
João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco
A disputa eleitoral de 2026 coloca lado a lado, no Acre, candidatos ao governo e ao Senado com trajetórias, posições políticas e patrimônios bastante diferentes. As declarações apresentadas à Justiça Eleitoral incluem desde concorrentes com mais de R$ 9 milhões em bens até candidatos que informaram possuir apenas uma casa ou nenhum patrimônio.
Os valores são autodeclarados pelos candidatos e não passam por uma avaliação independente da Justiça Eleitoral. Também podem corresponder aos preços de aquisição dos bens, e não necessariamente ao valor atual de mercado. As comparações apresentadas nesta reportagem são nominais, sem correção pela inflação.
Entre os candidatos ao Palácio Rio Branco, o médico Thor Dantas (PSB) informou possuir R$ 761.462,79 em bens. O valor representa crescimento nominal de aproximadamente 200,5% em relação ao patrimônio de pouco mais de R$ 253 mil declarado em 2022, quando disputou uma vaga de deputado federal.
Isso significa que, em quatro anos, o patrimônio informado pelo candidato chegou a aproximadamente três vezes o valor declarado na eleição anterior.
A principal mudança está no perfil de seus investimentos. As aplicações em renda fixa passaram de cerca de R$ 99 mil para R$ 355,9 mil, enquanto os investimentos em renda variável recuaram de R$ 24,5 mil para aproximadamente R$ 2 mil.
Além do Toyota Etios, avaliado em R$ 60 mil e já informado anteriormente, Thor declarou um Volkswagen Nivus no valor de R$ 139 mil.
Sua candidata a vice-governadora, Socorro Rodrigues (Podemos), declarou patrimônio de R$ 248 mil, dos quais R$ 225 mil correspondem a cotas de capital social.
Bocalom concentra patrimônio em imóveis
Outro candidato ao governo, Tião Bocalom (PSDB), declarou patrimônio de R$ 1.216.500. O valor representa crescimento de aproximadamente 15,3% em relação aos R$ 1.055.000 informados em 2024, quando disputou a reeleição para a Prefeitura de Rio Branco.
A maior parcela do patrimônio está concentrada em imóveis. Entre eles aparece uma área rural de 81 hectares no Ramal Floresta, avaliada em R$ 1 milhão. A declaração também inclui veículos, terreno urbano, quotas empresariais e depósitos bancários.
O histórico patrimonial de Bocalom apresenta oscilações. Em 2020, ano de sua primeira eleição como prefeito de Rio Branco, ele havia declarado R$ 1,24 milhão. Em 2024, o valor recuou para R$ 1,055 milhão, voltando a subir na atual disputa.
Patrimônio de Alan Rick chega a quase 15 vezes o valor de 2014
O patrimônio declarado pelo jornalista e senador Alan Rick (Republicanos), candidato que aparece entre os principais nomes na disputa pelo governo, passou de R$ 355 mil, em 2014, para R$ 5.244.567,72 em 2026.
Na primeira eleição para deputado federal, em 2014, Alan Rick declarou um apartamento financiado, um terreno e um automóvel. Em 2022, quando foi eleito senador, informou patrimônio de aproximadamente R$ 2,1 milhões.
Na eleição deste ano, o valor chegou a R$ 5,24 milhões. O patrimônio atual corresponde a 14,77 vezes o montante declarado em 2014, o que representa crescimento nominal de aproximadamente 1.377% em 12 anos.
Somente entre 2022 e 2026, o patrimônio informado pelo candidato cresceu cerca de 147%.
O bem de maior valor declarado é um imóvel residencial avaliado em R$ 1,319 milhão. Uma parcela significativa do patrimônio está concentrada em fundos de investimento, incluindo fundos de infraestrutura, Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e outras aplicações de renda fixa. A relação também inclui veículo, saldos bancários e dinheiro em espécie.
Mailza declara apenas recursos financeiros
Apesar de ter exercido os cargos de senadora, vice-governadora e, atualmente, governadora do Acre, Mailza Assis (PP) declarou patrimônio de R$ 167.482,91 à Justiça Eleitoral.
Em 2022, quando foi eleita vice-governadora na chapa encabeçada por Gladson Cameli (PP), Mailza informou possuir somente R$ 11.437,42, divididos entre saldo em conta no Banco do Brasil e um consórcio de motocicleta.
Na eleição deste ano, o patrimônio declarado chegou a R$ 167.482,91, crescimento nominal de aproximadamente 1.364% em quatro anos. O valor atual corresponde a cerca de 14,64 vezes o informado em 2022.
Apesar do percentual elevado, o patrimônio permanece abaixo de R$ 200 mil e é composto exclusivamente por recursos mantidos em contas bancárias e aplicações financeiras, incluindo investimentos em renda fixa na Caixa Econômica Federal.
A governadora não recebeu votação nominal própria nas eleições anteriores. Em 2014, integrou como primeira suplente a chapa de Gladson Cameli ao Senado e assumiu o mandato em 2019, após a eleição dele para o governo. Em 2022, foi eleita vice-governadora em chapa majoritária e assumiu o comando do Estado em abril de 2026, após a saída de Cameli para concorrer ao Senado.
Uma comparação precisa entre a remuneração recebida por Mailza durante esse período e o patrimônio atualmente declarado exigiria a análise dos contracheques de cada cargo, considerando reajustes, descontos obrigatórios e diferenças entre os subsídios de senadora, vice-governadora e governadora.
No Senado, distância entre os patrimônios é ainda maior
Na disputa por uma das duas vagas do Acre no Senado, as diferenças patrimoniais também chamam atenção. Márcio Bittar (PL) declarou R$ 9.514.015,35 em bens para a eleição de 2026. Em 2018, quando foi eleito senador pelo MDB, havia informado aproximadamente R$ 6,54 milhões.
Entre as duas eleições, o patrimônio declarado cresceu cerca de 45,5%.
A relação atual reúne terrenos, apartamentos, casas, veículos, participações empresariais e créditos decorrentes de promessas de compra e venda, empréstimos e outras operações financeiras.
O senador Sérgio Petecão (PSD), que tenta conquistar um terceiro mandato consecutivo, declarou R$ 3.861.594,86. O valor representa crescimento de aproximadamente 261% em relação aos R$ 1.068.661,98 informados em 2018.
A evolução patrimonial de Petecão pode ser observada ao longo de cinco eleições:
- 2006: R$ 392,4 mil;
- 2010: R$ 282,7 mil;
- 2018: R$ 1,06 milhão;
- 2022: R$ 3,74 milhões;
- 2026: R$ 3,86 milhões.
Entre 2006 e 2026, o patrimônio declarado pelo parlamentar cresceu aproximadamente 884% em valores nominais. A lista atual inclui imóveis urbanos e rurais, terrenos, veículos, participações empresariais, aplicações financeiras e consórcio. O bem de maior valor declarado pelo candidato é uma casa avaliada em R$ 1,2 milhão.
Na outra ponta está o professor Inácio Moreira, candidato do PSOL. Aos 56 anos, ele declarou patrimônio de R$ 200 mil, correspondente a uma única casa. O valor é exatamente o mesmo informado em 2024, quando disputou uma vaga de vereador de Rio Branco pela Rede.
Somados os bens de Inácio e de suas duas suplentes, ambas da Rede, o patrimônio da chapa chega a R$ 350 mil. A diferença entre os extremos é significativa: os R$ 9,51 milhões declarados por Bittar correspondem a aproximadamente 47,6 vezes o patrimônio informado por Inácio.
Gladson, com quase R$ 6 milhões, supera Jorge Viana
Jorge Viana (PT) também aparece entre os candidatos ao Senado que registraram crescimento no patrimônio declarado ao longo das eleições. Os valores informados pelo petista à Justiça Eleitoral mostram a seguinte evolução:
- 2010, candidato ao Senado: R$ 2.326.331,38;
- 2018, candidato ao Senado: R$ 3.719.188,11;
- 2022, candidato ao governo: R$ 3.663.896,66;
- 2026, candidato ao Senado: R$ 5.575.791,88.
Entre 2010 e 2026, o patrimônio declarado passou de R$ 2,32 milhões para R$ 5,57 milhões, crescimento nominal de aproximadamente 139,7%.
A evolução, contudo, não ocorreu de maneira linear. Entre 2010 e 2018, houve aumento de aproximadamente 59,9%. Em 2022, o valor declarado recuou ligeiramente para R$ 3,66 milhões. Na eleição deste ano, voltou a subir e atingiu o maior montante da série.
O histórico de Jorge Viana pode ser colocado lado a lado com o do ex-governador Gladson Cameli (PP), que apresentou pedido de registro de candidatura ao Senado após ser condenado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a 25 anos e nove meses de prisão.
A condenação inclui os crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. Cameli enfrenta ainda os efeitos da Lei da Ficha Limpa e aposta em recursos judiciais para permanecer na disputa eleitoral.
No caso de Gladson, os valores declarados foram:
- 2006: R$ 106 mil;
- 2010: R$ 581 mil;
- 2014: R$ 514 mil;
- 2018: R$ 2,9 milhões;
- 2022: R$ 5,1 milhões;
- 2026: R$ 5.997.277,46.
Entre 2006, quando disputou pela primeira vez uma vaga de deputado federal, e 2026, o patrimônio declarado pelo ex-governador passou de R$ 106 mil para quase R$ 6 milhões. O valor atual corresponde a aproximadamente 56,6 vezes o informado na primeira eleição, representando crescimento nominal superior a 5.500% em 20 anos.
As trajetórias são diferentes, mas ambas apresentam variações expressivas nos valores informados ao longo das sucessivas eleições. As declarações, entretanto, não permitem concluir isoladamente a origem do crescimento patrimonial nem equivalem a uma avaliação atualizada do preço de mercado de cada bem.