
dos varadouros de Rio Branco
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) iniciou na tarde de segunda-feira, 26, uma ação de fiscalização contra o desmatamento na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre. A atividade começou um dia após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas, segundo o órgão, já integrava o calendário anual de gestão da unidade de conservação.
A ação ocorre em meio a um ambiente político ainda tensionado pela disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). No Acre, o candidato derrotado nacionalmente recebeu quase o dobro dos votos do presidente reeleito: foram 66,57% dos votos válidos para Flávio e 33,43% para Lula.
A força eleitoral do bolsonarismo também aparece em municípios do Alto Acre ligados à Resex Chico Mendes. Em Brasiléia, Flávio obteve 70,71% dos votos válidos, contra 29,29% de Lula. Em Epitaciolândia, o candidato do PL ficou com 72,97%, ante 27,03% do petista. Em Xapuri, município ligado à trajetória de Chico Mendes, Flávio recebeu 62,50%, e Lula, 37,50%.
A operação prevê visitas ou checagens em cerca de 21 pontos da reserva. De acordo com o ICMBio, os agentes devem entregar ofícios relacionados a fiscalizações anteriores, atender alertas de desmatamento e cumprir exigências judiciais de vistoria. O instituto informou que se trata de uma atividade de rotina e que os comunitários que atuam de acordo com o plano de manejo da unidade não precisam se preocupar.
A equipe utiliza um helicóptero para alcançar áreas remotas no interior da Resex, onde o deslocamento por terra é difícil ou não oferece acesso aos pontos que precisam ser vistoriados. A nota divulgada pelo instituto apresenta o planejamento da ação, sem informar, até aquele momento, resultados das verificações.
Fiscalização no centro da disputa política
A ação ocorre em uma reserva atravessada por conflitos em torno do desmatamento, da expansão da pecuária e da ocupação de áreas protegidas. Nesse cenário, adversários do governo federal, entre eles o senador Márcio Bittar (PL), associam as operações ambientais a uma suposta perseguição de Lula e da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva aos produtores rurais da região.
O discurso antiambiental propagado pela extrema-direita acreana ganha força entre moradores que contestam multas, embargos e apreensões de gado. Ao mesmo tempo, a Resex Chico Mendes é uma unidade de conservação federal criada para proteger a floresta e assegurar o modo de vida tradicional das populações extrativistas.
A criação de gado é permitida conforme as regras do plano de uso da unidade; as irregularidades ocorrem quando a atividade desrespeita os limites estabelecidos, avança sobre a floresta ou ocupa áreas embargadas.
A coincidência entre o início da fiscalização e o dia seguinte à eleição presidencial deve ser lida à luz do calendário informado pelo próprio ICMBio: a atividade já estava prevista no planejamento anual da reserva. A nota não atribui a operação ao resultado das urnas.
Histórico de desmatamento
Os dados do Prodes/Inpe mostram a pressão sobre a reserva ao longo dos últimos anos. De acordo com o gráfico utilizado pelo Varadouro, baseado em dados do Prodes/Inpe, os quatro maiores valores da série apresentada ocorreram durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022): foram 76 km² em 2019, 59,3 km² em 2020, 88 km² em 2021 e 83,8 km² em 2022.
Somados, os quatro anos registraram 307,1 km² de desmatamento, o equivalente a 30.710 hectares. O maior valor da série exibida foi o de 2021. Os anos do Prodes correspondem a ciclos de monitoramento que não coincidem exatamente com os anos civis.
Nos anos seguintes, o gráfico indica 34,8 km² em 2023, 43,5 km² em 2024 e 18,2 km² em 2025. Para 2026, a imagem consultada apresenta 15,2 km², mas não informa se o dado estava consolidado. O histórico revela tanto a redução em relação aos piores anos da série quanto a persistência da pressão sobre a floresta.
Ameaças a defensores da reserva
A disputa em torno das fiscalizações também expôs moradores e defensores da floresta a ameaças. Como mostrou o Varadouro, o líder seringueiro Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, primo de Chico Mendes, passou a ser responsabilizado por adversários pelas ações do ICMBio na reserva. Segundo sua família, as acusações evoluíram para ameaças de morte.
Raimundão e seu filho Rian recorreram à Justiça após uma publicação de uma advogada nas redes sociais. Eles alegam que o conteúdo estimula a hostilidade contra a família e pedem sua retirada. O episódio reavivou a preocupação com a segurança das lideranças que defendem a floresta em uma região marcada pela memória do assassinato de Chico Mendes, em 1988.
Para além da fiscalização, a proteção da Resex também depende de enfrentar as dificuldades de quem vive do extrativismo. Um acordo firmado entre MPF e ICMBio prevê o mapeamento das colocações da reserva, medida voltada à regularização ambiental e à identificação das áreas ocupadas pelas famílias.
A retomada das ações de campo recoloca, assim, um desafio que seguirá presente no próximo mandato presidencial: combater o desmatamento e as ocupações irregulares, garantir a segurança das comunidades e construir alternativas de renda para que os povos da floresta possam permanecer em seus territórios.