GEOMETRIA HISTÓRICA

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Sob o pasto, presença de geoglifos no coração da Amacro desafia preservação de legado milenar

De patrimônio ameaçado a possível Patrimônio Mundial, os rastros ancestrais da civilização Aquiry, revelados sob a floresta por novas tecnologias, enfrentam o avanço das plantações de soja e da pecuária em uma das regiões de maior pressão sobre a Amazônia

Steffanie Schmidt

Dos Varadouros de Manaus (AM)

Enquanto tratores avançam para abrir áreas de pastagem e cultivo, a ciência e a tecnologia revelaram vestígios de sociedades que transformaram a paisagem amazônica durante séculos. Por décadas, os geoglifos amazônicos – grandes formas geométricas como círculos, quadrados, caminhos e estruturas escavadas no solo — foram identificados, principalmente, em áreas onde o desmatamento havia retirado a cobertura vegetal. Apareciam em meio às pastagens e plantações, como marcas de um legado que resistiu à transformação da paisagem. Quarenta anos depois, esses achados arqueológicos ganharam reconhecimento científico para contribuição com estudos sobre a ocupação da Amazônia há pelo menos dois milênios. 

Geoglifos identificados na região na região de Boca do Acre, em meio à crescente expansão agropecuária que acontece na porção sul do Amazonas (Foto: Valter Calheiros/Instituto Geoglifos)

A publicação do estudo na revista Nature amplia o que se sabe sobre a chamada civilização Aquiry e revela uma paisagem muito mais complexa do que a que se imaginou existir sob a floresta, uma outra perspectiva sobre o modelo de ocupação e de desenvolvimento da região. 

“O modelo atual de desenvolvimento na região, focado em derrubar e plantar capim tem apenas 50 anos e já se mostra insustentável. Esse povo viveu durante mil anos nessa região. Será que vamos desfrutar de tudo isso dessa mesma maneira, durante mil anos?”, questiona o geógrafo e pesquisador Alceu Ranzi, pioneiro na identificação dos geoglifos do Acre e fundador do Instituto Geoglifos, instituição que atualmente preside. Ele define a ocupação antiga como “um modelo a ser estudado”. 

A nova pesquisa utilizou a tecnologia LiDAR — sistema de sensoriamento a laser capaz de identificar estruturas escondidas sob a vegetação — para localizar marcas da ocupação humana em áreas que permanecem cobertas pela floresta. 

“Milhares de estruturas geométricas, caminhos e espaços monumentais indicam que esses povos transformaram e manejaram a paisagem com conhecimentos sofisticados de engenharia, geomorfologia e organização territorial”, explica Alceu Ranzi. Os geoglifos e outras estruturas arqueológicas podem se espalhar por uma área de aproximadamente 200 mil quilômetros quadrados na Amazônia Ocidental.

Segundo o Ranzi, que é paleontólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Acre (Ufac), as estruturas indicam que essas populações indígenas já ocupavam e manejavam a região há mais de mil anos. “Estamos falando do início do milênio”, afirma.

Como conhecedores profundos da geomorfologia da região, escolhiam estrategicamente os locais onde construíam essas estruturas. A ocupação estaria concentrada principalmente em áreas de terra firme, onde comunidades ergueram grandes espaços geométricos, caminhos que interligam por parte do sul do Amazonas aos estados do Acre e Rondônia, além de praças monumentais.

Os “acreanos antes do Acre”, como Alceu Ranzi define os vestígios desses povos ancestrais, habitaram a terra firme — e não apenas as margens dos rios — por mais de um milênio. Eles ocuparam principalmente as áreas conhecidas como interflúvios, área estreita e mais elevada entre dois rios. É a mesma lógica utilizada na construção de estradas. A rodovia BR-317 por exemplo, que liga Assis Brasil a Boca do Acre, corta diretamente esses monumentos geométricos.

Isso significa que desenvolveram um modelo de “urbanismo disperso”, caracterizado por habitações espalhadas pela floresta e interconectadas por uma impressionante rede de 350 quilômetros de estradas antigas que ligavam os geoglifos entre si. 

Esse povo também dominava o manejo florestal. Segundo o pesquisador e coautor da pesquisa, onde hoje existem grandes concentrações de castanheiras, há um sinal genético vivo da presença humana antiga, indicando que essas árvores foram plantadas e manejadas por gerações. 

“A dimensão dessa ocupação ainda é desconhecida. São milhares. Não sabemos até onde vai”, afirma Ranzi. 

O estudo estima que a região associada à civilização Aquiry chegue a aproximadamente 183 mil quilômetros quadrados e tenha abrigado entre 24 mil e 30 mil estruturas de terra, entre geoglifos e outros tipos de construções monumentais. Cerca de dois terços delas são atribuídas ao período Aquiry.

A estimativa mais impressionante refere-se à população. Os pesquisadores calculam que, entre 100 e 300 d.C., período em que a ocupação parece ter atingido seu auge, a população associada à Aquiry poderia ter chegado a 1,25 milhão a 3 milhões de pessoas. Considerando as limitações impostas pela cobertura florestal à identificação das estruturas, os autores admitem que a estimativa poderia alcançar até 3,8 milhões.

Os números não correspondem a uma contagem direta da população ou dos sítios. Os cálculos foram produzidos a partir de estruturas identificadas por sensoriamento remoto, pesquisas arqueológicas anteriores, informações etnográficas e extrapolações estatísticas.  

Passado x presente

Para além da preocupação com a preservação desse patrimônio diante do avanço da fronteira agropecuária, há ainda a crescente criminalidade na região, atraída, principalmente pela ausência do poder público e crescente pujança do modelo de economia imposto pela  pecuária e pela soja. 

Especialmente a parte que faz fronteira com a Bolívia é marcada pelo roubo de gado e pela presença do crime organizado. Até mesmo os drones, utilizados pelos cientistas para identificar estruturas arqueológicas, passaram a ser confundidos como parte das atividades criminosas.

Escavações marcadas em formato geométrico atribuídas à milenar civilização Aquiry, em Boca do Acre, sul do Amazonas (Foto: Valter Calheiros/Instituto Geoglifos)

“A região está sendo explorada agora, uma loucura… zona insegura”, relata Alceu Ranzi. Ele conta que a equipe de pesquisadores foi abordada durante os trabalhos de campo, mais de uma vez, por fazendeiros preocupados com roubo de gado. Em uma das ocasiões, enquanto realizavam levantamentos com drones, os cientistas foram parados de forma hostil e questionados sobre o que estavam fazendo.

Da mesma forma em que a tecnologia permite enxergar o passado escondido sob a floresta, de outro modo, quando empregada em atividades ilegais em uma região marcada pela violência e pela expansão acelerada da fronteira agropecuária, também pode contribuir com o cenário de insegurança e destruição.

Esse cenário de violência contrasta profundamente com o passado pacífico das estruturas. Escavações arqueológicas mostram que os geoglifos não eram estruturas defensivas ou paliçadas de guerra.

Preservação pro futuro

A destruição sistemática arqueológica causada pela pecuária na região começou na década de 1970 com a expansão agropecuária e o desmatamento, realidade que desafia diariamente os órgãos de proteção. Antonia Damasceno, representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), revela que o Acre tem sofrido com a perda irreparável de sítios devido à expansão pecuária. 

Segundo a técnica, o Iphan iniciou há cerca de 10 anos um esforço de criar um “marco zero” para notificar propriedades e tentar registrar a existência desses sítios diretamente nas matrículas dos imóveis (averbação).  

Máquinas pesadas frequentemente aterram e descaracterizam os desenhos para dar lugar à agricultura mecanizada.

Por conta disso, a superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Acre vem buscando fazer um trabalho de cadastramento e conscientização. Hoje, para fazer todo o trabalho de gestão e proteção dos geoglifos, o órgão conta com apenas duas pessoas.

Para validar todo o trabalho, há um único arqueólogo no órgão: a própria superintendente, Antonia Damasceno. Ela mesma desabafa que, por conta disso, é “totalmente inviável fazer uma [fiscalização] nos sítios todos, uma vez por ano” 

Para ajudar a validar as centenas de geoglifos recém-descobertos por imagens de satélite, que ficam na lista de “suspeitos” até a confirmação in loco, há uma arqueóloga realizando especificamente o trabalho de campo para o recadastramento de 400 sítios.

Diante desse gargalo, Antonia explica que a fiscalização física acaba ocorrendo de forma reativa — principalmente a partir de denúncias de destruição.

Atualmente, existem cerca de 600 sítios arqueológicos oficialmente cadastrados, mas a estimativa é de que existam milhares de outros. Cientistas brasileiros e estrangeiros, como o americano Jacob e o paulista Francisco Carrara, já identificaram centenas de possíveis geoglifos por imagens de satélite. Esses locais entram são considerados “suspeitos” até serem validados, a fim de garantir de que não se trata de construções modernas.

Como o trabalho de campo é lento, o Iphan e o Ministério Público Federal (MPF) desenvolveram um sistema de alertas baseado no programa “Brasil Mais” (sensor Planet), que capta imagens de satélite do mesmo local até três vezes ao dia. O sensor avisa imediatamente quando há desmatamento ou destruição em andamento sobre as áreas arqueológicas. Além disso, o órgão notifica os proprietários de terras e realiza a averbação da existência dos sítios diretamente nas matrículas dos imóveis para impedir que novos compradores aleguem desconhecimento e destruam o patrimônio.

Ao mesmo tempo, a busca por reconhecimento internacional avança. O governo brasileiro indicou oficialmente os geoglifos para a lista de Patrimônio da Humanidade da UNESCO. No entanto, Antonia Damasceno ressalta que a candidatura exige estudos complementares integrando uma poligonal que atravessa quatro estados: Acre, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso.

Segundo a superintendente do Iphan, os geoglifos são patrimônio da União. Isso significa que a existência de um sítio dentro de uma propriedade privada não transforma o vestígio arqueológico em propriedade do dono da terra.

Quarenta anos de luta pela memória da floresta

A publicação na Nature representa a coroação de uma jornada de quatro décadas iniciada em 1986, quando Alceu Ranzi registrou a primeira fotografia aérea de um geoglifo a partir de um voo comercial. “São 40 anos que essa notícia circula”, recorda Ranzi, lembrando a saga inicial para conseguir aviões emprestados com o gabinete do governador e a espera de dias para revelar as fotos analógicas.

Ele conta que, ainda nos primeiros anos de pesquisa, percebeu que determinadas formas observadas do alto não poderiam ser explicadas simplesmente por processos naturais.

Um dos momentos decisivos ocorreu quando ele identificou, durante um voo, um geoglifo que havia passado despercebido em registros anteriores. Na época, sem GPS ou Google Earth, ele desenhou um mapa mental do relevo do Rio Acre e conseguiu, junto ao gabinete do governador, o empréstimo de um avião oficial para fotografar a descoberta.

Os pilotos do voo chegaram a ironizá-lo, dizendo que ele estava “tomando muito chá [ayahuasca]” e “vendo coisas”. No entanto, as fotos aéreas provaram que a precisão matemática dos desenhos era humana. A partir dali, passou a dedicar parte de sua carreira ao estudo dessas estruturas.

Em 2022, novas fotografias aéreas deram impulso às pesquisas. A partir daquele material, pesquisadores começaram a aprofundar os estudos e buscar recursos para avançar na investigação. O processo culminou agora em uma publicação na revista científica Nature, depois de um longo processo de avaliação internacional. 

Anos mais tarde, a parceria com o pesquisador finlandês Martti Pärssinen viabilizou recursos para a aplicação da tecnologia laser LiDAR. O equipamento revolucionou a arqueologia ao conseguir “enxergar” o solo por baixo da copa das árvores, provando que a floresta intocada é, na verdade, um patrimônio milenar intensamente manejado.

Superar o crivo científico da revista Nature, segundo o pesquisador, com cinco revisores altamente exigentes (entre eles a renomada arqueóloga Ana Roosevelt), foi uma batalha vencida para a comunidade internacional, uma vez que essa realidade já era conhecida no Acre. 

Ranzi destaca a importância da publicação, mas faz questão de dividir o mérito. “Isto não é um trabalho individual”, afirma. Ao longo dos anos, pesquisadores de instituições brasileiras e estrangeiras participaram da construção de uma base científica que hoje permite compreender melhor a dimensão dos geoglifos.

Equipe do Instituto Geoglifos
Instituto Geoglifos criado em 2024atuar para atuar na defesa, preservação e conservação do meio ambiente, do patrimônio histórico, sítios arqueológicos, dos Geoglifos e da herança cultural dos povos ancestrais da floresta amazônica. (Foto: Valter Calheiros/Instituto Geoglifos)

Entre os pesquisadores envolvidos estão grupos ligados à Universidade Federal do Pará, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade Federal do Acre e instituições estrangeiras.

O trabalho já permitiu encontrar materiais como cerâmica, restos botânicos, material carbônico e argila. A hipótese de que os geoglifos tenham desempenhado funções cerimoniais é uma das interpretações em estudo.

A monumentalidade das estruturas e a precisão geométrica chamam atenção de Ranzi. Ele compara a capacidade de organização espacial desses povos com outros exemplos antigos de sociedades que desenvolveram conhecimentos geométricos complexos.

Para ele, a comparação serve para mostrar que o domínio da geometria e a construção de grandes estruturas não são exclusividades de sociedades do Velho Mundo. 

Medidas

No último dia 12 de agosto, o Conselho Estadual de Meio Ambiente e Floresta (Cemaf) do Acre aprovou uma proposta de resolução que cria procedimentos para o licenciamento ambiental de empreendimentos e atividades localizados em áreas com sítios arqueológicos ou outros bens de interesse arqueológico.

A medida estabelece responsabilidades para os órgãos públicos e para os empreendedores e prevê mecanismos para identificar e reduzir possíveis impactos sobre esses vestígios durante os processos de licenciamento. A proposta procura aproximar a expansão de atividades econômicas da necessidade de proteger um patrimônio que, em muitos casos, ainda permanece oculto sob a floresta ou o solo. A resolução foi aprovada durante a 2ª Reunião Ordinária do Cemaf em 2026, realizada na sede da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), em Rio Branco. 

O que estava escondido sob a mata

A pesquisa percorreu cerca de 4.430 quilômetros em levantamentos aéreos nos estados do Acre e do Amazonas. No conjunto do estudo, os pesquisadores mapearam aproximadamente 4.497 km² e identificaram 432 estruturas de terra associadas à ocupação humana pré-colonial na região.

Em um recorte de 2.380 km² analisado, foram identificadas 347 estruturas, das quais 334 apresentaram características consideradas adequadas para a classificação como geoglifos, pelos pesquisadores.

Em áreas desmatadas do entorno de Rio Branco, por exemplo, o LiDAR identificou 156 estruturas onde imagens de satélite haviam mostrado apenas 30. Ou seja, o escaneamento a laser encontrou mais de cinco vezes o número de estruturas anteriormente identificadas naquele recorte.

O avanço é particularmente relevante para o sudoeste amazônico, uma região onde a expansão de estradas, pastagens e áreas agrícolas transformou profundamente a paisagem nas últimas décadas. O uso do sensoriamento a laser permite investigar áreas que ainda preservam sinais da ocupação pré-colonial, mesmo quando esses vestígios estão encobertos pela floresta.

As estruturas identificadas apresentam dimensões variadas, desde formas com menos de um hectare até grandes complexos que ocupam vários hectares. Algumas das valas associadas aos geoglifos podem atingir entre 9 e 13 metros de largura e até 5 metros de profundidade.

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