Concentração de PM2,5 chegou a 490,1 µg/m³ nesta quinta-feira sem qualquer reação do poder público; Cientistas e estudantes lançam proposta de governança permanente para enfrentar queimadas e poluição do ar no AM

Dos Varadouros de Manaus
Manaus amanheceu nesta quinta-feira (8) encoberta por fumaça e registrou o pior episódio de qualidade do ar de 2026. Durante a madrugada, a concentração de partículas finas — o material particulado conhecido como PM2,5 — chegou a 490,1 microgramas por metro cúbico (µg/m³) em um dos pontos monitorados pelo Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (SELVA), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). O índice supera em 71% o pior registro anterior do ano e coloca a qualidade do ar na categoria “péssima”.
A fumaça que tomou conta da capital resulta de uma combinação de queimadas em municípios do interior e da Região Metropolitana, associadas a incêndios e focos dentro da própria cidade. Entre os municípios apontados no entorno estão Itacoatiara, Iranduba, Careiro da Várzea, Manaquiri e Autazes. Em Manaus, um incêndio em uma área de descarte de resíduos no Distrito Industrial 2 agravou o cenário e levou o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) a aplicar multa de R$ 5,5 milhões ao responsável pelo terreno.
A dimensão do episódio também alterou a rotina de instituições de ensino. Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Instituto Federal do Amazonas (Ifam) suspenderam atividades presenciais na capital e adotaram o formato remoto diante da piora da qualidade do ar.
O céu cinzento, porém, é a consequência de um problema que pesquisadores do Amazonas tentam enfrentar para além das emergências. Enquanto a fumaça volta a ocupar Manaus, uma articulação formada dentro da universidade prepara uma proposta para transformar respostas pontuais em uma política permanente de prevenção, monitoramento e combate às queimadas.
Ciência diante da crise recorrente
É nesse contexto que o Programa de Pós-Graduação em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia (PPGCASA) apresenta, em novembro, o primeiro módulo do Plano Integrado de Governança Contra a Fumaça. O lançamento será no dia 10/11, às 9h, no canal do PPGCASA no Instagram.
Elaborado com a participação de mais de 27 docentes e 80 discentes, o plano reúne pesquisadores de diferentes áreas em torno de uma pergunta que se repete a cada período de estiagem: quem faz o quê quando a fumaça toma conta das cidades amazônicas — e como medir se as medidas adotadas estão funcionando?
A proposta procura responder justamente a essa lacuna. Em vez de limitar a atuação ao período em que os incêndios já atingiram grandes proporções, o documento estabelece ações emergenciais e de médio prazo, com 30 propostas e indicadores objetivos para acompanhar resultados.
A ideia é que os indicadores também possam ser utilizados pela sociedade e pelos órgãos de controle para verificar o cumprimento das medidas previstas.
Outro eixo do plano é uma matriz de responsabilidades, que procura delimitar as atribuições dos diferentes órgãos públicos envolvidos na prevenção e no combate aos incêndios. Para os pesquisadores, estabelecer essas responsabilidades é fundamental para evitar que a resposta pública fique presa à transferência de atribuições entre Estado e municípios.
O documento também prevê o uso de modelagem da dispersão da fumaça e monitoramento da qualidade do ar em tempo real, ampliando a capacidade de antecipar episódios críticos e informar a população.
Da fumaça à política pública
A mobilização acadêmica não se limita à elaboração do documento. Os pesquisadores também articulam uma petição destinada ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM). O abaixo-assinado, que já reúne quase 1,9 mil assinaturas, reivindica a criação de um Plano Permanente de Prevenção e Combate a Incêndios, além de mecanismos de alerta público diário e do fortalecimento da rede de saúde para enfrentar os efeitos da poluição atmosférica.
Segundo a coordenação do PPGCASA, a universidade não foi chamada pelo poder público para participar da construção conjunta dessas soluções. Ainda assim, pesquisadores decidiram ocupar o espaço de debate e apresentar propostas baseadas em evidências científicas.