
João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco
Cerca de 260 famílias das comunidades Marielle Franco e Irmã Dorothy voltaram a se mobilizar pela destinação de terras públicas na região da Fazenda Palotina, em Lábrea, no sul do Amazonas, divisa com o Acre Os trabalhadores ocuparam uma área que, segundo suas lideranças, integra o território arrecadado pela União na Gleba Novo Natal. Denunciam que a proposta de distribuição das terras favorece fazendeiros, deixa de fora mais da metade das famílias e mantém os moradores sob intimidação de seguranças privados.
A nova ocupação acontece em uma região marcada por disputas fundiárias e sucessivas denúncias de violência contra trabalhadores rurais. No centro da divisa Amacro – formada por Amazonas, Acre e Rondônia -, o reconhecimento de terras públicas ainda não assegurou às famílias o acesso aos roçados, rios e castanhais dos quais dependem para viver. Essa é uma luta que se arrasta, ao menos, desde 2016.
“Nós estamos acampados aqui há mais de 10 anos reivindicando um assentamento em terras da União que estavam ocupadas irregularmente por fazendeiros. Depois de muita luta, com várias mortes, atentados, tortura, o Incra arrecadou a gleba, mas está regularizando as terras para os fazendeiros e ignorando dezenas de famílias de trabalhadores rurais”, afirma Paulo Araújo, uma das lideranças do movimento.
Segundo ele, a ocupação protesta contra uma destinação que contemplaria menos da metade das 260 famílias das duas comunidades. Os trabalhadores cobram do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) o cadastramento dos acampados e a revisão dos critérios de distribuição dos lotes.
“O Incra arrecadou as terras sem antes fazer um levantamento das famílias que estavam acampadas, deixando mais da metade de fora. Agora estão anunciando que cada fazendeiro terá direito a 2.500 hectares”, ressalta Paulo.
O temor de lideranças ouvidas pela reportagem é o do recrudescimento da violência na região, com a atuação de grupos armados organizados por fazendeiros. Áudio obtido pelo Varadouro mostra o possível gerente de uma das fazendas ocupadas pedindo apoio de outros colegas para arregimentar pessoas para conter a entrada e a permanência dos sem-terra.
O receio é o de que, com a saída de servidores do Incra e agentes da Polícia Federal que acompanham a demarcação dos lotes, as famílias sejam atacadas a tiros por pistoleiros em emboscadas.
Nas últimas semanas vem crescendo o clima de tensão na divisa entre o Amazonas e o Acre na disputa pela terra. Recentemente, moradores do acampamento Marielle Franco denunciaram que tiros são disparados contra as castanheiras numa tentativa de intimidação.

Liderança denuncia ameaças
O agricultor Paulo Araújo, uma das lideranças do Assentamento Mariele Franco denuncia que está sendo ameaçado de morte por fazendeiros que ocupam terras arrecadadas pela União no km 86 da BR-317, entre Rio Branco e Boca do Acre.
De acordo com vídeo gravado pelo agricultor, o estopim do conflito mais recente foi o fechamento de um ramal com uma porteira instalada por um fazendeiro. A denúncia, segundo ele, foi levada à Polícia Federal e ao Incra de Brasília, com a presença, inclusive, do superintendente do Incra no Acre no local, que teria constatado o fechamento.
“Eles dizem que vão expulsar as famílias de suas casas e as coisas acontecem. Eles falam que têm gente dentro da Justiça, que têm os melhores advogados”, afirma Paulo.
O líder do assentamento alega que, após as denúncias, passou a ser alvo de uma ação judicial movida em Lábrea, que depois foi remetida à Justiça Federal por se tratar de terra pública. Ele também relata um episódio anterior em que foi preso por acusação de desmatamento, prisão que, na avaliação dele, teria sido forjada a pedido de fazendeiros.
Paulo Araújo denuncia ainda que os fazendeiros da região teriam forte influência política e econômica, financiando campanhas e mantendo relações com agentes públicos, o que dificultaria o registro de suas denúncias nas delegacias e na imprensa local de Rio Branco.
Ainda segundo o relato do agricultor, há outras irregularidades na região, como impedimento de acesso de moradores a escolas públicas localizadas dentro de fazendas, extração ilegal de madeira e castanha, e até situações de trabalho análogo ao escravo, denúncias que ainda precisam ser apuradas pelos órgãos competentes.

Em seu desabafo nas redes sociais, ele pede providências das autoridades federais e apoio dos movimentos sociais. “Eu me incomodo com os mais fracos, com os mais necessitados, com os vulneráveis. Por eu fazer isso eu tô sofrendo ameaça”, diz. “Eu tô pedindo providência das autoridades, porque eu tô sendo ameaçado constantemente.”
SAIBA MAIS
Líder da ocupação Marielle Franco tem casa incendiada por jagunços
Terra pública, acesso bloqueado
O processo de arrecadação abrange aproximadamente 28,47 mil hectares da Gleba Novo Natal, incluindo terras disputadas na região da Fazenda Palotina, reivindicada pela família Zamora. A portaria do Incra foi publicada em fevereiro de 2025, mas seus efeitos acabaram suspensos judicialmente após contestação de particulares.
Em 6 de agosto de 2026, uma decisão do desembargador federal Flávio Jardim, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), restabeleceu a atuação administrativa do órgão sobre a área.
Conforme o Varadouro mostrou à época, a decisão permitia retomar procedimentos de cadastramento, planejamento, regularização e destinação das terras. Não significava, porém, que as famílias já estivessem assentadas. A retirada das porteiras e as denúncias de intimidação por equipes de segurança privada continuavam entre as principais cobranças dos moradores.
Agora, Paulo afirma que as famílias permanecerão no local até que o Incra reveja a destinação ou que a Justiça determine sua saída. Também cobra a retirada dos seguranças privados e a abertura das porteiras que, segundo os moradores, impedem a entrada nas áreas arrecadadas.
De acordo com o relato encaminhado à reportagem, no dia 14, homens uniformizados, identificados pelos moradores como funcionários da empresa Bastos Segurança e Vigilância, tentaram desfazer o acampamento. Eles teriam alegado que o grupo estava dentro da Fazenda Palotina e contestado que o trecho ocupado estivesse sob domínio da União.
Os moradores resistiram à retirada. Segundo as lideranças, o encontro foi marcado por tensão e registrado em vídeo.
CPT questiona distribuição
A coordenação regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Acre também manifestou preocupação com o destino das famílias. Em mensagem enviada ao Varadouro, a entidade afirma que cerca de 20 mil dos aproximadamente 28 mil hectares arrecadados podem ser destinados a grupos e ocupantes ligados às fazendas da região.
Pelos números apresentados pela CPT, seriam 10 mil hectares para quatro integrantes de um grupo descrito no comunicado como misto, 5 mil para ocupantes ligados à Fazenda Palotina e outros 5 mil para os da Fazenda Fusão. A distribuição denunciada pela entidade ainda depende de esclarecimento do Incra.
“Então, as 260 famílias que estão nessa luta há anos, parece assim que a luta delas foi em vão”, afirma a mensagem, que cobra o assentamento dos trabalhadores que atendam aos critérios legais.
A CPT também pede a atuação do Ministério Público Federal e dos órgãos responsáveis pela questão fundiária diante de relatos de assassinatos, agressões e criminalização de trabalhadores desde 2015.
A insegurança sobre o acesso à terra ameaça ainda a renda das famílias da comunidade Irmã Dorothy. Segundo a entidade, os moradores correm o risco de perder novamente a safra de castanha por não conseguirem entrar com segurança nos castanhais. O comunicado relata que trabalhadores foram baleados em duas tentativas de acesso à área.
Barracos destruídos e vigilância armada
As denúncias atuais retomam episódios que o Varadouro acompanha há quase quatro anos na tríplice divisa Amacro. Em dezembro de 2024, famílias do acampamento Marielle Franco relataram agressões e destruição de barracos por funcionários da Bastos Vigilância. Nos vídeos examinados pela reportagem naquela ocasião, homens alegavam cumprir uma ordem judicial, enquanto moradores cobravam a apresentação do documento e questionavam a ausência de representantes da Justiça. Barracos foram derrubados com motosserras.

A disputa atingia diretamente a quebra de castanha. Os trabalhadores denunciavam impedimentos de entrada na floresta e retenção da produção recolhida. Naquela cobertura, Varadouro procurou um representante da empresa para esclarecer as acusações e apresentar a ordem judicial mencionada, mas não recebeu resposta até a publicação.
Em agosto de 2025, outra reportagem registrou denúncias de instalação de um posto de vigilância privada armada em terras arrecadadas nos limites da fazenda. Moradores também relatavam monitoramento por drones e disparos noturnos nas proximidades das casas. A cobrança era pela presença dos órgãos públicos e pela proteção das famílias enquanto aguardavam a definição fundiária.
A morte de José Jacó Cosotle, morador do acampamento encontrado com ferimento de arma de fogo em janeiro de 2025, agravou o medo na comunidade. O caso passou a integrar o histórico de mortes e denúncias de violência acompanhado pelo Varadouro na região.
Violência para além da Palotina
O ambiente de insegurança alcança outras áreas rurais de Lábrea. Em 4 de junho de 2026, uma emboscada no Ramal do Monte matou Márcio Rogério Barbosa, conhecido como Paulistão, e deixou três pessoas feridas. Pouco mais de um mês antes, em 25 de abril, outro ataque no Projeto de Assentamento Monte havia matado três pessoas, entre elas um adolescente de 14 anos.
Os ataques ocorreram em outra área, mas ajudam a dimensionar a violência que cerca as disputas por terra no sul do Amazonas. Ao comentar a emboscada de junho, Paulo Araújo relatou ao Varadouro que trabalhadores de diferentes comunidades conviviam com ameaças e pressões. As acusações sobre os responsáveis dependiam de investigação das autoridades.
Na Gleba Novo Natal, a preocupação com a destinação já aparecia em março de 2025. Após a publicação da portaria de arrecadação, famílias ouvidas pelo Varadouro temiam ser remanejadas e perder plantações e outras benfeitorias construídas durante os anos de ocupação. A recuperação administrativa das terras, portanto, já vinha acompanhada de dúvidas sobre quem seria atendido e em quais condições.

Incra não respondeu
O Varadouro procurou Márcio Alécio, que havia se afastado da superintendência regional do Incra no Acre para disputar uma vaga de deputado federal, e Hildebrando Veras, apontado como seu substituto, para esclarecer as denúncias e os critérios de destinação da área. Não houve retorno até o fechamento desta edição.
Como as áreas em disputa estão dentro de território amazonense, não se sabe se a responsabilidade pela demarcação está a cargo do Incra do Amazonas ou do Acre, por conta da proximidade geográfica do territóroi com Rio Branco.
O espaço permanece aberto para manifestação.