Protagonismo indígena propõe ‘aldear tecnologia’, transformando-a em ferramenta de resistência e disputa de território na Amazônia
Articulados em coletivos de comunicação e ocupando espaços de debate sobre conectividade, jovens indígenas defendem que a expansão da internet nos territórios seja acompanhada de autonomia, proteção cultural e controle sobre seus próprios processos de comunicação. Tetepawa Comunica é experiência inédita no Acre

“Eu não gosto da tecnologia. A tecnologia dói. A tecnologia fere, a tecnologia machuca, a tecnologia faz a gente ser dependente dela. Mas se eu não acessar essa tecnologia, eu não consigo ecoar a minha voz além do limite dos meus territórios.”
A reflexão de Samuel Arara, jovem liderança e comunicador indígena do Acre, sintetiza um dos principais dilemas vividos pelos povos indígenas – e não indígenas – diante da expansão da conectividade digital. Entre os riscos do chamado colonialismo digital e as oportunidades de fortalecer suas próprias narrativas, cresce entre as juventudes indígenas a defesa de uma soberania digital construída a partir dos territórios. E eis aí toda a diferença.
O pensamento decolonizador foi apresentado durante o painel “Soberania digital a partir da base: infraestruturas digitais e políticas públicas de conectividade”, realizado no Fórum da Internet no Brasil (FIB16), em Belém, entre os dias 25 e 29 de maio. O evento reuniu debates sobre tecnologia, conectividade, cidadania digital e inovação.
Acadêmico de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Acre (UFAC) e comunicador indígena, Samuel também registrou sua visão no artigo científico “Conectividade na floresta: desafios, soberania tecnológica e impactos socioculturais da era digital entre povos indígenas e comunidades locais da Amazônia”. No estudo, defende que a expansão da internet nos territórios tradicionais seja acompanhada de organização comunitária e protagonismo indígena, de forma a reduzir impactos que possam alterar relações culturais, políticas, econômicas e territoriais historicamente estruturadas pelos modos de vida coletivos da floresta.
A pesquisa foi desenvolvida a partir de revisão bibliográfica, informações oficiais e um autodiagnóstico exploratório realizado com a colaboração de 140 indígenas pertencentes a 15 etnias do Acre.
“O futuro da Amazônia digital exige políticas voltadas à soberania tecnológica, garantindo autonomia, diversidade cultural e autodeterminação dos povos indígenas e comunidades locais”, afirma no artigo.
Para Samuel, a luta atual é uma continuidade das batalhas travadas pelas gerações anteriores, agora em um novo território.
“Durante muito tempo a gente lutou. Os meus ancestrais, os meus avós, os meus tios. Muitos lutavam com ferramentas e meios que hoje não se vê mais. Mas a luta continuou, continua e vem se adaptando a esse novo modelo que a sociedade, o mundo ocidental e o progresso tecnológico estão trazendo.”
Segundo ele, a internet tornou-se um espaço estratégico para combater estereótipos e ampliar a visibilidade das pautas indígenas.
“É em cima da dor, em cima do medo, em cima da incerteza que eu consigo também ocupar esses espaços da internet e das redes sociais para desconstruir uma narrativa estereotipada a respeito da nossa cultura, da nossa identidade e do nosso território.”
Tecnologia como flecha
Como ambientalista e articulador do Tetepawa Comunica, primeiro coletivo de Comunicação Indígena do Acre, Samuel atua ao lado de jovens de diferentes povos na construção de estratégias para fortalecer a presença indígena no ambiente digital.
Hoje, o coletivo articula cerca de 300 comunicadores distribuídos em 37 terras indígenas do Acre. O objetivo vai além da simples ampliação do acesso à internet. A proposta é garantir que a conectividade seja utilizada para fortalecer a autonomia dos povos e proteger seus modos de vida.
“A Amazônia digital só fará sentido se for construída com o resgate da soberania tecnológica, onde nós sejamos protagonistas das escolhas e dos usos que fazemos dessas ferramentas”, afirma. O trabalho do Tetepawa busca, portanto, um letramento digital que respeite a “ciência indígena” e as diretrizes de cada território.

Para o comunicador, o desafio não é apenas levar internet aos territórios, mas compreender seus efeitos sociais, culturais e políticos.
“Não é só conectar. Hoje o Brasil vive um processo de conectar os lugares mais distantes, seja da Amazônia ou de qualquer outro lugar. Mas não é só conectar. É preciso avaliar os impactos sociais, a erosão cultural que causa dentro desse território e avaliar esse colonialismo digital”, afirma.
Ele alerta que a chegada das plataformas digitais pode produzir efeitos negativos quando ocorre sem diálogo e preparação.
“Não é só a internet que chega lá. Ela também adoece a saúde mental dos jovens e promove o enfraquecimento dos nossos modos de vida. É importantíssimo que comunicadores, professores, pesquisadores, governos e entidades que propõem o uso dessas tecnologias tenham esse diálogo.”
A preocupação também envolve a formação de usuários conscientes. Uma lição para todas as sociedades. “Não é fácil. Todos os dias a gente está com o celular acessando as redes sociais e tentando não se desviar do objetivo principal. Formar pessoas para usar essa ferramenta e respeitar a nossa autoridade é o primeiro passo para que a gente tenha uma soberania digital indígena.”
Comunicação como resistência
Nos dias 5 e 6 de junho de 2026, o Tetepawa Comunica realiza a segunda edição do Encontro de Comunicadores Indígenas do Acre, considerado o maior espaço de articulação e formação de mídia indígena do estado. A iniciativa reunirá mais de 40 jovens de dez etnias diferentes para debater estratégias de incidência política, produção de conteúdo e soberania digital.
“Esse encontro fortalece a soberania da conectividade cultural. Ajuda jovens indígenas a produzirem informação a partir dos territórios, usando a tecnologia como ferramenta de luta, denúncia, proteção cultural e fortalecimento das nossas narrativas. Hoje, a internet também é um território de disputa”, afirma Samuel.
E é a partir dessa leitura que traça planos para vencer os desafios que permanecem. “Enfrentamos muitos desafios, como a falta de acesso à internet em várias aldeias, ausência de equipamentos, poucas oportunidades de formação e dificuldades que muitos jovens enfrentam para acessar educação e espaços profissionais. Mesmo assim, nós, juventude indígena, seguimos ocupando esses espaços e transformando a comunicação em resistência e oportunidade.”
A trajetória de Samuel reflete esse processo. Ele conta que tocou em um celular pela primeira vez aos 17 anos e precisou vencer o medo de falar em público. Hoje, utiliza a comunicação para garantir que outros jovens possam acessar informação, educação e espaços de participação sem precisar abandonar seus territórios.
“A tecnologia não deve nos afastar da floresta, mas nos ajudar a permanecer nela, cuidando da vida coletiva.”
Para os jovens comunicadores indígenas, a internet deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica. Tornou-se um novo território de disputa, onde a defesa da floresta, da cultura e da autodeterminação também passa pela capacidade de produzir e controlar as próprias narrativas.
O encontro conta com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Em 2024, o fundo apoiou a primeira parceria entre Varadouro e Tetepawa e também representa uma aposta na comunicação territorial como instrumento de defesa dos direitos indígenas, preservação da memória coletiva e enfrentamento das ameaças que avançam sobre a floresta.
Fruto dessa iniciativa, o documentário “Nawa o Desequilíbrio da Terra” está entre os finalistas do Concurso Dom Philips Bruno Pereira, que recebeu quase mil trabalhos de todo o país. O filme, que retrata os impactos da crise climática sobre o modo de vida dos povos Nawa e Nukini, de Mâncio Lima, foi dirigido por Niara Nukini, estudante de Antropologia na Universidade de Brasília (UnB), onde atualmente preside a Associação dos Acadêmicos Indígenas da UnB (AAIUNB). Niara atua ainda como vice-coordenadora da (Organização das Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia (SITOKAORE).
O documentário concorre na Categoria 4, destinada a iniciativas de comunicação produzidas por integrantes de povos indígenas. Além de “Os Nawa e o Desequilíbrio da Terra”, os documentários “Os Puyanawa – O Renascimento da Memória” e “Os Noke Ko’í e o Preço da Energia”, produzidos a partir da mesma iniciativa, também foram classificados como aptos à premiação nacional.



