Em Porto Walter, Bocalom volta a defender abertura de estradas no Alto Juruá

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Em Porto Walter, Bocalom volta a defender abertura de estradas no Alto Juruá

Candidato promete ligação terrestre entre municípios isolados e volta a atacar ambientalistas; traçado do Ramal do Barbary impactou a Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto e foi aberto sem consulta prévia, o que levou Justiça Federal a determinar a suspensão da obra.

Bocalom desembar em Marechal Thaumaturgo para cumprir agenda no Alto Juruá; candidato promete a aberetura de estradas numa das regiões mais sensíveis da Amazônia acreana, sem levar em consideraçaõ aspectos sociais das populações tradicionais (Foto: Assessoria Candidato)




dos varadouros de Rio Branco

Em agenda de campanha no município de Porto Walter, nesta quinta-feira (3), o candidato ao governo do Acre pelo PSDB, Tião Bocalom, voltou a defender a abertura de estradas para interligar os municípios isolados do Alto Juruá a Cruzeiro do Sul Ao lado de seu candidato a vice-governador, Sargento Adonis (PSDB), Bocalom gravou um vídeo no aeroporto de Porto Walter. O candidato usou o caso de uma passageira em tratamento de saúde que aguardava, desde a noite anterior, por um voo para Cruzeiro do Sul para defender a construção de rodovias na região.

“Você defende e nós vamos fazer a estrada que vai ligar Porto Walter, Thaumaturgo e Jordão com Cruzeiro do Sul. Aí, sim, em qualquer lugar desses, bota na ambulância e sai. Rapidamente chega em Cruzeiro do Sul”, afirmou.

Bocalom disse que as estradas serviriam não apenas para o escoamento da produção, mas também para garantir atendimento de saúde à população. Na sequência, porém, voltou a atacar organizações e ambientalistas que questionam empreendimentos rodoviários na Amazônia.

“E não queremos saber se tem ONG, ou seja esses ambientalistas que moram em São Paulo, moram em Nova York, vêm querer mandar aqui na nossa Amazônia. Nós queremos cuidar do ser humano”, afirmou ele. Vamos pra cima. Aqui vai ter um governador macho”, completou.

A promessa feita em Porto Walter remete diretamente ao Ramal do Barbary, estrada ilegalmente aberta para ligar o município a Rodrigues Alves e, a partir dali, permitir o acesso terrestre a Cruzeiro do Sul. O empreendimento, no entanto, acumula graves irregularidades ambientais e violações aos direitos do povo Jaminawa do Igarapé Preto.

A estrada foi aberta sem o devido licenciamento ambiental e sem consulta livre, prévia e informada às comunidades indígenas afetadas, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. O traçado chegou a invadir a Terra Indígena e causou impactos em nascentes, lagos e igarapés utilizados pelas comunidades, segundo denúncias das lideranças.


Em 2024, a Justiça Federal confirmou o bloqueio da estrada, suspendeu as intervenções e anulou as autorizações concedidas para a obra. A decisão também determinou que qualquer intervenção com impacto direto ou indireto sobre a Terra Indígena somente poderia avançar depois da realização da consulta aos Jaminawa.

Em março de 2025, o Ministério Público Federal recomendou que os processos de consulta e licenciamento fossem integralmente refeitos. Em visita ao território, o MPF constatou que os indígenas não são contrários à existência da estrada, mas exigem que seus direitos sejam respeitados, com estudos ambientais, medidas compensatórias e avaliação da possibilidade de alteração do traçado.

Não é a primeira vez que Bocalom confronta os direitos indígenas para defender a abertura de rodovias. Em maio deste ano, conforme mostrou o Varadouro na reportagem “A cortina de fumaça de Bittar”, o candidato declarou: “Se precisar abrir estrada no meio de área indígena, vai abrir”.

Na mesma ocasião, afirmou que “o índio hoje não quer mais ficar lá no mato só comendo bicho”, declaração considerada preconceituosa e colonial pelo coletivo de jovens comunicadores indígenas Tetepawa.

A passagem por Porto Walter repete uma estratégia adotada por Bocalom em julho do ano passado, quando esteve em Marechal Thaumaturgo acompanhado do senador Márcio Bittar. Na Câmara Municipal, o então prefeito de Rio Branco responsabilizou as terras indígenas e as unidades de conservação pelas dificuldades econômicas enfrentadas pela população do Alto Juruá.

“Não dá para plantar com 94% do território proibido plantar, proibido trabalhar. Noventa e quatro por cento aqui de Thaumaturgo não pode trabalhar, não pode fazer agricultura, não pode criar um gadinho. O que eles querem? Manter o povo na miséria?”, declarou Bocalom na ocasião. A fala desconsiderou que as áreas protegidas asseguram não apenas a conservação da floresta, mas também a produção de alimentos e o modo de vida das comunidades locais.

As declarações foram contestadas por lideranças da região. O presidente da Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá, Orleir Moreira, informou que mais de 70% dos alimentos que abastecem Marechal Thaumaturgo são produzidos dentro da Resex. Já a liderança Ashaninka Benki Piyãko afirmou que o problema não está na existência das áreas protegidas, mas na ausência de políticas públicas e assistência técnica capazes de conciliar produção, geração de renda e conservação da floresta

Agora, diante de uma obra marcada por decisões judiciais e violações socioambientais, Bocalom volta a apresentar a abertura de estradas como uma escolha entre o atendimento à população e a proteção da floresta – sem mencionar que os Jaminawa também reivindicam acesso a serviços públicos, mas exigem participação nas decisões que afetam seu território e sua própria sobrevivência.









Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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