Depois da denúncia, continuamos vulneráveis: quem protege aqueles que protegem a floresta?

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Depois da denúncia, continuamos vulneráveis: quem protege aqueles que protegem a floresta?

aA liderança Ashaninka Francisco Piyãko escreve uma carta aberta com novo alerta sobre pressões e amaeças de grupos criminosos na tríplice fronteira amazônica Brasil, Bolívia e Peru contra os povos indígenas (Foto: Carol Puyanawa)




Por Francisco Piyãko*

Há uma pergunta que não nos deixa desde 6 de julho de 2026: O que acontece com um povo indígena depois que ele denuncia uma invasão em seu próprio território? A resposta mais simples seria imaginar que, depois da denúncia, estaríamos mais seguros. Mas, para quem permanece na floresta, a realidade é outra.

Nós continuamos aqui. Nossas famílias continuam vivendo onde sempre viveram. Nossos filhos continuam – ou esperamos que continuem – crescendo onde cresceram nossos pais e nossos avós. Só que agora algo mudou: a tranquilidade que conhecíamos foi interrompida.

Naquele dia 6, nosso território, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, foi invadido. Não estamos falando de uma violação de limites geográficos. Estamos falando da entrada de uma ameaça armada em nosso território, e sabemos que aqueles que entraram podem voltar. É difícil explicar para quem está longe, o que significa viver sob essa possibilidade.

Quando um povo precisa denunciar publicamente que teme pela própria existência e, depois de denunciar, continua exposto ao mesmo risco, sua vulnerabilidade aumenta. Quando uma comunidade indígena diz que está ameaçada dentro de seu território, nos deparamos com a incapacidade de garantir a sobrevivência daqueles que vivem e cuidam de uma parte estratégica da Amazônia.

Os Ashaninka vivem e mantêm vínculos históricos, culturais, territoriais e de pertencimento dos dois lados da fronteira entre Brasil e Peru. No Brasil, as terras indígenas com presença Ashaninka no Acre somam cerca de 715 mil hectares. Entre elas está a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, com aproximadamente 87 mil hectares, em Marechal Thaumaturgo, na região de fronteira com o Peru.

Do lado peruano, o território tradicional Ashaninka se estende por diferentes áreas da Amazônia, incluindo o Departamento de Ucayali. Dados oficiais registram 675 localidades Ashaninka, das quais 405 são reconhecidas como comunidades nativas, reunindo mais de 118 mil pessoas, segundo o Censo de 2017. Estudos sobre o território tradicional estimam que essa área histórica alcance aproximadamente 100 mil quilômetros quadrados.

Mais do que dimensionar a extensão territorial, esses dados ajudam a compreender a presença e a continuidade do povo Ashaninka em uma região que a fronteira política não consegue explicar: somos parentes, separados por uma linha desenhada pela geopolítica oficial, a partir de uma lógica diferente daquela que orienta nossa relação com o território, e estamos unidos por uma história, uma cosmovisão e pelo desejo de viver na floresta, cuidando dela e encontrando nela nosso sustento.

Mas a fronteira tem sido explorada por aqueles que transformam a distância, o difícil acesso e a fragilidade da presença do Estado em oportunidades para atividades ilícitas.

Essas atividades trazem consigo consequências que ultrapassam a própria prática criminosa: violência, pressão econômica, destruição ambiental, controle logístico, disputa territorial, intimidação. O que antes era para nós espaço de encontro, circulação e alegria passa a ser também marcado pela tensão e pela incerteza.

Nós conhecemos esses territórios. Sabemos quando alguma coisa muda, quando uma presença é estranha ou quando uma nova circulação rompe a rotina. Conhecemos os rios, os caminhos, as áreas de caça, de pesca, os lugares de uso tradicional e os sinais da floresta. Percebemos transformações que podem passar despercebidas para quem chega de fora. Esse conhecimento precisa fazer parte das estratégias de proteção.

Foi também a partir desse conhecimento que identificamos a ameaça e iniciamos uma articulação binacional por meio da Comissão Transfronteiriça Juruá – Yurúa – Alto Tamaya, que vem ganhando protagonismo internacional pelo seu trabalho de vigilância e incidência política na agenda de enfrentamento do crime organizado.

Em 6 de julho, quando homens armados entraram em nosso território, fizemos o que estava ao nosso alcance: procuramos as autoridades e denunciamos a invasão. Ontem completou um mês, que em 23 de julho, uma delegação formada por quatro lideranças do nosso povo, representando a Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa), o Instituto Yorenka Tasorentsi e a Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj) foi a Brasília.

Essa viagem precisa ser compreendida pelo que realmente foi. Não fomos à capital para acrescentar mais uma reunião a uma agenda institucional. Saímos de nosso território porque existe uma situação de emergência que ultrapassa a nossa comunidade e alcança toda a região do Juruá.

Fomos alertar Brasília sobre o que está acontecendo conosco. Fomos dizer que não podemos enfrentar sozinhos uma ameaça que envolve segurança pública, fronteira e crime organizado. E fomos porque acreditamos na capacidade e na responsabilidade do Estado brasileiro em proteger seus cidadãos e seus territórios.

Na ocasião, foram discutidas medidas emergenciais e mecanismos permanentes de segurança com envolvimento de diferentes órgãos do Estado, além da construção de um plano de proteção para a região.

Também foram iniciadas articulações para levar a questão ao âmbito da cooperação internacional e fortalecer a proteção de algumas lideranças, porque os riscos que enfrentamos não se encerram nas fronteiras políticas.

Reconhecemos a importância dessas iniciativas. Mas existe uma diferença fundamental entre uma medida discutida em uma reunião e a sensação de estarmos, de fato, protegidos. É essa diferença que queremos que o mundo compreenda.

Para quem está no território, uma semana pode ser muito tempo quando a ameaça está presente a cada dia. O tempo tem outro peso. Cada dia importa.

A denúncia, por si só, não muda esse cenário. Quando a ameaça está relacionada à atuação de redes criminosas, a vulnerabilidade permanece mesmo depois que as autoridades são informadas. Aqueles que foram denunciados sabem que foram vistos. Sabem que as autoridades foram procuradas. Sabem que as comunidades falaram.

Enquanto isso, nós continuamos aqui, entrando na mesma floresta e percorrendo os mesmos caminhos pelos quais os homens encapuzados chegaram. Por isso, precisamos que as medidas anunciadas se transformem em ações concretas. Não podemos esperar que uma nova violência aconteça para que a urgência seja reconhecida.

Precisamos de prevenção, presença do Estado, inteligência, coordenação entre as instituições. Precisamos, ainda, que os mecanismos de proteção considerem as especificidades das comunidades indígenas que vivem em áreas de fronteira.

E precisamos que as comunidades sejam ouvidas quando dizem que uma região está mudando, que determinada circulação é estranha ou que uma ameaça está crescendo.

O que acontece conosco também não deve ser visto apenas como um problema dos Ashaninka. A região onde vivemos está inserida em uma das áreas mais estratégicas e conservadas da Amazônia e em uma fronteira que conecta diferentes países, povos e territórios. Se redes criminosas conseguem avançar onde a presença do Estado é insuficiente, o problema deixa de ser exclusivamente indígena.

Por isso, a proteção dos povos indígenas precisa fazer parte de uma estratégia mais ampla de proteção da Amazônia.

Brasil, Peru, Bolívia e os demais países amazônicos precisam ser capazes de cooperar diante de ameaças. A proteção dos povos indígenas e de seus territórios não pode depender da capacidade de uma comunidade enfrentar sozinha ameaças que operam em escala transfronteiriça.

Ao mesmo tempo, não queremos que nossa comunidade seja apresentada como uma vítima passiva esperando que alguém venha nos salvar. Somos parte ativa da proteção desse território e temos feito a nossa parte.

Somos um povo que há gerações conhece e protege esse território. Identificamos riscos, denunciamos, procuramos as instituições, fomos a Brasília e estamos propondo diálogo. Mas existe uma diferença entre reconhecer a capacidade de resistência de um povo e transferir para ele a responsabilidade pela própria segurança.

Por isso, esperamos que o governo cumpra suas atribuições e os compromissos assumidos.

Não escrevemos esta carta aberta para negar os esforços que vêm sendo feitos. Escrevemos porque precisamos que a urgência de quem vive no território seja compreendida. O tempo das instituições não pode ser completamente separado do tempo de quem está sob ameaça.

Não queremos esperar por uma nova invasão para provar que a ameaça era real. Não queremos que uma nova violência aconteça para que medidas de proteção sejam consideradas urgentes.

Nossa escolha foi denunciar antes que algo pior acontecesse. Continuaremos fazendo isso. Porque o que acontece conosco não termina onde termina o nosso território.

Quando a floresta é pressionada por economias ilícitas, quando a violência avança sobre as comunidades, quando o Estado chega tarde e quando aqueles que denunciam precisam viver com risco de uma nova invasão, não estamos diante apenas de uma crise indígena. Estamos diante de um sinal. De um prenúncio de uma crise maior.

A Amazônia não será protegida apenas por satélites, operações ou discursos internacionais. Ela também será protegida quando os povos que vivem nela poderem continuar existindo, circulando, transmitindo seus conhecimentos e cuidando de seus territórios.

Diante do avanço das economias ilícitas sobre a floresta, talvez seja hora de reconhecer que proteger os povos indígenas não é apenas uma questão de direitos. É uma das condições para que a própria Amazônia continue existindo.

Para nós, no fim, o que queremos é simples: Queremos manter viva nossa casa. Queremos poder chegar em casa livres de ameaças.



*Franciso Piyãko é liderança do povo Ashaninka, coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), organização integrante da Comissão Transfronteiriça Juruá/Yurúa/Alto Tamaya






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Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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