PONTE DO RIO QUE CAI

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Relatório de 2015 deixa claro que ponte Paolino Baldassari desabou por negligência

Documento trouxe alerta para riscos de erosão e instabilidade nas margens do rio Iaco, recomendando estudos, fiscalização e acompanhamento técnico em Sena Madureira

Quatro pessoas ficaram feridas durante desamento da estrutura da ponte Paolino Baldassari, que colapsou no dia 5 de junho de 2026. (Foto: MP/AC)

João Maurício Rosa

dos Varadouros de Rio Branco (AC)

Um relatório produzido pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) em 2015 já deixava claro que as duas margens do rio Iaco, na região central de Sena Madureira, eram área de risco para a construção da Ponte Paolino Baldassari. A estrutura desabou exatamente há 3 meses, no dia 5 de junho passado, deixando quatro feridos, entre os quais o juiz aposentado Edinaldo Muniz, de 54 anos e seu irmão, o advogado e jornalista Ednei Muniz, 51.

A ponte, de 232 metros de extensão, foi inaugurada em 19 de dezembro de 2023 ao custo de R$ 36 milhões, mesmo valor bloqueado em bens da Construtora Cidade, responsável pela obra, por determinação da Justiça do Acre.

As causas do acidente estão sendo apuradas através de inquéritos da Polícia Civil e do Ministério Público do Acre (MPAC). O Varadouro tentou ouvir a Polícia Civil, mas não obteve retorno, o mesmo ocorrendo com o Ministério Público.

Entretanto, trechos do inquérito, conduzido pelo promotor Júlio Cesar de Medeiros, já foram divulgados pela imprensa, deixando evidente que o relatório do SGB está ajudando a esclarecer o grau de responsabilidade da construtora e do Governo do Estado em seu dever de fiscalizar a obra.

O estudo do SGB, denominado “Ação Emergencial para Delimitação de Áreas em Alto e Muito Alto Risco a Enchentes, Inundações e Movimentos de Massa” foi realizado em diversas cidades acreanas que estão expostas às inundações durante o ano de 2015 e refeitos neste ano de 2026.

Elaborado mais de uma década antes da queda da estrutura, o documento identificou nove setores do município expostos à processos de erosão fluvial nas duas margens do rio Iaco, incluindo o local da obra sendo quatro setores como sujeitos a inundações e outros cinco como áreas afetadas por erosão fluvial, incluindo trechos descritos como de ocorrência de “terras caídas” nas margens do Iaco. Agora, o documento oferece elementos que podem ser relevantes para o inquérito da Polícia Civil e do Ministério Público do Acre. 

Os técnicos avaliaram as condições do terreno, construções, topografia, declividade, escoamento das águas e sinais de processos capazes de provocar instabilidade. A partir daí elaboraram um diagnóstico oficial apontando a dinâmica do rio Iaco, a erosão de suas margens e a necessidade de acompanhamento técnico permanente das áreas vulneráveis.

 “Terras caídas”

Entre os nove setores identificados pelo SGB estão cinco áreas classificadas como de erosão fluvial do tipo “Terras Caídas”, terminologia usada para descrever o desbarrancamento provocado pela dinâmica das cheias e vazantes dos rios amazônicos.

O levantamento incluiu áreas nas margens esquerda e direita do Iaco, inclusive um setor localizado no Segundo Distrito. A própria metodologia utilizada pelos técnicos considerou como evidências de risco sinais de instabilidade e processos de alteração do terreno observados durante as inspeções.

Um dos pontos mais relevantes do documento é a recomendação para que o município contasse com acompanhamento permanente de profissionais especializados. O documento sugere a contratação de geólogos e engenheiros geotécnicos para realizar visitas periódicas às áreas de risco e supervisionar obras em andamento.

Técnicos do SGB avaliaram as condições do terreno e elaboraram diagnóstico apontando a erosão de suas margens e a necessidade de acompanhamento técnico permanente das áreas vulneráveis. (Foto: Pedro Devani/Secom).

A justificativa era justamente evitar a expansão das áreas vulneráveis e reduzir os custos decorrentes de intervenções posteriores. O relatório também defendia um mapeamento mais detalhado das áreas de risco e a realização de estudos hidrológicos para determinar as cotas de cheia dos rios e seus afluentes, além de avaliar possíveis intervenções de engenharia.

O histórico demonstra que as oscilações do nível do rio Iaco e seus efeitos sobre as margens não eram fenômenos desconhecidos.

Segundo o relatório, a maior cheia registrada até então havia ocorrido em 2012, quando o rio chegou a 17,97 metros e provocou danos em diversas residências do centro de Sena Madureira. Entre fevereiro e março de 2014, o Iaco atingiu 17,19 metros. A cota de transbordamento indicada no relatório era de 15,20 metros.

Polígonos da cidade de Sena Madureira cotnendo mancha da inundação de 2012 contendo áreas de risco a inundações e erosões fluviais. (Foto: Divulgação/SGB)

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Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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