
Operação Atalaia do Juruá realizou mais de 400 abordagens, fiscalizou aldeias e comunidades e apreendeu uma arma de fogo; ação ocorreu semanas depois de homens armados invadirem território Ashaninka à procura de lideranças indígenas.
dos varadouros de Rio Branco
Semanas depois de homens armados invadirem a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, e ameaçarem lideranças do povo Ashaninka, uma operação coordenada pela Polícia Federal prendeu cinco pessoas e apreendeu uma arma de fogo na faixa de fronteira do Acre com o Peru. Realizada entre os dias 19 e 25 de julho, a Operação Atalaia do Juruá mobilizou forças federais e estaduais para combater o tráfico de drogas e os crimes ambientais em uma das regiões mais pressionadas pelo avanço das facções criminosas na Amazônia.
De acordo com a Polícia Federal, foram realizadas 445 abordagens terrestres e fluviais, 241 fiscalizações, seis patrulhamentos aéreos, 15 visitas a aldeias e comunidades ribeirinhas e 21 ações de fiscalização ambiental.
A operação também resultou em 50 autos de infração, 34 apreensões e cinco prisões. A PF, contudo, não informou os nomes dos presos, os crimes atribuídos a cada um deles nem os locais exatos onde ocorreram as prisões e apreensões. Também não estabeleceu relação direta entre os resultados da operação e as ameaças sofridas pelos Ashaninka do Rio Amônia.
A Atalaia do Juruá foi coordenada pela Polícia Federal, por meio do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em conjunto com a Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Acre. Participaram ainda a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional, o Corpo de Bombeiros, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
SAIBA MAIS
Facções avançam sobre a fronteira e ameaçam lideranças Ashaninka no Alto Juruá
Além do enfrentamento ao tráfico de entorpecentes, as equipes realizaram fiscalizações georreferenciadas em áreas atingidas pelo desmatamento e pelas queimadas. A presença simultânea de crimes ambientais e do narcotráfico revela como as rotas criminosas avançam sobre rios, florestas, unidades de conservação e terras indígenas situadas na fronteira acreana.

Homens armados procuraram lideranças
A operação da Polícia Federal no Vale do Juruá ocorreu poucas semanas depois de lideranças Ashaninka denunciarem a entrada de homens armados na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, localizada no Alto Juruá. Segundo Francisco Piyãko, liderança Ashaninka e coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), o grupo entrou no território nos dias 5 e 6 de julho, percorreu a aldeia Apiwtxa à procura de lideranças e intimidou moradores.
As ameaças teriam ocorrido depois de os indígenas impedirem a passagem de embarcações suspeitas, vindas do Peru, pelo Rio Amônia. A região é utilizada como rota para a entrada de drogas produzidas em território peruano e destinadas ao mercado brasileiro.
“Não é a primeira vez que eles entram aqui nos territórios, na região de fronteira, nesse mesmo formato: ameaçando lideranças, caçando lideranças. Mas eles nunca tinham entrado no nosso território. A gente acha isso muita audácia”, afirmou Piyãko ao Varadouro.
Após a denúncia, o governo do Acre enviou equipes do Grupo Especial de Operações em Fronteira (Gefron), com apoio do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer), para garantir a segurança da comunidade e procurar os responsáveis pelas ameaças.
A mobilização da Polícia Federal e de outras instituições, agora realizada em uma área mais ampla do Vale do Juruá, reforça a dimensão federal e transnacional da crise. Os rios que atravessam a floresta e conectam Brasil e Peru tornaram-se corredores cobiçados pelo narcotráfico e por grupos que atuam em crimes ambientais.
Territórios na rota das facções
Ao menos desde 2016, a fronteira do Acre com o Peru e a Bolívia é disputada por organizações criminosas interessadas no controle das rotas de entrada da cocaína no Brasil. Uma guerra que começou a deixar um rastro de mortes nas cidades acreanas e avançou sobre estradas, ramais, rios e igarapés das áreas rurais.
Nesse cenário, terras indígenas e unidades de conservação passaram a ser pressionadas não apenas por madeireiros, caçadores, e invasores de terra, mas também por organizações criminosas armadas e com atuação transnacional.
Os povos indígenas encontram-se na linha de frente dessa disputa. Ao fiscalizar seus territórios, restringir a circulação de embarcações suspeitas e comunicar atividades ilegais às autoridades, suas lideranças transformam-se em obstáculos para as rotas criminosas – e, por isso, tornam-se alvos de ameaças e intimidações.
Reconhecida internacionalmente pela recuperação ambiental do Rio Amônia e por seu modelo de gestão territorial, a comunidade Apiwtxa mantém ações permanentes de vigilância da floresta e cooperação com povos indígenas do lado peruano da fronteira.
“Nós estamos protegendo os nossos direitos de acordo com as leis. Para o crime, nós somos os errados. Além de proteger o nosso território e o nosso povo, estamos protegendo a Amazônia e a fronteira onde o Estado às vezes não consegue chegar”, disse Francisco Piyãko.
Presença precisa ser permanente
Embora considere positiva a reação das forças de segurança, Piyãko defende que operações temporárias não são suficientes para conter a expansão das organizações criminosas. Para ele, Brasil e Peru precisam construir uma estratégia conjunta, permanente e baseada em inteligência.
“O Estado tem que ter uma ação estrutural, com planejamento e inteligência. Tem que marcar presença na região de fronteira. A fronteira está muito desprotegida para esse tipo de situação”, alertou.
A Operação Atalaia do Juruá demonstra a capacidade de mobilização do Estado quando diferentes instituições trabalham de maneira integrada. O desafio, porém, é transformar ações pontuais em presença contínua nos territórios – antes que o combate às organizações criminosas fique, mais uma vez, sob a responsabilidade das próprias comunidades impactadas.



