EDITORIAL

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A Amazônia não pode pagar pela volta da boiada

O fortalecimento da extrema direita ameaça a proteção da floresta. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro exige um alerta diante da trágica experiência ambiental do governo de seu pai, que abriu a porteira para a boiada passar sobre a Amazônia



A Amazônia corre o risco de sofrer um grave retrocesso histórico. O fortalecimento de forças políticas que tratam a proteção ambiental como obstáculo ao desenvolvimento cria condições para novos ataques à floresta e aos direitos de seus povos. Quando essa visão conquista governos, parlamentos e a capacidade de mudar as regras, a ameaça ganha instrumentos para se transformar em destruição.

O Brasil já viveu essa experiência durante o governo Jair Bolsonaro (2019-2022). Em abril de 2020, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu aproveitar a atenção da sociedade à pandemia para “ir passando a boiada”, alterando normas e acabando de vez com as operações de comando e controle de campo. A expressão tornou-se símbolo de uma concepção de poder: usar a oportunidade política para desmontar proteções que deveriam servir ao interesse público.

A dimensão do problema também aparece nos números. Segundo a série oficial do Prodes/Inpe – instituição que também foi alvo da fúria bolsonarista -, o desmatamento na Amazônia Legal passou de 7.536 quilômetros quadrados em 2018 para 11.594 em 2022. São territórios inteiros de floresta perdida, com consequências que permanecem muito depois do encerramento de um mandato.

É diante dessa experiência que o Varadouro considera uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro (PL) um risco de reabertura da porteira para a boiada voltar a avançar sobre a Amazônia de forma descontrolada.

O parentesco dele com o ex-presidente, sozinho, não determina uma política de governo. A continuidade política reivindicada pelo bolsonarismo, entretanto, exige cobrança pública sobre o legado que pretende recuperar – inclusive na área ambiental. A sociedade tem o direito de saber quais proteções serão fortalecidas, quais serão alteradas e a quem essas mudanças servirão.

Na Amazônia, a promessa de progresso precisa ser confrontada com a vida de quem habita o território. Quem ganha com a derrubada? Quem fica com a terra? Onde permanecem a renda e os empregos? Quem paga pela contaminação dos rios, pela fumaça e pela perda dos meios de subsistência?

Um projeto de desenvolvimento incapaz de responder a essas perguntas pede um cheque em branco para transformar patrimônio coletivo em benefício privado.

O perigo aumenta quando a mesma orientação encontra apoio nas diferentes instâncias de poder. Uma mudança federal pode ganhar execução local; uma pressão econômica pode encontrar respaldo parlamentar; uma agressão ao território pode ser favorecida pelo enfraquecimento da fiscalização. É por isso que a defesa da Amazônia exige atenção permanente ao que se decide em Brasília, nos governos estaduais e nas assembleias legislativas.

No Acre, o debate sobre desenvolvimento precisa sair da promessa repetida de que derrubar a floresta abrirá, por si só, o caminho da prosperidade por meio da versão mais retrógrada e reacionária do agronegócio. É necessário discutir distribuição de renda, pesquisa, educação, infraestrutura e apoio à produção compatível com a conservação. Quem oferece a devastação como atalho deve explicar por que a população deveria entregar seu patrimônio sem garantias de melhoria de vida.

Também cabe ao jornalismo recusar a normalização desse discurso. Investigar interesses, acompanhar votações, examinar planos de governo e ouvir as comunidades atingidas são deveres da cobertura pública. A dimensão ambiental de uma candidatura precisa receber o mesmo escrutínio aplicado às suas propostas econômicas e à sua relação com o dinheiro público.

O Varadouro defende fiscalização com recursos e autonomia, respeito aos territórios indígenas, proteção das unidades de conservação e oportunidades econômicas para quem mantém a floresta em pé. Defende, sobretudo, que os povos amazônicos tenham voz e poder nas escolhas que determinarão seu futuro.

Uma política de assistência técnica rural, de manutenção dos ramais e de mecanização agrícola para que deixem de, a cada período do verão amazônico, fazer uso do fogo para limpeza dos roçados e pastagens tem muito mais resultados para a sociedade do que um governador ordenar que ninguém mais precisa pagar as multas do Imac “porque agora quem está mandando sou eu”.

Fortalecer e valorizar a agricultura de base familiar são a verdadeira forma de a Amazônia conviver com uma produção agropecuária sustentável, sem a necessidade de se fazer mais desmatamento para a abertura de novas áreas produtivas – que, como sabemos, logo depois se degradam e são abandonadas.

Uma vitória eleitoral não concede licença para destruir. Nenhum governante recebe das urnas o direito de comprometer as condições de vida das próximas gerações.

A boiada já passou uma vez. A Amazônia ainda paga essa conta. Abrir novamente a porteira seria uma escolha política desastrosa – e precisa encontrar uma sociedade disposta a impedi-la.

E, ao fim e ao cabo, todos nós pagaremos essa conta.
















Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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