VOTO INDÍGENA

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Justiça manda garantir voto indígena, enquanto seca e falta de transporte ameaçam aldeias na Amazônia

Liminar determina apoio da União em todo o país, após ação movida pelo MPF; no Vale do Javari, Univaja alerta para risco de abstenção de até 50% no segundo turno

Em uma regiao de díficil logística como a Amazônia, o acesso das populações tradicionais a uma seção eleitoral mais próxima representa um grande desafio; em tempos de crise climática, com mananciais em vazante severa, dificuldades são aida maiores (Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE)





dos varadouros de Rio Branco

O direito ao voto indígena depende de condições concretas para chegar às urnas. Às vésperas do segundo turno, dificuldades de transporte, alimentação e comunicação colocam essa participação em risco. Nesta quinta-feira (22), a Justiça Federal determinou que a União adote medidas emergenciais em todo o país, após pedido do Ministério Público Federal (MPF).

Segundo o MPF, a liminar estabelece prazo de 24 horas para providências, incluindo transporte gratuito, alimentação e apoio logístico às prefeituras. Prevê também intérpretes, facilitadores culturais e sinalização em línguas indígenas onde necessários. O descumprimento injustificado poderá resultar em multa diária de R$ 1 milhão.

A determinação alcança deslocamentos por rio, terra ou ar, conforme a necessidade das comunidades. Quando não houver veículos ou embarcações públicos disponíveis, prevê ressarcimento dos gastos com combustível realizados pelas organizações indígenas. A decisão é provisória e a ação segue em tramitação, informa o MPF.


No Javari, o risco de ficar sem votar

A medida chega em meio ao impasse no Vale do Javari, oeste do Amazonas. A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) alerta que obstáculos logísticos podem impedir a participação de indígenas de 44 aldeias e estima que a abstenção possa alcançar 50% no território.

Em 20 de outubro, a Justiça Eleitoral de Atalaia do Norte havia negado o pedido da organização por transporte fluvial, água e alimentação. A decisão apontou prazos vencidos, ausência de orçamento específico e dificuldades operacionais.

A prefeitura informou não ter condições de executar o transporte. A vazante dos rios agrava percursos que podem exigir de quatro a sete dias de navegação. A Univaja, por sua vez, cobra planejamento e articulação prévios entre os órgãos públicos. Conforme mostrou a reportagem, aeronaves foram requisitadas para transportar urnas, mesários e equipamentos, enquanto o deslocamento dos eleitores permanecia sem apoio oficial assegurado.

A nova liminar atribui à União obrigações de alcance nacional, mas sua divulgação ainda não comprova que o transporte esteja organizado no Javari. A questão imediata é como transformar a determinação em embarcações, combustível e assistência a tempo da votação de domingo (25).

Os dois episódios expõem uma mesma distância: aquela entre reconhecer o direito e assegurar seu exercício. Para quem precisa viajar durante dias, votar exige uma estrutura que considere os rios, os custos do percurso e as línguas de cada povo.

Garantir essa participação significa impedir que o isolamento geográfico e a ausência de serviços públicos decidam, antes das urnas, quais brasileiros poderão ser ouvidos.

Sobre o autor

Fábio Pontes

Fabio Pontes é jornalista acreano, nascido e criado pelas curvas do Aquiry.
Escreve sobre temas relacionados à Amazônia, populações da floresta, política e temas da fronteira pan-amazônica.

É o refundador e editor-executivo do Varadouro
fabiopontes@ovaradouro.com.br

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