Marcas do Fogo

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Acre reduz área queimada, mas seca derruba rios e mantém alerta para o fogo

Acre registra queda tanto na quantidade de focos quanto de cicatrizes de queimadas em 2026; Vale do Juruá é a região mais atingida pelo fogo. pesquisadores dizem que momento é de cautela, mesmo com quedas, pois periodo crítico da seca se aproxima (Foto: Samuel Moura/Secom/AC)



Labgama identificou 7,6 mil hectares queimados até 16 de agosto em território acreano, queda de 78% em relação a 2024, ano crítico de estiagem sob influência de El Niño; Vale do Juruá tem a maior concentração de cicatrizes de queimadas no estado. Cruzeiro do Sul lidera o ranking do fogo. Governo federal reconheceu situação de emergência em 21 municípios.




dos varadouros de Rio Branco

O Acre registrou 7.658 hectares atingidos por queimadas até 16 de agosto deste ano. Embora represente uma redução de aproximadamente 15% em relação ao mesmo período de 2025 e de 78% na comparação com 2024, o estado atravessa uma seca severa, com rios abaixo das cotas de estiagem, chuvas irregulares e previsão de temperaturas acima da média nos próximos meses.

O cenário levou o governo federal a reconhecer situação de emergência em 21 dos 22 municípios acreanos. A medida permite ampliar o acesso a recursos para ações de defesa civil, abastecimento de água, assistência às comunidades afetadas e enfrentamento dos impactos da seca e das queimadas.

O reconhecimento foi estabelecido por meio de portaria da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. Rio Branco foi o único município que não apareceu na relação federal, embora o decreto estadual de emergência abranja todo o território acreano.

O governo do Acre já havia declarado situação de emergência por meio do Decreto nº 11.733, publicado no dia 7 de agosto. Com vigência de 180 dias, o decreto aponta riscos ao abastecimento de água, à navegação, ao transporte de alimentos, medicamentos e combustíveis, à produção agropecuária e à saúde da população.


Fogo diminui, mas risco permanece


Os dados sobre as queimadas fazem parte de alerta elaborado pelo Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), do Campus Floresta da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul. O levantamento integra o projeto AcreQueimadas, que monitora a extensão e a intensidade das queimadas e dos incêndios florestais no estado.

De acordo com dados do programa BD Queimadas, do Inpe, o Acre registrou, neste mês de agosto, 82 focos de calor. Os municípios líderes em registros são Cruzeiro do Sul, Feijó, Rio Branco e Sena Madureira. Em igual período de 2025 os satélites de monitoramento detectaram 141 pontos de queimadas em território acreano.

Mesmo com a redução da área atingida, os pesquisadores alertam que o Acre está apenas no início da fase mais crítica do verão amazônico. A previsão de chuvas abaixo da média, temperaturas elevadas e possível prolongamento da estiagem até outubro ou novembro pode aumentar o risco de propagação do fogo.

Nessas condições, uma queimada realizada para limpar uma pequena área pode sair do controle e avançar sobre pastagens, propriedades vizinhas e áreas de floresta.

Os municípios de Cruzeiro do Sul, Feijó, Rio Branco, Rodrigues Alves e Tarauacá concentram 54% de toda a área queimada identificada no Acre neste ano.

Cruzeiro do Sul aparece na primeira posição, com pouco mais de mil hectares atingidos pelo fogo. Em seguida estão Feijó, Rio Branco e Rodrigues Alves, todos com áreas queimadas superiores a 700 hectares. Tarauacá completa o grupo dos cinco municípios mais afetados.

O mapa produzido pelo LabGama mostra uma forte concentração de cicatrizes de queimadas no Vale do Juruá, especialmente nos municípios de Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves. No leste do estado, também são observadas áreas atingidas pelo fogo no entorno de Rio Branco e nas regiões pressionadas pela expansão do desmatamento.

Apesar da extensão acumulada, a maior parte das ocorrências ainda envolve áreas relativamente pequenas. De acordo com o levantamento, 53% das áreas queimadas possuem até cinco hectares.

O estudo também cruzou as cicatrizes das queimadas com os alertas de desmatamento emitidos pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Aproximadamente 5% das áreas atingidas pelo fogo coincidiram com alertas recentes de desmatamento.

A sobreposição reforça a relação entre a retirada da floresta e o uso posterior do fogo para limpar ou preparar as áreas abertas – especialmente para a atividade agropeuária A maior parte das queimadas identificadas até agora, porém, ocorreu fora dos polígonos recentes registrados pelo sistema do Inpe.

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Os primeiros efeitos das queimadas já aparecem no monitoramento da qualidade do ar. Embora a média estadual ainda permaneça em níveis considerados bons, foram registrados episódios de piora em Rio Branco, Bujari e Assis Brasil

Nas primeiras semanas de agosto, Assis Brasil e Bujari apresentaram médias diárias de material particulado fino acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)


Rio Acre abaixo da cota de estiagem na capital

O boletim hidrometeorológico divulgado nesta quinta-feira, 20, pelo Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma) mostra que importantes rios acreanos continuam em níveis críticos.

Em Rio Branco, o Rio Acre marcou 2,10 metros às 6 horas. Apesar de uma pequena elevação de seis centímetros em relação ao dia anterior, o nível permanece abaixo da cota de alerta de estiagem, estabelecida em três metros, e da cota máxima de estiagem, de 2,69 metros.

Na semana passada, por conta do acumulado de dias sem chuvas, o manancial chegou a ficar abaixo dos dois metros As chuvas recentes dos últimos dias fizeram o rio Acre subir um pouco de nível, mas ainda em volume crítico na capital do estado.

O rio Acre ficou abaixo dos dois metros na semana passada na capital do estado; chuvas dos últimos dias contribuiram para recuperção de volume. Situação ainda permanece de alerta maximo para mananciais em todo o Acre (Foto: Pedro Devani/Secom/AC)



Ele também está abaixo da cota de estiagem em Assis Brasil, onde marcou 2,41 metros; Brasileia, com 1,21 metro; Xapuri, com 1,89 metro; e Capixaba, com 1,59 metro. Em Porto Acre, o nível chegou a 2,03 metros, também abaixo da cota de alerta de 2,20 metros.

A situação também exige atenção na Bacia do Rio Purus. Em Sena Madureira, o rio Iaco caiu de 1,22 para 1,20 metro, ficando bem abaixo da cota de alerta de estiagem, fixada em 2,20 metros. No Seringal São José, o nível recuou de 2,10 para 2,09 metros.

Na Bacia do Rio Juruá, os rios também apresentaram redução. Em Cruzeiro do Sul, o nível passou de 4,30 para 4,28 metros. Em Marechal Thaumaturgo, recuou de 2,77 para 2,76 metros. Na Ponte do Liberdade, o nível permaneceu estável em 1,41 metro.

Embora o Rio Juruá ainda esteja acima das cotas de estiagem nas estações com dados disponíveis, a ausência de chuvas significativas e a tendência de redução mantêm o alerta para as comunidades ribeirinhas.


Chuvas isoladas não revertem seca

Para o período entre 20 e 26 de agosto, a previsão indica volumes de chuva entre cinco e 25 milímetros no Acre. Assis Brasil, Brasileia e Epitaciolândia podem registrar precipitações pontualmente acima da média. Nas regionais do Juruá, Tarauacá-Envira, Purus e Baixo Acre, porém, as chuvas podem permanecer abaixo da média esperada para o período.

O boletim do Cigma destaca que o El Niño se consolidou durante o mês de julho, com o aquecimento das águas do Oceano Pacífico e o fortalecimento do acoplamento entre o oceano e a atmosfera.

Para o trimestre de agosto, setembro e outubro, o prognóstico do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) indica chuvas abaixo da média histórica no Acre e temperaturas acima da média em toda a Amazônia Legal.






Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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