inclusão digital e brigadas indígenas. Entretanto, não estrutura mecanismos permanentes de consulta e governança territorial. Seu apoio ao marco temporal no Senado acrescenta uma contradição: oferecer políticas sociais não resolve o conflito com uma decisão parlamentar que restringe o reconhecimento das terras tradicionais.
Bocalom menciona atendimento de saúde culturalmente adequado e etnoturismo, mas não detalha proteção territorial ou consulta sobre empreendimentos. A distância entre promessa e discurso aparece nas declarações de campanha favoráveis à abertura de estradas em áreas indígenas, registradas pela série.
Por esse critério, Thor apresenta a abordagem mais integrada, enquanto Mailza reúne compromissos administrativos específicos. A cobrança aos quatro permanece: como garantir que os povos indígenas participem das escolhas, controlem os impactos sobre seus territórios e recebam os benefícios prometidos?
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Uma escolha que continuará sendo cobrada
A comparação evidencia projetos diferentes e compromissos ainda incompletos. Nenhum candidato deve receber um cheque em branco com base nas intenções registradas no papel.
Depois da votação, a tarefa será cobrar orçamento, prazos, responsáveis e resultados. O plano escolhido nas urnas precisará demonstrar como suas promessas chegarão à vida de quem espera trabalho, água, atendimento e proteção nos varadouros do Acre.