
Steffanie Schmidt
Dos Varadouros de Manaus
O Amazonas concentra o maior número de focos de calor entre os três estados que integram a região da Amacro — Amazonas, Acre e Rondônia — no período de 15 a 16 de outubro de 2026. Foram 219 registros em 48 horas, segundo dados atribuídos ao Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
O Varadouro comparou os dados históricos fornecidos pelo INPE desde 1998 com ajuda de Inteligência Artificial, e identificou mudança de eixo do fogo na Amazônia. A análise dos dados do Programa Queimadas do Inpe revela uma importante transformação na dinâmica dos incêndios florestais no Sudoeste Amazônico. Enquanto Rondônia ostenta a maior média acumulada de queimadas desde o final dos anos 1990, o Amazonas consolidou-se nos últimos anos como o principal foco de pressão ambiental na região. O Acre, por sua vez, mantém volumes menores em termos absolutos, mas demonstra extrema vulnerabilidade em anos de seca severa.
Historicamente posicionado abaixo de Rondônia em volume de focos, o estado do Amazonas passou por uma escalada sem precedentes nos últimos três anos. Em 2024, o estado atingiu o pico de sua série histórica com 25.499 focos de calor, superando os recordes anteriores de 2022, quando somou 21.217 focos, e de 2023, com 19.601 focos.
A sazonalidade no Amazonas atinge o ponto máximo nos meses de agosto e setembro, que apresentam médias históricas de 3.783 e 3.211 focos, respectivamente. O mês de agosto de 2024 estabeleceu uma marca inédita no estado, com a detecção de 10.328 focos em apenas 31 dias. Na média geral da série (1998–2025), o Amazonas contabiliza 10.359 focos por ano.
Apesar do avanço recente do Amazonas, Rondônia lidera a média histórica anual da região, com 13.960 focos registrados por ano. O estado viveu seu período mais devastador em meados da década de 2000, culminando no recorde absoluto de 41.649 focos de calor em 2005 e 40.881 focos em 2004.
Em Rondônia, o mês de setembro é tradicionalmente o mais crítico, registrando uma média histórica de 6.376 focos. Em setembro de 2004, o estado registrou 23.419 focos em um único mês. Em anos recentes, embora não tenha atingido os patamares da década de 2000, o estado voltou a subir de patamar nas secas de 2022 (12.460 focos) e 2024 (10.692 focos).
Com uma média histórica anual de 6.187 focos, o Acre registra a menor quantidade de fumaça e fogo entre os três estados. No entanto, o território acreano é altamente suscetível a episódios de estiagem extrema. O pior ano da história do estado ocorreu em 2005, quando os focos dispararam para 15.993 registros.
A janela crítica no Acre se concentra entre agosto e outubro, com o mês de setembro liderando disparado com média histórica de 3.280 focos. Recentemente, o estado voltou a enfrentar altos índices em 2022, somando 11.840 focos — impulsionados por um mês de setembro que concentrou 6.693 focos —, além de registrar 8.658 focos em 2024.
Crise chega a Manaus
A fumaça que encobre Manaus é um dos efeitos mais visíveis da crise que demonstra o nível das pressões sobre a floresta. Na manhã deste sábado (17/10), a plataforma IQAir registrou Manaus com qualidade do ar classificada como perigosa, enquanto o sistema Selva, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), apontou níveis péssimos em pontos da cidade. Os números variam conforme o horário, o sensor e o indicador utilizado. Por volta das 9h, a plataforma internacional IQAir registrou concentração de partículas finas PM2,5 de 404,3 microgramas por metro cúbico (µg/m³), classificando a qualidade do ar como perigosa.
O valor corresponde a mais de 80 vezes a diretriz anual de concentração desse poluente estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), embora essa comparação não represente uma equivalência entre médias de períodos diferentes. A cidade voltou a figurar entre as capitais mais poluídas do país.
A fumaça, que há semanas compromete a qualidade do ar na capital, não é um fenômeno isolado nem se limita aos incêndios registrados nas proximidades da área urbana. Ela é resultado de uma combinação de queimadas em diferentes regiões do Amazonas, condições atmosféricas desfavoráveis à dispersão dos poluentes e transporte de partículas pelos ventos.
O material particulado fino PM2,5, liberado pela queima de vegetação, pode penetrar profundamente no sistema respiratório e agravar doenças respiratórias e cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com problemas de saúde preexistentes estão entre os grupos mais vulneráveis.
A crise evidencia uma desigualdade: enquanto a fumaça chega às áreas urbanas, comunidades rurais e populações tradicionais também enfrentam os efeitos diretos dos incêndios sobre a floresta, os territórios, os recursos naturais e as condições de vida.
O fogo se espalha pelo território
Dados consolidados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), analisados pelo Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), apontam 8.084 focos de calor no estado entre 1º de janeiro e 15 de outubro de 2026, aproximadamente 120% acima do registrado no mesmo período de 2025. Os focos de calor detectados por satélite não correspondem necessariamente a incêndios individuais, mas ajudam a dimensionar a distribuição espacial do fogo.
A pressão não está restrita às regiões mais distantes da capital. No período de 1º a 15 de outubro, Lábrea registrou 257 focos, seguida por Autazes, com 194, Boca do Acre, com 189, e Itacoatiara, com 120, segundo a consolidação dos dados do INPE divulgada pelo MPC-AM. O quadro revela a coexistência de áreas críticas no sul do estado e de focos em municípios próximos a Manaus.
A fumaça pode percorrer centenas de quilômetros, carregada pelas correntes de ar. Quando as condições meteorológicas dificultam a dispersão, as partículas permanecem suspensas e podem se acumular sobre áreas urbanas. Por isso, a localização dos focos de calor, isoladamente, não permite determinar a origem exata da fumaça que atinge a capital em determinado dia. É necessário cruzar os registros de incêndios com a direção dos ventos e os dados de monitoramento atmosférico.
A dimensão do problema levou a Prefeitura de Manaus a suspender, entre os dias 14 e 18 de outubro, atividades ao ar livre e eventos em locais com aglomeração, diante da persistência das condições desfavoráveis. Na sexta-feira (16), a rede municipal também suspendeu aulas presenciais como medida de proteção à comunidade escolar.
Em 14 de outubro, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima anunciou, em parceria com a Fiocruz, a ampliação do monitoramento da qualidade do ar na Amazônia por meio do projeto FioAres. A iniciativa inclui uma estação de referência em Manaus e disponibiliza dados para acompanhar a concentração de PM2,5 e subsidiar ações de vigilância ambiental e de saúde.
A resposta emergencial, porém, precisa caminhar junto com a prevenção. Monitorar a poluição e orientar a população são medidas indispensáveis, mas não eliminam as causas da fumaça. O enfrentamento exige investigação das origens dos incêndios, fiscalização ambiental, responsabilização dos responsáveis quando comprovada a infração e políticas capazes de reduzir a ocorrência de queimadas.
Força-tarefa tenta conter o avanço do fogo
O governo federal e o estadual mantêm uma operação de combate aos incêndios no Amazonas, com 330 brigadistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A estrutura mobilizada inclui 11 aeronaves, 32 veículos terrestres e oito embarcações.
De acordo com a Agência Brasil, mais de 300 focos de incêndio foram extintos pelas equipes nos cinco dias anteriores ao balanço divulgado em 16 de outubro. Nessa data, o painel do INPE apontava 188 focos ativos, após o pico de 494 novos registros em 10 de outubro.
A continuidade dos incêndios, a vegetação seca e as condições meteorológicas podem favorecer novos focos, enquanto a fumaça já liberada permanece sujeita ao transporte atmosférico.
A pressão sobre a floresta também exige atenção às terras indígenas e às unidades de conservação. Embora tenham sido divulgados indicadores de redução dos incêndios em terras indígenas em comparação com o ano anterior, as unidades de conservação estaduais continuam sob alerta.
O uso do fogo no Amazonas está sujeito a restrições estaduais, incluindo uma proibição por 120 dias informada durante a atual emergência. A aplicação efetiva dessas medidas é fundamental para reduzir a ocorrência de queimadas e evitar que o fogo seja utilizado irregularmente para abrir ou limpar áreas.