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Acre elege ao Senado dupla ligada a projeto que reduz proteção da Resex Chico Mendes e da Serra do Divisor

Bolsonaristas Márcio Bittar (PL) e Mara Rocha (Republicanos) defendem proposta que retira áreas da reserva extrativista e transforma parque nacional em APA; resultado fortalece agenda do agronegócio na bancada acreana e consolida a guinada à direita na política acreana.





dos varadouros de Rio Branco

O Acre escolheu para suas duas vagas no Senado dois representantes do bolsonarismo com histórico de atuação contra a proteção de áreas florestais. Márcio Bittar (PL), reeleito, e Mara Rocha (Republicanos) estão politicamente associados ao Projeto de Lei 6024/2019, que propõe retirar áreas da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e rebaixar o Parque Nacional (Parna) da Serra do Divisor à categoria de Área de Proteção Ambiental (APA).

Apresentada por Mara em novembro de 2019, quando era deputada federal pelo PSDB, a proposta teve Bittar como padrinho político. A distinção é importante: nos registros da Câmara dos Deputados, a autoria formal é exclusivamente da ex-deputada. O projeto reúne, numa mesma iniciativa, mudanças na proteção de dois territórios fundamentais para a conservação da Amazônia e para a história socioambiental acreana.

A aproximação dos dois com o núcleo político da família Bolsonaro também marcou a disputa deste ano. Em agosto, Flávio Bolsonaro anunciou apoio às candidaturas de Bittar e Mara ao Senado pelo Acre. A escolha fortaleceu uma aliança cuja convergência vai além da identidade partidária e alcança a defesa da flexibilização de regras ambientais.

Na Resex Chico Mendes, o PL prevê a exclusão de porções do território protegido. Ao apresentar a proposta, Mara argumentou que pretendia atender produtores rurais que já mantinham plantações e rebanhos antes da criação da unidade. Já reportagem publicada por Fabio Pontes em ((o))eco, em 2022, mostrou que a redução beneficiaria áreas ocupadas por criadores de gado que respondiam a processos por danos ambientais. O texto também documentou a articulação de Mara e Bittar junto ao então ministro Ricardo Salles contra fiscalizações na reserva.

Na Serra do Divisor, a mudança proposta atinge o regime de conservação de todo o parque. Parques nacionais pertencem ao grupo de proteção integral; APAs integram o grupo de uso sustentável, com regras que permitem conciliar conservação e ocupação econômica. A transformação representaria, portanto, uma redução das restrições de uso do território, embora uma APA continue sendo uma unidade de conservação.

A ligação com a abertura de uma estrada até o Peru foi explicitada pela própria Mara na apresentação do projeto. Segundo a justificativa divulgada pela Câmara, a reclassificação poderia facilitar a construção do trecho da BR-364 destinado a estabelecer uma ligação comercial com o país vizinho. A proposta coloca no centro da disputa dois caminhos para o território: manter a proteção integral ou flexibilizá-la em nome de empreendimentos e da integração econômica.

Esse debate ocorre num ambiente de crescente tensão dentro da Resex Chico Mendes. Em junho de 2025, o Varadouro mostrou a destruição de pontes e ataques à estrutura de apoio da Operação Suçuarana, destinada a combater a criação ilegal de gado. Servidores ouvidos pela reportagem relataram ameaças e uma escalada de violência contra a fiscalização. Os episódios evidenciam a gravidade do conflito pela terra e pelo uso da floresta, sem estabelecer responsabilidade dos parlamentares pelos ataques.

A eleição da dupla amplia o peso político dessa agenda, mas não altera automaticamente os limites da reserva ou a categoria do parque. Na ficha legislativa consultada, o PL 6024/2019 permanece na Câmara, aguardando parecer na Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais. Para a cobertura ambiental, o resultado das urnas torna ainda mais relevante acompanhar as próximas articulações sobre uma proposta que confronta duas das principais conquistas de proteção florestal do Acre.

Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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