EDITORIAL

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Lula derrubou o desmatamento na Amazônia. Agora precisa olhar para quem vive nela

O presidente Lula durante visita à Comunidade de Campo Novo, em Tefé, no Amazonas (Foto: Ricardo Stuckert/PR)





Reduzir o desmatamento da Amazônia é uma conquista que precisa ser reconhecida e defendida. O quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva terá, porém, um desafio que vai além de manter os indicadores ambientais em queda: transformar essa política em uma mudança concreta nas condições de vida de quem habita, trabalha e produz na região. A preservação precisa alcançar a mesa, a renda e as perspectivas das famílias que vivem nas aldeias, nos seringais, nas reservas extrativistas, nos projetos de assentamento e nas pequenas e médias propriedades rurais da região.

Sem isso, a política ambiental corre o risco de ser percebida como uma ação distante, conduzida por órgãos que chegam para fiscalizar, mas nem sempre conseguem permanecer para orientar, regularizar e apoiar quem deseja produzir dentro da lei.

Os resultados do combate à destruição florestal são expressivos. Segundo os dados do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a Amazônia registrou 3.335 quilômetros quadrados de desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026, redução de 41,8% em relação ao período anterior e a menor taxa da série histórica, iniciada em 1988. É uma conquista do país, construída com políticas públicas, fiscalização e atuação dos servidores responsáveis pela proteção ambiental.

Esse avanço precisa ser defendido. Combater a grilagem, a exploração ilegal de madeira, o garimpo e a apropriação criminosa das terras públicas é uma obrigação do Estado. Enfraquecer o Ibama e o ICMBio significaria entregar o patrimônio coletivo aos interesses que lucram com sua destruição. A continuidade dessa política, entretanto, exige que o governo amplie sua presença na Amazônia para além das operações de fiscalização.

Gente que enfrenta dificuldades para conseguir crédito, receber assistência técnica, regularizar sua situação ambiental e transportar a produção em ramais intrafegáveis. O governo precisa construir suas políticas com essas populações, reconhecendo suas diferenças, seus conhecimentos e suas necessidades.

É nesse território que o discurso bolsonarista procura apresentar a fiscalização como perseguição e os órgãos ambientais como inimigos de quem trabalha, de quem produz no campo em meio a tantas adversidades. O governo Lula não deve subestimar a força dessa narrativa. É em cima dela que políticos oportunistas de extrema-direita logram êxito em nossa região, criando um sentimento de antipatia à agenda ambiental e à própria figura de Lula.

A resposta precisa ser concreta. A responsabilização por infrações ambientais deve caminhar com informação acessível, análise individualizada e caminhos viáveis de regularização. O pequeno produtor precisa compreender as exigências, saber onde buscar assistência e ter condições de recuperar áreas degradadas e produzir dentro da lei.

O tamanho da propriedade não pode funcionar como licença para desmatar, assim como a vulnerabilidade de uma família não pode ser ignorada na execução das políticas públicas.

Isso significa fortalecer o Ibama e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ampliar equipes, garantir orçamento, assegurar estrutura de atendimento nos municípios e reduzir a distância entre as decisões tomadas em Brasília e a realidade das comunidades. Significa também integrar a atuação ambiental à regularização fundiária, à assistência técnica, ao crédito e às políticas de desenvolvimento rural.

Para os agricultores e criadores, isso significa assistência técnica continuada, crédito adequado à realidade regional, recuperação de pastagens, sistemas agroflorestais e aumento da produtividade nas áreas já abertas. Significa também estradas e ramais com planejamento ambiental, transporte, energia, conectividade e acesso aos mercados. A transição para uma produção sustentável precisa caber no orçamento e no cotidiano de quem vive da terra.

É necessário garantir preços remuneradores, apoio às cooperativas, armazenamento, beneficiamento e compradores. A floresta em pé precisa gerar renda suficiente para que as famílias possam permanecer nela com dignidade.

Garantir mercado é tão importante quanto financiar a produção. O poder público deve ampliar as compras de alimentos e produtos da sociobiodiversidade, facilitar o acesso dos produtores aos programas existentes, como o Pronaf, o FNO e o Plano Safra, e apoiar relações comerciais que reduzam a dependência de atravessadores. Agregar valor dentro das comunidades e dos municípios amazônicos permite que uma parcela maior da riqueza permaneça com quem trabalha.

Temos um Banco da Amazônia que não pode mais ser visto como uma instituição financeira pública existente para fomentar e garantir crédito apenas aos grandes produtores e latifundiários. O Banco da Amazônia não pode financiar só o grande agronegócio. Ele precisa de fato ser um banco verdadeiramente da Amazônia: financiar o extrativismo, a agricultura familiar, a economia de base florestal.

Fortalecer a cadeia econômica do extrativismo para que, quem ainda vive do corte da seringa e da quebra da castanha, possa ter acesso à renda que lhe garanta qualidade de vida dentro da floresta (Foto: Gleilson Miranda)



Biotecnologia e bioeconomia precisam assumir esse compromisso territorial. Seu êxito deve ser medido também pela renda gerada nas comunidades, pela participação das cooperativas e pelas oportunidades abertas aos jovens. Universidades, institutos de pesquisa e empresas devem contribuir para cadeias produtivas que reconheçam os conhecimentos tradicionais, repartam benefícios e fortaleçam a autonomia das populações amazônicas.

Essa agenda exige retomar a reforma agrária e fortalecer o Incra. Criar um assentamento implica garantir condições para que as famílias vivam e produzam: terra, água, moradia, assistência técnica, crédito e serviços públicos. Nas áreas já destinadas à reforma agrária, o governo precisa enfrentar o abandono e impedir que a precariedade favoreça a concentração de lotes e a expulsão dos beneficiários.

O governo Lula não deve subestimar essa disputa. No Norte e, particularmente, na região da Amacro, que reúne municípios do Amazonas, do Acre e de Rondônia, a esquerda enfrenta dificuldades para consolidar lideranças reconhecidas, construir articulações territoriais duradouras e transformar sua presença institucional em representação política. Em uma região de grandes distâncias, conflitos fundiários e interesses econômicos diversos, não basta contar com a força eleitoral nacional ou com a popularidade de uma liderança presidencial.

Também será necessário tratar a violência no campo como prioridade. Nenhuma política de desenvolvimento se sustenta onde lideranças comunitárias, indígenas, extrativistas e trabalhadores rurais vivem sob ameaça. Proteger essas pessoas, investigar crimes e enfrentar as estruturas econômicas que financiam a violência no campo são tarefas inseparáveis da proteção da floresta e da democratização do acesso à terra.

Lula terá de construir essa política com presença, escuta e continuidade. Seu governo precisa sair dos confortáveis gabinetes de Brasília e estar de fato presente nos territórios amazônicos – todos eles.

Essa fragilidade não será superada apenas com campanhas de comunicação ou visitas de autoridades em períodos eleitorais. Exige organização política permanente, diálogo com as comunidades, apoio às lideranças locais e capacidade de apresentar soluções para problemas concretos. Sindicatos rurais, associações, cooperativas, movimentos sociais e organizações comunitárias precisam participar das decisões e encontrar canais efetivos de interlocução com o governo federal.

Sindicatos rurais, associações, cooperativas e comunidades precisam participar das decisões e acompanhar sua execução. O diálogo deve produzir respostas verificáveis, com orçamento, equipes e prazos, capazes de reconstruir a confiança na ação pública.

A queda do desmatamento demonstra que o Estado pode recuperar sua capacidade de proteger a floresta. O desafio agora é fazer com que essa capacidade se traduza em direitos, segurança fundiária, renda e perspectivas de futuro. A Amazônia não precisa escolher entre conservação e desenvolvimento, mas precisa de um projeto que enfrente as desigualdades históricas e reconheça a diversidade de suas populações.

O governo Lula tem a oportunidade de consolidar uma política ambiental que não dependa apenas de sua liderança ou de resultados temporários. Para isso, precisa fortalecer os órgãos públicos, ocupar os territórios com serviços e políticas permanentes e reconhecer que a disputa pelo futuro da floresta também é uma disputa por presença, confiança e representação política.

Não basta reduzir o desmatamento na Amazônia. É preciso impedir que o abandono da Amazônia continue alimentando os projetos políticos que se opõem à proteção da floresta.








Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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