Incêndios ameaçam votação em Autazes e mobilizam equipes em área indígena de Parintins, no AM

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Incêndios ameaçam votação em Autazes e mobilizam equipes em área indígena de Parintins, no AM

Focos de fogo registrados durante o segundo turno levaram à mobilização de aeronaves, brigadistas e equipes de segurança no Amazonas; em Autazes, 12 locais de votação poderiam ter sido afetadas caso as chamas avançassem.

Fogo registrado dentro de área indígena em Autazes (Foto: Herton Mura/Divulgação)

Dos Varadouros de Manaus (AM)

A crise dos incêndios na Amazônia mostrou-se intencional e criminosa com foco nas Eleições 2026 no Amazonas. Durante a primeira coletiva de imprensa do segundo turno, neste domingo (25/10), representantes do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) e da segurança pública relataram a mobilização de equipes para conter focos de fogo em Autazes, Parintins e Itacoatiara.

A presidente do TRE-AM, desembargadora Carla Reis, classificou os focos como criminosos. No caso de Autazes, a denúncia foi feita pelo Cartório Eleitoral que relatou dificuldade em acessar a zona rural na véspera da Eleição, dia 24/10, por conta da fumaça.

No município conhecido como “Terra do Leite e do Queijo”, dedicado à criação de gado leiteiro, o avanço das chamas poderia comprometer 12 locais de votação, segundo o secretário de Estado de Segurança Pública, coronel Anézio Brito de Paiva.
No acumulado do ano (de janeiro até meados de outubro de 2026), o município de Autazes já contabilizou 2.827 focos de calor, o que representa um aumento de 138% em relação à média histórica. A cidade também enfrenta sérios problemas com a qualidade do ar devido à fumaça dos incêndios.

Ao longo da semana, moradores do município denunciaram a situação de queimada e fumaça ao Varadouro. “Ruim mesmo só essa fumaça, e muita queimada criminosa que tá acontecendo em vários lugares do município”, afirmou um morador que preferiu não ser identificado.

Autazes ocupa a quarta posição no ranking de municípios do Amazonas com maior quantidade de focos de queimada, o equivalente a 6,6% dos mais de 8 mil registrados no estado este ano (Fonte: Inpe)


Desde o início do mês, indígenas Mura atuam por meio da Brigada Indígena na primeira linha de resposta às queimadas dentro da Terra Indígena. Neste domingo (25/10), na região do rio Autaz Mirim, na comunidade Novo Céu, e a brigada estava monitorando o foco registrado na localidade entre Autazes e Careiro da Várzea.

“Apesar dos esforços do Corpo de Bombeiros e do PrevFogo, está muito seco e o vento ajuda a espalhar o fogo”, afirmou o professor indígena Herton Filgueira Mura, liderança e assessor técnico da Organização de Lideranças Indígenas Mura do Careiro da Várzea (OLIMCV).


No município, o projeto da mineradora canadense Potássio do Brasil de exploração do mineral sobrepõem-se ao território tradicional do povo Mura, a Terra Indigena Lago do Soares. De acordo com o tuxaua Felipe Gabriel, além da seca e das queimadas, os indígenas sofrem com escassez de alimento e prejuízo da plantação.

A presença da Potássio do Brasil tem acirrado divergências e aprofundado divisões internas entre os Mura, em meio a disputas sobre o empreendimento e seus impactos no território. O Conselho Indígena Mura (CIM), que apoia o projeto de mineração, recebeu ajuda com cestas básicas da empresa de mineração, enquanto lideranças e organizações ligadas à Organização Indígena da Resistência Mura de Autazes (OIRMA), sofrem as consequências da estiagem. Eles se mantêm em oposição ao empreendimento e defendem a demarcação do território.

Intencional

Na semana seguinte ao primeiro turno das eleições, os focos de incêndio na Amazônia Legal quase dobraram, saltando de 1.854 para 3.695 registros, com maior concentração de queimadas nos estados do Amazonas e do Pará. Segundo declarações dadas à imprensa nacional pela diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Ane Alencar, embora o período seja marcado pela seca intensificada pelo El Niño e pelo uso do fogo em pastagens, o principal fator de alerta foi o aumento vertiginoso na quantidade de focos registrado imediatamente após a votação do primeiro turno.

A hipótese levantada por pesquisadores do IPAM e especialistas aponta que a alta está diretamente associada a atividades criminosas de grilagem e tentativa de ocupação ilegal de terras públicas, evidenciadas pela proliferação de fogo em áreas de floresta preservada, como na margem do rio Amazonas, em frente a Manaus.


O avanço das queimadas articula-se com a expectativa política sobre o resultado eleitoral, que incentiva invasões a terras indígenas e reservas ambientais, além de investigações federais sobre possíveis ações coordenadas na região e do histórico de impunidade para crimes ambientais.


No Amazonas, onde parte da operação eleitoral depende de transporte aéreo e fluvial para alcançar comunidades isoladas, incêndios próximos a áreas de votação representam um risco adicional à organização do pleito.

Em Parintins, um foco de incêndio em uma área de aldeia indígena levou à mobilização de aeronaves, brigadistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e equipes do Corpo de Bombeiros.

A ocorrência evidencia os riscos que os incêndios representam para comunidades tradicionais, cujos territórios podem sofrer impactos que vão além do período eleitoral, incluindo danos à vegetação, à qualidade do ar e às condições de vida dos moradores.

Em Itacoatiara, outro foco identificado na manhã de domingo (25/10) também mobilizou as equipes de resposta. Segundo o secretário de Segurança Pública, uma aeronave KC-390, que estava baseada em Parintins, seria deslocada para apoiar o combate às chamas.

“Parintins, numa parte da reserva indígena, está com esse incêndio, mas já tem aeronaves lá combatendo, além da brigada do Ibama e do Corpo de Bombeiros. Itacoatiara, acabei de receber que também já abriu mais um foco de incêndio. E aí nós estamos mandando o KC-390 que está baseado em Parintins apagar esse incêndio lá”, afirmou o secretário.

A mobilização integrada reuniu órgãos ambientais, equipes de emergência e recursos das Forças Armadas. Até o momento da coletiva, segundo as autoridades, a prioridade era conter os focos e impedir que as ocorrências comprometessem a votação.

“Crise ambiental resvala em tudo”

Ao comentar as ocorrências no interior em entrevista à rádio FM do Povo, a presidente do TRE-AM, desembargadora Carla Maria Santos dos Reis, classificou os episódios como incêndios criminosos. A magistrada destacou que o avanço da destruição florestal ultrapassa o âmbito eleitoral e gera graves consequências socioambientais e de saúde pública para toda a população amazonense.

“A gente tá vivendo uma crise ambiental que acaba realmente resvalando em todos os tipos de situação. Todos incêndios criminosos, não se sabe de quem, mas isso diz respeito à Polícia Federal, ao IBAMA. O que nos preocupa é o impacto na saúde da população. E quem coloca fogo também é vítima, porque vai inalar aquela fumaça tóxica.”

Apesar da pressão ambiental sobre o território, o TRE-AM e o Comando Conjunto das Forças Armadas garantiram que a pronta intervenção manteve todos os locais de votação preservados e operando com segurança.

Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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