UMA FLORESTA EM ALERTA

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No Acre, advogada é acusada de incitar ódio contra primo de Chico Mendes

Raimundão e o filho, Rian, acionaram a Justiça contra Raimunda Queiroz por publicação nas redes sociais; família afirma que ataques se somam a ameaças de morte relacionadas às operações contra o desmatamento e a pecuária irregular dentro da Resex Chico Mendes. Hostilidade já é um sinal do recrudescimento da violência no campo com perspectiva de eleição de Flávio Bolsonaro.

O líder seringueiro Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, e o seu filho Rian, vítimas de uma campanha difamatória por suas lutas em defesa da floresta e por declararem voto em Lula (Foto: Acervo Família)




João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco

Uma publicação da advogada Raimunda Queiroz nas redes sociais levou o líder seringueiro Raimundo Mendes de Barros, conhecido como Raimundão, e seu filho, Rian, a recorrerem à Justiça. Os dois pedem a retirada do conteúdo do Instagram e a condenação da advogada por calúnia, injúria e difamação, sob a alegação de que a postagem utiliza imagens da família e expressões ofensivas para estimular a hostilidade contra quem defende a floresta na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, em Xapuri, no Acre.

Na publicação, Raimunda associa Raimundão a uma suposta atuação política em favor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o acusa de não ser um verdadeiro defensor da floresta. “Pau mandado do Lula em Xapuri. Povo de Xapuri e da reserva Chico Mendes, a liberdade de vocês vai acontecer se Deus quiser, chega de opressão, perseguição, opressão, pobreza e miséria, eles não são defensores da Floresta e sim de um governo corrupto e comunista”, escreveu a advogada, acompanhando a mensagem com imagens de Raimundão, de seu filho e do presidente Lula.

Segundo Rian, a postagem retoma uma sequência de ataques e ameaças contra seu pai, que se intensificaram em junho do ano passado depois de uma operação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) voltada ao combate ao desmatamento e à criação irregular de gado dentro da unidade de conservação.

Durante os quatro anos do governo de seu pai, Jair Bolsonaro (2019-2022), a Resex ChiCo Mendes registrou níveis recordes de desmatamento e queimadas. A desestruturação de instituições como o ICMBio acabou com as fiscalizações dentro da unidade de conservação.

Neste mesmo período, a bancada da motosserra do Acre no Congresso Nacional se articula para aprovar o Projeto de Lei 6024, que desafeta áreas já desmatadas e ocupadas pela pecuária dentro da Resex Chico Mendes. A apresentação da proposta foi vista à época como um dos principais indutores para a expansão do desmatamento e venda de terras dentro da unidade de conservação federal.

Postagem feita por advogada ligada aos interesses do agronegócio tenta criar ambiente de animosidade contra familiares de líder seringueiro Chico Mendes (Foto: Reprodução)



Com a eleição e a vitória do presidente Lula, com a consequente reestruturação do ICMBio, as operações foram retomadas, o que levou à queda do desmatamento. Entre estas operações estava a Suçuarana, cujo objetivo era retirar gado criado ilegalmente no interior da área protegida.

Na ocasião, cerca de 400 cabeças de boi foram apreendidas e três pessoas acabaram presas após uma tentativa de invasão à base do órgão ambiental em Xapuri.

A partir daí, Raimundão passou a ser acusado por moradores envolvidos no conflito de fornecer informações aos agentes ambientais. Segundo o filho, as acusações evoluíram para ameaças de morte em grupos de WhatsApp.

“Esse pessoal aí é uma desgraça… não deixa ninguém trabalhar. Esse Raimundão, aí, se puder detonar a vida, detona, esse pessoal aí são desgraçados”, dizia uma das mensagens compartilhadas no contexto dos ataques.

Para Rian, a publicação da advogada contribui para reavivar a hostilidade contra o pai, uma das lideranças tradicionais da região e primo do lider seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988 por sua luta em defesa da floresta.



Ameaças atingem a família

As ameaças contra Raimundão e seus familiares já haviam sido relatadas em reportagem do portal Varadouro em junho de 2025. Após a Operação Suçuarana, realizada pelo ICMBio, mensagens e áudios compartilhados em grupos de WhatsApp passaram a responsabilizar o líder seringueiro pelas fiscalizações, apreensões de gado, multas e embargos de áreas dentro da reserva.

Algumas mensagens faziam referências explícitas ao assassinato de Chico Mendes, sugerindo que Raimundão poderia ter o mesmo destino. Raiara Barros, filha de 21 anos do de Raimundão e integrante do Coletivo Varadouro, organização formada por jovens moradores de reservas extrativistas do Acre, relatou o impacto das intimidações sobre sua vida e a de sua família.

“Eu hoje estou perdendo a minha juventude com esse medo que a gente sempre carrega por estar à frente defendendo o legado de Chico Mendes, o legado do Raimundão, pois o pai tem muita história para ser seguida, e a gente vive nesse medo. São pessoas capazes de tudo. É um medo extremo que toma conta da gente. É um medo que afeta muito a minha vida”, afirmou.

A jovem também teme que a escalada de hostilidade alcance outras lideranças ambientais à medida que as operações de fiscalização avancem para outros municípios do Alto Acre. “Isso hoje está acontecendo em Xapuri, com essas ameaças contra as pessoas que defendem a floresta e sabemos que, quando essa ação chegar em Brasiléia e nos outros municípios, vai acontecer a mesma coisa”, disse.



Disputa em torno da reserva

O conflito envolve diferentes interesses dentro da Resex Chico Mendes, unidade de conservação criada para proteger a floresta e garantir a permanência das populações tradicionais que vivem do extrativismo.

A criação de gado é permitida pelo plano de uso da reserva, desde que respeitados os limites estabelecidos para cada colocação. O problema ocorre quando a atividade avança sobre a floresta, com desmatamento e ampliação irregular das áreas de pastagem.

Parte do gado encontrado nas colocações, segundo relatos reunidos pelo Varadouro, pertence a terceiros, em um sistema conhecido como “gado de meia”, no qual moradores cedem suas áreas para a criação de animais de proprietários de fazendas do entorno.

Os críticos das operações ambientais acusam o ICMBio de cometer abusos, alegando falta de notificação adequada e de oportunidade para a retirada dos animais. O órgão, por sua vez, informou que os alvos das fiscalizações são invasores que já haviam sido notificados administrativamente e contra os quais existem decisões judiciais transitadas em julgado.

Agentes do ICMBio fazem a retirada de gado ilegal dentro da Resex Chico Mendes, em junho de 2025. Operação criou ambiente de violência e ameaças em Xapuri (Foto: Ascom ICMBio)



Um dos casos que ganharam repercussão foi o de um morador do Seringal Nova Esperança, em Xapuri, filmado aos prantos durante a apreensão de seu gado. Conforme informações divulgadas pelo ICMBio, a área de 98 hectares havia sido embargada por desmatamento e impedimento da regeneração natural.

O primeiro proprietário recebeu a notificação em 2016. Após uma decisão judicial determinar a desintrusão, a área foi vendida a outro ocupante, que também teria sido notificado em 2024 para retirar os animais. Embora tenha cumprido a determinação inicialmente, ele voltou a ocupar o pasto.

É nesse cenário de disputa que Raimundão passou a ser apontado por adversários como responsável pelas ações de fiscalização. O líder seringueiro, entretanto, é conhecido por suas críticas à expansão da pecuária e à comercialização de colocações dentro da reserva.

Uma floresta em alerta

Para Ângela Mendes, filha do líder seringueiro assassinado em 1988 e coordenadora do Comitê Chico Mendes, o resultado do primeiro turno desenhou um cenário de ameaça à proteção ambiental no Acre. Ela destaca a eleição de Márcio Bittar e Mara Rocha para o Senado, vinculados ao PL 6024, que propõe recategorizar o Parque Nacional da Serra do Divisor e alterar os limites da Resex Chico Mendes.

Ângela também aponta a participação de Mara na proposição do PL 2623, sobre exploração de rochas em unidades de conservação, e o apoio político à abertura de uma estrada até o Peru. Em sua avaliação, essas iniciativas convergem para desmontar a proteção de territórios de elevada importância ecológica: “Tá montada toda a estrutura legal para acabar com uma das maiores biodiversidades do planeta para tirar… pedras”.

Para Ângela, uma eventual convergência entre um Legislativo contrário à agenda socioambiental e um Executivo disposto a enfraquecer as garantias de proteção da floresta ampliaria os riscos para a Amazônia e suas populações. “Se eventualmente Flávio Bolsonaro for eleito, teremos tempos muito difíceis”, avalia.

Ângela também manifesta preocupação com a possibilidade de indicações ao Supremo Tribunal Federal orientadas por interesses políticos e compromissos com a família Bolsonaro.

Filha do líder seringueiro morto na década de 1980 por lutar pela defesa da Amazônia, a ativista Ângela Mendes mostra preocupação com o fortalecimento dos grupos de extrema-direita após o resultado eleitoral do primeiro turno (Foto: Divulgação Comitê Chico Mendes)



Advogada se apresenta como defensora do agronegócio

Raimunda Queiroz se apresenta nas redes sociais como “defensora do Agro no Acre” e reúne cerca de 22,4 mil seguidores no Instagram. Em maio deste ano, promoveu uma caminhada entre Epitaciolândia e Xapuri, num trajeto que chega a 50 quilômetros, transmitida pela plataforma, para defender a regularização fundiária e contestar as ações de fiscalização na Resex Chico Mendes.

Durante a caminhada, a advogada afirmou que sua mobilização era motivada pela defesa da permanência das famílias na reserva e pelo combate aos embargos ambientais.

Segundo ela, a unidade de conservação abriga cerca de 15 mil pessoas e enfrenta problemas relacionados à regularização fundiária. Raimunda também afirmou que existem 846 autos de infração na reserva e mais de R$ 120 milhões em multas aplicadas, além de milhares de áreas embargadas em todo o Acre.

A advogada atribuiu ao poder público a responsabilidade pelas dificuldades enfrentadas pelos moradores e criticou o que considera a falta de apoio econômico às famílias que vivem do extrativismo. Em sua avaliação, os baixos preços dos produtos florestais dificultam a sobrevivência das comunidades.

Antes de assumir esse posicionamento público em defesa do agronegócio, Raimunda foi filiada ao PSB, partido da base de apoio ao governo Lula no Congresso Nacional. Em 2022, concorreu a uma vaga na Assembleia Legislativa do Acre, mas recebeu só 16 votos.

Ela também ocupou a presidência da Comissão de Regularização Fundiária da Ordem dos Advogados do Brasil no Acre (OAB-AC), entre janeiro e novembro de 2025. De acordo com Rian, a advogada foi exonerada do cargo após tentar interferir em assembleias da Resex Chico Mendes em nome da instituição.

Advogado aponta possível violação de direitos

O advogado Gomercindo Rodrigues, que atuou no movimento ambientalista ao lado de Chico Mendes, afirma que a publicação pode ultrapassar os limites da crítica política e atingir direitos individuais dos retratados.

“Ela pode criticá-los, mas não pode usar a imagem deles, menos ainda usar expressões agressivas”, ressaltou. O caso agora deverá ser analisado pela Justiça, que decidirá sobre os pedidos apresentados por Raimundão e Rian. A ação busca a retirada da publicação e a responsabilização da advogada pelas acusações apontadas pela família.







Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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