SEM SAÍDA

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Colapso do transporte em Rio Branco leva estudantes às ruas contra modelo de concessão

Estudantes reivindicam melhorias, mudança no sistema de gestão do transporte público e melhores condições de salário para trabalhadores. (Foto: Eloísa Alves/Divulgação)

Saída de empresa concessionária, redução de linhas e repressão a protestos colocam em evidência o debate sobre o futuro da mobilidade urbana na capital acreana. Greve na UFAC reúne entidades estudantis que cobram melhorias imediatas no serviço e defendem a revisão da gestão privada do transporte coletivo. 

Tácila Matos

Dos Varadouros de Rio Branco (AC)

Em 17 de junho, a Ricco Transportes e Turismo declarou o fim de sua operação na cidade de Rio Branco. No dia 30, 50 de seus veículos foram apreendidos após decisão do Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC) por uma dívida avaliada em R$ 3 milhões. A situação, que tem provocado desamparo à população, causou a revolta dos estudantes da Universidade Federal do Acre (UFAC) que deflagraram greve em 9 de julho e vêm mantendo mobilização ativa, após as linhas de acesso à instituição, assim como várias outras na capital, terem sido removidas. 

Frente ao caos, o comando de greve formado por estudantes independentes, organizações estudantis, Centros Acadêmicos e a maior representação da categoria, o Diretório Central dos Estudantes (DCE), organizaram diferentes ações de reivindicação com protestos que vem crescendo junto aos estudantes para pressionar a prefeitura de Rio Branco. Ao menos três mobilizações ocorreram em 13 dias de greve: na Prefeitura de Rio Branco, na UFAC, e no recém inaugurado viaduto da Avenida Ceará, importante via da cidade. Nesta quarta-feira, 22.07, o movimento avalia, em assembleia deliberativa, a continuidade das manifestações.

Segundo o estudante de Filosofia e pós-graduando em educação, Anthony Gabriel, participante das atividades grevistas, os universitários pedem, primeiramente pela melhoria do sistema de transporte, que tem prejudicado atividades do cotidiano da população, mas o foco é a mudança do modelo de privatização.

“A privatização dos serviços, inclusive do transporte público, é algo que leva inevitavelmente ao sucateamento, pois ao entregar o serviço público garantido constitucionalmente como um direito na mão de empresas privadas, ficamos à mercê da ‘boa vontade’ delas”, ele afirma.

O discente também pontua o tratamento dado aos funcionários da empresa que realizaram algumas paralisações por salários e adicionais atrasados: “Esses trabalhadores estão diariamente das 6 horas da manhã até quase meia-noite trabalhando duro para não serem valorizados. Então, todos nós sofremos em conjunto”.

Ei trabalhador, olha para cá: eu estou na rua para o seu filho estudar”

No último dia 12 de julho, a pressão dos estudantes por melhores condições de transporte foi reprimida com forte violência, desproporcional ao perigo representado. A presença ostensiva da Polícia Militar na sede administrativa do município, foi responsável por cenas lamentáveis com o uso de cassetetes, gás lacrimogêneo e porte de armamento pesado. A ação dos estudantes recebeu apoio e notas de solidariedade de instituições como OAB, TCE-AC e UFAC, mas também críticas expressivas por parte da população.

A estudante de pedagogia e diretora de Igualdade Racial do DCE/UFAC, Eduarda Ferreira, mais conhecida como Afrodite, relaciona as falas negativas à própria postura dos gestores locais, que, segundo ela, fomentam o sucateamento do ensino público, a falta de pensamento crítico e discursos que desviam a atenção para falsos problemas como ataque à “família”.

A aluna, que também é militante da Juventude do Partido dos Trabalhadores (JPT) e faz parte do Comando de Greve, defende as ferramentas de mobilização e alega que elas foram adotadas a partir do silêncio por parte da Ricco, da prefeitura e da UFAC, após diversas tentativas de comunicação.

“A gente já estava há 7 meses sem respostas, mas a partir do momento que decretamos a greve e fomos para as ruas, ‘magicamente’ as soluções foram aparecendo. Então, ela aparece quando o diálogo já não é mais o suficiente (…) temos um grito que é ‘Ei, trabalhador! Olha para cá: eu estou na rua para o seu filho estudar’, então temos também esse cuidado de explicar para o trabalhador a questão”, ela pontua.

Histórico de sucateamento

A atuação da RBTtrans, superintendência que gerencia o serviço, é marcada por um histórico de insatisfação dos serviços, contratos emergenciais e a falta de um plano estrutural do transporte público.

O mestrando do programa de pós-graduação de geografia (UFAC) e militante da União da Juventude Comunista (UJC), Lucas Barros, prevê a permanência do problema mesmo após a entrada da nova empresa JTP Transportes, que deve assumir oficialmente a partir do dia 1 de setembro.

“É uma ilusão acreditar que a chegada da JTP Transportes vai resolver o problema crônico da mobilidade em Rio Branco. A questão não é se a empresa é boa ou ruim, mas sim o modelo de gestão adotado. Ela assim como qualquer outra, vai buscar formas de pressionar a Prefeitura por reajustes tarifários e por maiores investimentos públicos na forma de subsídios, fortalecendo o monopólio privado”, declara o discente.

Barros ainda reforça o coro dos manifestantes contra a privatização do serviço: “Avançar o debate sobre a estatização do transporte e a tarifa zero (sem cobrança de passagem) é um de nossos objetivos, pois compreendemos que a melhoria efetiva do sistema ocorrerá apenas quando ele estiver sob controle público, a serviço dos trabalhadores e voltado para atender às suas necessidades, e não subordinado à lógica do lucro.”

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Rio Branco mas não obteve retorno até o fechamento da matéria. 

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