
Tácila Matos
dos varadouros de Rio Branco
Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do Acre e um dos principais redutos eleitorais do bolsonarismo no estado, vive um ambiente de tensão política após o segundo turno das eleições presidenciais. Embora Flávio Bolsonaro (PL) tenha conquistado 71,11% dos votos válidos no município, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a cidade também registrou manifestações de rua e mobilizações nas redes sociais em apoio ao presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A presença de apoiadores de Lula nas ruas da cidade, historicamente marcada pelo predomínio eleitoral do conservadorismo de direita, provocou reações de setores bolsonaristas. Uma delas foi a divulgação, em grupos de WhatsApp, de uma lista com nomes de estabelecimentos comerciais cujos proprietários manifestaram apoio ao candidato petista. O documento incentiva o boicote aos negócios, numa tentativa de intimidação para transformar divergências políticas em prejuízos econômicos.
A autoria da lista ainda é desconhecida. O material reúne estabelecimentos de diferentes segmentos do comércio local e passou a circular após as manifestações realizadas durante a campanha do segundo turno.
Mobilização nas ruas rompe silêncio político no Juruá
Desde a ascensão de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência da República, em 2018, Cruzeiro do Sul consolidou-se como um dos principais redutos do bolsonarismo no Acre. A expressiva votação de Flávio Bolsonaro em 2026 demonstra a permanência dessa força eleitoral no município do Vale do Juruá.
Entretanto, a campanha do segundo turno também revelou a disposição de grupos políticos de esquerda e apoiadores de Lula de ocupar os espaços públicos da cidade. Manifestações que foram conduzidas, especialmente, por jovens e estudantes da Universidade Federal do Acre (Ufac).
Atos realizados nos dias 16 e 24 de outubro reuniram manifestantes e ampliaram a presença do campo progressista no debate político local.
O fotógrafo e comunicador socioambiental Paulo Henrique Costa, um dos organizadores das manifestações, conta que a mobilização começou a partir da articulação de estudantes e ganhou força com a participação de outros setores da sociedade.
“Foi um trabalho coletivo de articulação, mobilização e diálogo para mostrar a força da esquerda no Vale do Juruá”, afirma.
Além dos atos presenciais, as redes sociais se tornaram um importante espaço de mobilização. Costa relata que os conteúdos produzidos por ele em apoio a Lula e contra o fascismo alcançaram, somados, cerca de 70 milhões de visualizações no Instagram durante o período eleitoral.
Foi também por meio de seu perfil que o comunicador denunciou a circulação da lista de estabelecimentos comerciais alvos do boicote bolsonarista.

Comerciantes denunciam intimidação e reagem ao boicote
Entre os nomes incluídos na lista está o médico pediatra Rodney Brito, responsável por duas empresas ligadas à gestão hospitalar. Além de ter seus negócios expostos, ele relata ter sido alvo de uma agressão em sua própria residência, onde uma sacola contendo fezes foi arremessada.
O médico acredita que os episódios sejam promovidos por um grupo minoritário e afirma que não pretende se intimidar diante das hostilidades. Segundo ele, as diferenças políticas nunca impediram a manutenção de boas relações pessoais e profissionais com moradores da cidade.
“Essa ação parte desse grupo intransigente na tentativa de prejudicar comerciantes, pais e mães de família, pessoas que trabalham e pagam impostos para levar sustento a casa, mas não vão obter sucesso”, declara.
Outra comerciante incluída na lista, Aline Diniz, proprietária da Doutorinha, loja especializada em roupas para profissionais da saúde, resolveu reagir à tentativa de boicote com bom humor.
Em vez de demonstrar preocupação com a exposição de seu estabelecimento, a empresária afirmou que a iniciativa acabou funcionando como uma propaganda gratuita de seu negócio.
“De repente todo mundo sabe que eu vendo roupa no shopping. A pessoa que fez isso tem um tempo muito ocioso, mas eu estou muito agradecida por ela ter feito essa lista propagandeando a minha loja”, ironiza.
Para Aline, as diferenças de posicionamento político precisam ser respeitadas, independentemente do resultado das eleições. “As pessoas têm que aprender que a democracia é assim”, acrescenta.
A comerciante também anunciou a intenção de publicar um vídeo nas redes sociais da loja para agradecer, de forma irônica, a divulgação de seu estabelecimento e aproveitar a repercussão para atrair novos clientes.
Perpétua Almeida repudia lista e recomenda denúncias
A deputada federal eleita Perpétua Almeida (PCdoB), que apoiou as manifestações pró-Lula no Vale do Juruá, região que é um de seus principais redutos eleitorais, repudiou a tentativa de boicote aos comerciantes e criticou a disseminação do ódio político após as eleições.
“É muito triste que pessoas percam tempo alimentando o ódio. A nossa luta é contra o desemprego, a desigualdade, a fome, o preconceito e tantas outras mazelas”, afirma.
A parlamentar também comparou a elaboração de listas destinadas a prejudicar estabelecimentos comerciais a práticas de perseguição adotadas pelo regime nazista contra a população judaica na Alemanha.

“Aliás, esta é uma prática adotada pelos nazistas contra os judeus na Alemanha. Faziam listas para perseguir profissionais e boicotar estabelecimentos pertencentes aos judeus”, declarou.
Perpétua orientou os comerciantes atingidos a procurar os órgãos competentes para denunciar eventuais ameaças, constrangimentos ou outras práticas ilícitas.
A disputa por espaço político em uma cidade conservadora
Apesar da reação hostil de parte dos adversários políticos, os organizadores das manifestações avaliam que a mobilização deixou uma marca importante na vida política de Cruzeiro do Sul.
Para Paulo Henrique Costa, os atos demonstraram que, mesmo em uma cidade onde o bolsonarismo reúne ampla maioria eleitoral, existem diferentes posições políticas que precisam ter assegurado seu direito à manifestação.
“Elas mostram que a participação política não pertence a um único campo ideológico e que a população tem o direito de se manifestar, mesmo quando isso significa enfrentar um ambiente de hostilidade”, afirma.

O comunicador considera que a principal conquista das manifestações foi permitir que pessoas com posições políticas semelhantes se reconhecessem e construíssem espaços de participação coletiva.
“A gente mostrou que não está sozinho. E, para mim, essa é uma das maiores conquistas desse processo: saber que existem outras pessoas dispostas a caminhar junto, a defender a democracia e a construir um futuro diferente para a nossa cidade, para o Acre e para o Brasil.”
Em uma cidade onde mais de sete em cada dez eleitores votaram em Flávio Bolsonaro, as manifestações em apoio a Lula evidenciaram que a expressiva maioria eleitoral da direita não significa ausência de outras vozes no debate público.
A circulação da lista de boicote, por sua vez, expõe as dificuldades de convivência democrática em um ambiente de forte polarização política, mesmo depois de encerrada a disputa nas urnas.
