
O tema da jornada de trabalho teve centralidade nestas eleições de 2026. De um lado, as forças progressistas propunham o fim da escala 6×1 e, de outro, a extrema direita defendia o pagamento por horas trabalhadas. Encabeçado por Flávio Bolsonaro, o bloco extremista acusava a caducidade da nossa legislação trabalhista, colocando-se como defensor da livre negociação entre empregado e patrão.
Em resumidas contas, os extremistas ofereciam um “futuro de liberdade”. Passados alguns poucos dias das eleições, uns tantos episódios mostram com assustadora clareza o que seria de fato esse futuro de liberdade, caso ganhassem.
Ao ouvir Flávio Bolsonaro falar de seu projeto para a redefinição da jornada de trabalho no Brasil, éramos tomados por uma curiosa impressão. Parecia que a jornada de trabalho era algum produto que, sem dificuldade nenhuma, o trabalhador poderia definir. Assemelhava-se a alguma mercadoria que o trabalhador, dispondo de poder aquisitivo, escolheria na prateleira de um supermercado qualquer.
Bastava estender a mão.
Tudo parecia resumir-se a uma questão de gosto e vontade. Querendo, o trabalhador determinaria tudo. Nada mais enganoso. Com sua retórica de liberdade, os extremistas deixavam propositalmente oculto o que de fato determina qualquer jornada de trabalho: a desigual relação de poder entre patrão e empregado.
Num confronto entre classes economicamente antagônicas, a jornada de trabalho não pode ser definida pelo trabalhador segundo seu arbítrio, como se ele pudesse estabelecer, a seu bel-prazer, a jornada que lhe agrada. Em verdade, no mundo real, a força de trabalho é que é uma mercadoria alugada pela classe dominante. E geralmente a classe dominante dispõe de muito mais poder para definir o valor desta mercadoria (força de trabalho) do que a classe dominada/trabalhadora.
A definição do salário mínimo, das condições e da jornada de trabalho não é fruto da “liberdade do trabalhador”, como se o trabalhador, depois de muito pensar consigo mesmo, tivesse chegado à conclusão de que é muito melhor para ele trabalhar apenas oito horas por dia em vez de dezesseis horas, como era no princípio do capitalismo. Tampouco é fruto de uma sensível consciência social dos patrões, como se estes, em face das degradantes condições dos trabalhadores, tivessem cedido à inclinação humanista de seus corações, lágrimas nos olhos.
As conquistas dos trabalhadores são resultado de uma incansável luta. Luta que deve ser ininterrupta, como demonstram episódios ainda em curso.
Bastou sair o resultado das urnas e alguns patrões começaram a perseguir e a demitir funcionários “petistas”. Eles não estavam demitindo funcionários porque estes não faziam bem seu trabalho ou coisa assim. Alguns desses patrões faziam questão de ressaltar que estavam demitindo bons funcionários, que, de uma maneira geral, no que diz respeito ao que era exigido para o bom desempenho de suas funções, eram exemplares.
Sem meios-termos, deixavam claro que o motivo da demissão era a escolha política desses funcionários. Desse modo, os que prometiam respeitar a liberdade econômica estavam cassando a liberdade política do trabalhador. Os que prometiam um futuro de liberdade estavam, ao contrário, resgatando e tentando impor uma prática bem conhecida do nosso passado: a do voto de cabresto, um voto controlado. E voto controlado é voto usurpado.
Não podendo definir, a priori, a escolha dos trabalhadores, esses patrões optaram por puni-los, usando a demissão como uma forma de controle a posteriori. E pensar que são essas pessoas que defendem a liberdade de dizer e fazer tudo o que bem tendem nas redes sociais. Defendem liberdade total nas redes.
Ou quase isso. Quase isso porque vigiaram o que seus funcionários postaram nas redes e, caso esses tenham postado alguma coisa que não foi do seu agrado, em consonância com a opção política dos patrões, usaram isso como pretexto para demissão de seus empregados.
Como cidadão, o empregado está numa relação de igualdade com o patrão. Como funcionário, é um subordinado, mantendo com ele uma relação de desigualdade. Ora, se essa gente não respeita a liberdade política do cidadão – um igual seu -, há muito estabelecida pela lei, como respeitaria a liberdade econômica de um funcionário, um subordinado seu?
Discurso libertário; prática despótica. Assim são os patrões aqui em tela. Desse ponto de vista, a legislação trabalhista não é nem um peso nem uma prisão. É, com efeito, uma necessária salvaguarda que assegura, contra os abusos da classe patronal, os direitos elementares do trabalhador.
Muitos dos episódios de assédio de que estamos tratando aqui foram registrados e divulgados nas redes sociais, gerando certa onda, como se essa prática não fosse definida como crime de assédio eleitoral pela nossa legislação. A reação veio, sem demora. Em poucos dias, foram feitas milhares de denúncias.
Como era de esperar, as redes sociais foram inundadas de pedidos de desculpas e perdão por parte de patrões arrependidos. Gente de má índole, de incauta vaidade. Recuaram, não por crise de consciência ou por força de uma epifania de esclarecimento qualquer, mas por medo das consequências jurídicas de seus crimes.
Num movimento só, fizeram ataques econômicos e políticos a quem pensa diferente, ostentando seus crimes nas redes sociais. Mesmo perdendo, eles fizeram isso. Imaginem só o que seriam capazes de fazer, caso tivessem ganhado.
Olhado no conjunto, o movimento é muito pior que isso. Muitos desses derrotados suspenderam ajuda a projetos sociais de caridade, boicotaram comércios e, o mais emblemático de tudo, chegaram a propor o uso de estrelas para identificar comerciantes que fizeram outra opção política. Não há como tergiversar. Essa é uma reconhecida prática nazista usada contra os judeus e, agora, usada contra os que combatemos o neofascismo entre nós.
Como se vê, é uma prática que ameaça os trabalhadores, sim, mas ameaça também aquelas frações da classe dominante que não aderem às forças extremistas, que não se rendem ao seu autoritarismo. Não teremos um futuro seguro enquanto formos ameaçados por essas forças que teimam em tentar impor o pior do nosso passado.
Acabamos de derrotá-los nas urnas, mais uma vez. Contudo, nossa democracia não estará segura enquanto não os derrotarmos de uma vez por todas na sociedade.