
dos varadouros de Rio Branco
A participação de povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais nas decisões sobre a crise climática esteve no centro de uma das mesas da Conferência de Direitos Humanos do Fundo Brasil, realizada na última quarta-feira (9), em São Paulo O debate foi mediado pelo jornalista Fábio Pontes, editor-executivo do Jornal Varadouro, e reuniu Sineia Wapichana, enviada especial da COP para os povos indígenas; Maryellen Crisóstomo, jornalista quilombola do território Baião, no Tocantins; Andréia Coutinho, diretora-executiva do Centro Brasileiro de Justiça Climática; e Maureen Santos, cientista política e coordenadora do Grupo Nacional de Assessoria da Fase.
As participantes discutiram os avanços e os limites da presença dos povos e movimentos sociais nas Conferências das Partes das Nações Unidas, além dos caminhos necessários para transformar participação em poder efetivo de decisão.
Representante do povo Wapichana, de Roraima, Sineia lembrou que a presença indígena nesses espaços não foi concedida pelos governos, mas conquistada ao longo de décadas de mobilização. Segundo ela, a COP30, realizada em Belém em 2025, ampliou a participação da sociedade civil e reuniu mais de 600 lideranças indígenas.
A presença física, entretanto, não elimina as barreiras. Para Maryellen Crisóstomo, a linguagem técnica e o predomínio do inglês nas negociações também funcionam como mecanismos de exclusão, dificultando a compreensão e a participação de representantes dos territórios.
“Os termos técnicos também são uma forma de exclusão”, afirmou. A jornalista ressaltou ainda que as reivindicações precisam alcançar os documentos oficiais: “Só vai se transformar em compromisso dos Estados o que está no texto”.
Comunicação também é poder
Durante o debate, a jornalista Andréia Coutinho chamou atenção para a desigualdade na cobertura jornalística dos eventos climáticos. Enquanto acontecimentos registrados em São Paulo ou no Rio de Janeiro ganham rapidamente repercussão nacional, tragédias e fenômenos ocorridos em estados amazônicos, como o Acre, podem levar dias para alcançar a imprensa do centro do país.
Para ela, aproximar a agenda climática da população exige linguagem acessível, circulação de informações nos territórios e uma produção jornalística conectada às realidades locais.
“Comunicação é poder, jornalismo é poder, linguagem é poder”, destacou.
“Não existe Justiça Climática enquanto a Amazônia continuar sendo vista apenas como uma floresta distante e não como um território onde milhões de pessoas vivem os efeitos mais severos da crise do clima”, ressalta o editor do Varadouro, Fabio Pontes, que em quase duas décadas acompanha in loco os impactos da crise climática em seu território.
“Quando uma seca, uma enchente ou uma queimada atinge o Acre, muitas vezes precisamos primeiro lutar para que o restante do país reconheça que aquilo está acontecendo. Por isso, comunicar a partir da Amazônia também é disputar poder: é romper a invisibilidade, devolver voz aos territórios e mostrar que quem vive a crise precisa participar das decisões sobre ela.”
Não se pode mais falar sobre a Amazônia de cima para baixo. A floresta precisa ser debatida aqui embaixo”, completa ele.
Maureen Santos reforçou que a mobilização pela Justiça Climática não ocorre apenas nos espaços oficiais das conferências. Ela citou a Cúpula dos Povos como território de resistência, articulação e construção de alternativas diante dos limites das negociações conduzidas pelos governos.

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A Cúpula dos Povos realizada em Belém foi construída ao longo de dois anos e meio. O processo começou com cerca de 40 organizações e chegou a reunir mais de 1.500 movimentos indígenas, quilombolas, negros, feministas, sindicais e redes internacionais.
Um dos principais legados, segundo Maureen, foi incorporar a crise climática à agenda de movimentos que até então não tratavam o tema como prioridade.
Ao final da mesa, participantes e mediador convergiram sobre um ponto: ocupar as COPs é importante, mas não suficiente. A construção da Justiça Climática depende da organização permanente nos territórios, do acesso à informação, da produção de conhecimento, do financiamento das organizações populares e da pressão sobre os governos — antes, durante e depois de cada conferência.
Texto original publicado pelo Fundo Brasil
