
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
O Acre viu a Polícia Federal voltar às ruas para investigar suspeitas de corrupção na administração estadual e a existência de um grupo que buscaria antecipar operações policiais. No mesmo período, eleitores respondiam à nova pesquisa Quaest. Divulgado na sexta-feira, 25, o levantamento trouxe um contraste: Mailza Assis (PP), herdeira política do ex-governador Gladson Cameli, passou à frente na disputa pelo governo, enquanto ele manteve os 19% na corrida ao Senado.
Em agosto, o senador Alan Rick (Republicanos) liderava a disputa pelo Palácio Rio Branco com 33%, contra 24% de Mailza. Agora, a governadora aparece com 36% e Alan, com 28%. Tião Bocalom (PSDB) permaneceu com 15%. A mudança também aparece na simulação de segundo turno entre os dois primeiros colocados: Mailza tem 46% e Alan, 34%; na rodada anterior, ele tinha 42% e ela, 35%.
O calendário da pesquisa exige cuidado na leitura. A Quaest ouviu 804 eleitores entre 21 e 24 de setembro. As operações Ptolomeu IV e Umbra foram deflagradas no dia 22, quando parte das entrevistas já havia ocorrido; as demais foram feitas enquanto as ações e suas revelações repercutiam.
O resultado, portanto, registra votos declarados ao longo desse período, mas não permite medir isoladamente o efeito das operações sobre quem foi entrevistado depois delas. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.
Na Ptolomeu IV, a PF apura suspeitas relacionadas à contratação de empresas para uma obra pública. A Umbra investiga indícios de um núcleo organizado para obter informações sobre equipes, viaturas e ações policiais, com o objetivo de antecipá-las e reduzir a eficácia de medidas judiciais.
Juntas, as operações cumpriram 28 mandados de busca e apreensão autorizados pelo Superior Tribunal de Justiça. São investigações em curso, e as suspeitas dessa nova fase não devem ser tratadas como condenações.
Já na semana anterior, a PF, em conjunto com a Controladoria Geral da União (CGU), tinha deflagrado a Death Note, cujo objetivo era desarticular suposto esquema de desvio de R$ 30 milhões na Secretaria de Educação.

Em resumo, a pesquisa Quest foi realizada num ambiente de “contaminação” do cenário político, em denúncias de escândalos de corrupção, mas nada que pudesse afetar tanto a imagem de Gladson Cameli – que já tem uma condenação por crimes de corrupção, com base em inquéritos da operação Ptolomeu – e sua sucessora no Palácio Rio Branco.
Mesmo Mailza Assis não tendo nenhum caso de corrupção diretamente ligado à sua pessoa, ela herda as mazelas de um governo manchado por investigações de malversação no trato da verba do contribuinte.
A situação judicial anterior de Gladson, porém, já era conhecida dos eleitores nas duas rodadas da pesquisa. Condenado pelo STJ no processo da Ptolomeu, ele teve o registro de candidatura ao Senado indeferido por unanimidade pelo Tribunal Regional Eleitoral do Acre em 11 de setembro.
A decisão ainda admite recurso. Mesmo assim, marcou 19% em agosto e 19% em setembro no cenário estimulado para as duas vagas ao Senado. O número indica estabilidade nas intenções de voto declaradas, sem explicar os motivos de cada eleitor para apoiá-lo.
Outra mudança chama atenção. Em agosto, a corrupção era apontada por 13% dos entrevistados como o principal problema do Acre: ocupava o segundo lugar, atrás apenas da saúde. O Varadouro destacou à época que ela superava até a violência entre as preocupações dos acreanos.
Na nova rodada, a corrupção foi citada por 10% e passou ao quarto lugar, atrás da saúde, com 30%, da violência, com 13%, e da infraestrutura, com 11%. A diferença de três pontos na menção à corrupção está no limite da margem de erro; a pesquisa não demonstra que os acreanos tenham deixado de se preocupar com o tema.
Os dados expõem uma questão para a reta final da campanha. Mailza integra o mesmo partido e grupo político de Gladson, mas sua candidatura avançou justamente no intervalo em que novas investigações atingiram o centro da cúpula política da administração estadual e de seu partido.
Gladson, por sua vez, preservou o percentual de agosto apesar da condenação, do indeferimento de seu registro e da nova operação. A Quaest mostra essa simultaneidade; não mostra que as operações favoreceram ou prejudicaram qualquer candidatura.
Resta uma pergunta que os percentuais, sozinhos, não respondem: como os eleitores relacionam as denúncias e decisões judiciais aos candidatos em que pretendem votar?
A corrupção segue entre os principais problemas citados no Acre. Para compreender seu peso nas urnas, será preciso ouvir os eleitores sobre essa relação – e acompanhar o que ainda pode mudar nos dias finais da eleição.
