DOS ESCOMBROS À URNA

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“Eu só me lembro de ter entrado”, diz juiz que sobreviveu à queda de ponte e disputa vaga na Aleac durante reabilitação

De São Paulo, onde faz tratamento, Edinaldo Muniz pede votos e anuncia visita ao apartamento supostamente comprado por Gladson Cameli por R$ 5 milhões. Ele conversou com Varadouro, onde fala sobre os minutos anteriores ao desabamento, seu processo de recuperação e a campanha eleitoral feita só pelas plataformas digitais.

O juiz Edinaldo Muniz sobreviveu ao desabamento da ponte sobre o rio Iaco, em Sena Madureira. Ainda em tratamento de saúde em São Paulo, ele disputa uma vaga na Assembleia Legislativa do Acre. (Fotos: Secom Acre e Acervo Pessoal)




João Maurício da Rosa
de São Paulo

O juiz aposentado Edinaldo Muniz, 55 anos, tem como última lembrança daquele dia estar dando os primeiros passos sobre a ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira. Estava buscando posição para captar imagens. Depois disso, há um apagão. “Eu lembro de ter entrado. Meu irmão disse, ‘rapaz’. Até o momento que eu entrei, eu lembro. Mas daí pra frente, eu não lembro de mais nada”, conta.

Era um fim de tarde 5 de junho de 2026. A ponte havia sido interditada no dia anterior, depois de apresentar problemas estruturais e sinais associados à erosão das margens do rio Iaco. Mesmo interditada, Edinaldo entrou andando na estrutura para registrar a situação. Pouco depois, a ponte desabou.

O juiz aposentado acredita que é uma pessoa de branco que aparece nas imagens divulgadas minutos após o desastre, colocada na carroceria de um carro por populares e levado para o hospital. O que aconteceu nos segundos seguintes, porém, desapareceu de sua memória.

A queda deixou quatro pessoas feridas. Ele estava acompanhado de seu irmão, o advogado Edinei Muniz, e outros dois moradores de Sena Madureira que estavam como seus guias na “vistoria”.

Edinaldo teve fratura grave na bacia, perfuração da bexiga, traumatismo craniano e lesões nos braços. O punho esquerdo ficou “bem triturado”, segundo seu relato, e os movimentos e a força de um dos braços ainda não foram completamente recuperados. O irmão também sofreu uma fratura no braço.

Mais de três meses depois do acidente, Edinaldo ainda vive parte da rotina marcada pelo desastre. Recebeu alta em três de agosto, mas permaneceu em São Paulo para fazer um programa intensivo de reabilitação, com fisioterapia e terapia ocupacional.

É de lá que conduz sua campanha eleitoral. Candidato a deputado estadual pelo Republicanos, Edinaldo decidiu fazer uma campanha essencialmente digital. Em vez de caminhadas, carreatas e bandeiraços em rotatórias, sua campanha eleitoral acontece principalmente pelo Instagram e pelo WhatsApp.

A opção também tem relação com sua recuperação. Ele ainda não voltou ao Acre desde que recebeu alta, e conta que não está dirigindo. Para se locomover na capital paulista utiliza o transporte público.

A campanha, segundo o candidato, não utiliza recursos do fundo eleitoral ou do fundo partidário. Na página de divulgação de candidaturas da Justiça Eleitoral – o Divulgacand – Ednaldo tem zero real de receitas declaradas, assim como de despesas.

Os próprios vídeos são gravados e editados por ele. A produção é simples, uma fala direta, poucos cortes e, eventualmente, uma fotografia ou imagem inserida na edição. “Eu mesmo faço tudo”, diz. Após se aposentar da magistratura, Ednaldo Muniz passou a fazer militância política por meio das redes sociais.

Inaugurada no fim de 2023 e ao custo de R$ 36 milhões, a ponte Frei Paolino Baldassaria desabou no início da noite do última 5 de junho; quase 4 meses após tragédia, o Acre continua sem respostas ofciais sobre a causa (Foto: Pedro Devani/Secom/AC)



O Instagram é a sua principal vitrine de exposição. Lá, possui mais de 20 mil seguidores. Momentos antes da ponte Frei Paolino Baldassari desabar sobre as águas do Iaco, Edinaldo tinha postado um vídeo bem perto das pilastras de sustentação. Ali nos barrancos do rio, ele mostrava as rachaduras da estrutura.

A proposta era denunciar a construção de uma obra de péssima qualidade, interditada com menos de três anos de inauguração, ao custo de R$ 36 milhões. Aquela era a última imagem e postagem de Edinaldo antes da ponte desabar com ele e outras três pessoas.

Na última quinta-feira, 24, Edinaldo publicou vídeo muito bem humorado revelando que cortou os cabelos e pedindo aos seguidores para comentar o efeito, lembrando que sua cabeça agora tem um buraco deixado pela cirurgia – a marca de quem sobreviveu a uma tragédia. Ver hoje Edinaldo em pleno vigor físico e intelectual é quase como um milagre.

Ao mesmo tempo, pede votos para seguir denunciando o que considera desmandos do governo do Acre. E anuncia que, em breve, vai publicar imagens do prédio onde o ex-governador Gladson Cameli (PP) teria comprado um apartamento no bairro do Jardim Paulista, pela bagatela de R$ 5 milhões.

A compra foi investigada pela Polícia Federal durante o inquérito da operação Ptolomeu, e que levou o agora candidato impugnado ao Senado a uma condenação de quase 26 anos de cadeia pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, fraude em licitação e froamação de organização criminosa.


Da magistratura à política


A candidatura é resultado de uma mudança que começou quando Edinaldo deixou a magistratura. Nascido em 1971 e criado em Xapuri até os 12 anos, ele estudou História e Direito na Universidade Federal do Acre (Ufac). Conta que foi o primeiro colocado no vestibular de História (o segundo foi o cientista social Ermício Sena) e que, depois, ingressou no Direito.

Em novembro de 2001, passou no concurso para a magistratura no Tribunal de Justiça do Acre. Ao longo da carreira, atuou em diversas comarcas do estado, inclusive Sena Madureira, onde chegou a acumular a jurisdição eleitoral de Santa Rosa do Purus.

Aposentou-se em 2023. A partir daí, decidiu entrar na política, uma área que, segundo ele, sempre despertou seu interesse. Na eleição municipal de 2024, concorreu a vereador de Rio Branco pelo PSB, obtendo 465 votos. Agora, disputa uma vaga na Assembleia Legislativa pelo Republicanos.

A cidade de Sena Madureira, no Vale do Purus, local da tragédia do desabamento da ponte, e onde Edinaldo Muniz já atuopu como magistrado no passado (Foto Gleilson Miranda)/





Foi também depois da aposentadoria que começou a produzir vídeos denunciando problemas que identificava em obras e na administração pública. Ele revela ter assumido uma posição de oposição aos governos de Tião Bocalom e Gladson Cameli.

O candidato faz críticas contundentes às duas administrações, atribuindo à primeira falta de planejamento e, à segunda, os conhecidos escândalos de corrupção que levaram Gladson à condenação unânime pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça – julgamento este que ele acompanhou de perto em Brasília.

Da magistratura à reportagem


O desabamento da ponte era uma tragédia anunciada. Segundo ele, já havia comentários e denúncias sobre problemas na estrutura. Quando soube que a ponte havia sido interditada, decidiu ir até o local. Como um repórter, investigava a razão de sua interdição quando ela veio abaixo. “Fui no dia seguinte à interdição para dar uma olhada, quem sabe gravar um filme e tal.”

O acidente passou a ser objeto de investigações. A Justiça determinou medidas cautelares para preservar provas e apurar responsabilidades, incluindo o arresto de bens da Construtora Cidade até o limite de R$ 36 milhões. O processo ainda busca esclarecer as causas do colapso.

Em julho, a Assembleia Legislativa do Acre também instalou uma comissão para acompanhar as investigações e apurar se o desabamento esteve relacionado a falhas de projeto, execução ou a fatores naturais.

Neste quase fim de setembro, mais de três meses após o acidente, a perícia especializada ainda aguarda a contratação de uma empresa de fora do estado para analisar materiais recolhidos na ponte, segundo informações divulgadas pela imprensa acreana.

A reportagem do Varadouro procurou, por duas vezes, a assessoria de comunicação da Polícia Civil, mas não obtivemos retornos de nossas indagações.

Procurado, o Ministério Público do Acre também não atendeu às nossas solicitações. Já o Tribunal de Contas se resumiu a dizer que “está aguardando as análises e estudos técnicos”.


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“Eu me considero uma pessoa de centro”


A escolha do Republicanos, segundo Edinaldo, ocorreu depois de seu afastamento do PSB, partido pelo qual concorreu em 2024 a uma vaga de vereador na capital acreana.

Ele diz que passou a considerar o Republicanos uma alternativa por causa da atuação política do senador Alan Rick, candidato ao governo do Acre pelo partido. “Eu percebi que Alan era a mudança”, afirma.

Questionado sobre como pretende se posicionar em temas tradicionalmente associados à esquerda, como meio ambiente, desigualdade social e proteção das comunidades indígenas, ele afirma que ninguém pode ser indiferente a estas causas, consideradas irrelevantes pelos partidos de direita.

Para ele, posições políticas diferentes precisam encontrar consensos mínimos que permitam a convivência. Enquanto isso, a campanha segue pelo celular. A mesma ferramenta que Edinaldo usava para registrar problemas em obras públicas passou a ser o principal instrumento para tentar conquistar uma cadeira na Aleac.

De São Paulo, entre sessões de fisioterapia e terapia ocupacional, o juiz aposentado tenta transformar a experiência de ter sobrevivido à queda da ponte no primeiro capítulo de sua trajetória política.





Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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