
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
A eleição de domingo, 4 de outubro, deixou as mulheres fora da composição eleita para a Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) pelos próximos quatro anos. Com todas as urnas apuradas, as 24 vagas foram conquistadas por homens, que deverão ocupar o Parlamento estadual na legislatura de 2027 a 2030. Nenhuma candidata aparece na relação das eleitas ou reeleitas. Atualmente, apenas três mulheres estão na Aleac. Todas elas tentaram um retorno à Casa, mas não obtiveram sucesso nas urnas.
Embora as mulheres representem cerca de 52% do eleitorado acreano, o Acre não elegeu nenhuma deputada estadual em 2026. O resultado evidencia a distância entre a presença majoritária das mulheres nas urnas e sua representação nos espaços de poder. Elas são maioria na hora de escolher os rumos do estado, mas ficarão sem uma representante no Legislativo estadual.
O resultado ganha dimensão ainda mais grave diante da violência de gênero no estado. Segundo o Ministério Público do Acre (MPAC), com base em levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Acre registrou 14 feminicídios em 2025. A taxa de 3,2 mortes por 100 mil mulheres foi a mais alta do Brasil e superou em mais de duas vezes a média nacional, de 1,43.
A ausência de deputadas significa que nenhuma mulher eleita participará diretamente, como parlamentar estadual, da votação do orçamento, da elaboração das leis e da fiscalização das políticas do governo pelos próximos anos.
A responsabilidade por cobrar recursos para prevenção da violência, atendimento às vítimas e autonomia econômica feminina ficará integralmente com uma bancada formada exclusivamente por homens.
“A gente precisa falar da realidade feminina, precisa falar e lembrar para todos que o machismo estrutural ao qual todos estão acostumados não é normal. Então nós vamos ter uma perda muito significativa dentro da Assembleia Legislativa, e eu sinto muito por isso”, afirma a deputada Michelle Melo (União), em entrevista ao Varadouro.
“Todo o Brasil, todo o mundo tem lutado pela paridade de gênero, pela igualdade, pela ocupação dos espaços e, infelizmente, nós tivemos este retrocesso aqui no Acre.”.
Perguntada sobre o simbolismo deste machismo estrutural ter sido representado pela eleição de apenas homens para a Aleac, a parlamentar avalia que a própria sociedade acreana ainda não entendeu a dimensão que representa a luta das mulheres pela ocupação dos espaços pelas mulheres, pela luta de seus direitos e o combate à violência de gênero.

Michelle lembra que os homens estão no poder há mais tempo, que o “poder estrutural” é masculino, e que as mulheres não concorrem em pé de igualdade na batalha pela ocupação destes espaços.
“Nós mulheres competimos uma competição muito desleal porque a estrutura destes homens poderosos que estão no poder há muito tempo acaba fazendo a diferença nas eleições”, completa ela.
Uma sociedade hierárquica
Para a professora de Direito da Universidade Federal do Acre (Ufac) e ativista dos direitos das mulheres, Leonísia Moura, o resultado das urnas para a Aleac reproduz a realidade de uma sociedade hierárquica.
“Acho que este resultado também pode ser visto como um reflexo da própria violência que está sendo questionada como um dos estados que está sempre no topo do ranking de feminicídio. O feminicídio não acontece dentro de um vácuo político. Ele está colocado dentro de relações sociais, de gênero, de raça, de classe, e este resultado reproduz isso”, afirma Leonísia, que também é colunista do Varadouro.
De acordo com ela, ao se olhar a configuração da sociedade na América Latina como um todo, o espaço da mulher ainda está reservado para os afazeres domésticos – em especial para as mulheres racializadas – enquanto os homens estão nos espaços de poder – seja o político ou o financeiro.
“Termos uma configuração 100% masculina na Assembleia Legislativa num estado que mais mata mulheres por questão de gênero passa uma mensagem de que o lugar da mulher não é na política, não é no espaço público. De que este espaço de legislação, de fiscalização não é para mulheres, e nós teremos esta mensagem sendo transmitida durante quatro anos”, ressalta a pesquisadora.
Para Leonísia Moura, o fato de a Aleac passar a ter uma composição hegemônica masculina a partir de 2027, isso não tira dos deputados a sua responsabilidade de elaboraram propostas que vão no sentido de fortalecer políticas de combate à violência de gênero e dos direitos das mulheres. “Pelo contrário, isso aumenta as suas responsabilidades.”
Consolidaçãoda pauta conservadora
A composição partidária também revela a força dos partidos situados à direita. O PP conquistou cinco cadeiras; União Brasil e PL, quatro cada; e Republicanos, três. Juntas, essas quatro siglas terão 16 dos 24 deputados, dois terços da Assembleia. MDB e PSD elegeram dois representantes cada, enquanto PDT, Novo, PCdoB e PSDB ficaram com uma cadeira cada.
O predomínio desses partidos acompanha a consolidação do campo conservador no Acre, processo que o Varadouro vem abordando na cobertura eleitoral, naquilo que é definido como o Acre Endireitado.
Entretanto, a composição partidária e a ausência de mulheres, por si só, não permitem estabelecer uma relação causal entre o avanço da extrema direita e a exclusão das candidaturas femininas. Essa avaliação exige examinar como os partidos distribuíram financiamento, estrutura de campanha e espaço político entre seus candidatos.
Atualmente, o estado do Acre é governado por uma mulher. Mailza Assis (PP) assumiu o Palácio Rio Branco no último dia 2 de abril, com a renúncia do então titular do cargo, Gladson Cameli (PP), para concorrer ao Senado – ele saiu derrotado.
Já Mailza não conseguiu votação suficiente para se eleger no primeiro turno, e irá para uma nova frente de batalha para assegurar a sua continuidade à frente do Poder Executivo. Ela também tem uma mulher como sua candidata à vice, a ex-deputada federal Jéssica Sales (MDB).
No domingo, uma mulher foi eleita senadora, a jornalista Mara Rocha (Republicanos), e outras duas para a Câmara dos Deputados: Socorro Neri (PP), a mais bem votada e reeleita, e Perpétua Almeida (PCdoB), que volta a representar o Acre em Brasília.

Violência exige orçamento e fiscalização
A violência contra as mulheres já impõe demandas concretas ao poder público. Em Feijó, por exemplo, o MPAC informou em setembro que fiscalizava a implantação de um Centro de Referência de Atendimento à Mulher. O município registrou sete feminicídios consumados entre 2018 e setembro de 2026, além de dez tentativas entre 2018 e 2024. Somente em 2025, foram concedidas 134 medidas protetivas de urgência.
Há também políticas cuja execução precisa ser acompanhada. O governo estadual anunciou um plano decenal de enfrentamento à violência contra a mulher, com metas de prevenção e proteção. A existência dessas iniciativas exige fiscalização sobre orçamento, alcance territorial e resultados, especialmente para as mulheres que vivem longe dos principais centros urbanos.
A ausência de deputadas não retira dos 24 eleitos a obrigação de enfrentar essas demandas. Amplia, porém, o déficit de representação em uma instituição que decide sobre questões centrais da vida das mulheres acreanas. No Acre que emerge das urnas, o combate à violência de gênero terá de ser cobrado de um Parlamento eleito exclusivamente masculino.
