
Escrevo isto aqui em setembro de 2026. Quando o mundo se encontra literalmente pegando fogo com as labaredas do fascismo. Isso com que na política se consegue – mais que o bastante – piorar o que nunca foi bom, especialmente para alguns muitos, estes de que falo que importam, os condenados de toda a terra.
As eleições no Brasil estão na esquina. A razão fascista ocupando cada vez mais a cabeça das pessoas que decidem com ou sem voto. A guerra é diária na pauta desse tipo de política macro/micro que a tudo tem dominado.
Eis o momento em que estamos prestes (três necessárias batidas na madeira) a retornar a sofrer ainda mais com a volta – ao comando do estado federal e seus tentáculos estaduais e municipais – dessa peste institucionalizada – versão brasileira – com seus colonizadores deuses e templos “bíblicos” do absurdo, do horror, do ódio e do dinheiro.
Menos! Menos, por um triz, menos por um simples mas. O mas de: Mas aqui eu vou falar de poesia. Só uma conjunção coordenativa adversativa do tipo, um mas para nos salvar. Um dos antídotos possíveis – mesmo que sustentado pelo fio tênue da linguagem – para toda a gente digna não cair, mas re-existir.
É precisamente neste instante histórico do presente que vou falar da forma que me apraz – esta é a minha pauta – do livro Lutas e Luas, da poeta acreana Eliana Ferreira de Castela, a ser lançado no próximo dia 18, em Rio Branco, na Usina de Artes, a partir da 18:30 horas.
Existe pauta mais inoportuna para os algoritmos do que falar de livro e de poesia? Da existência de uma poesia/poeta invisibilizada pela quase intransponível barreira da colonialidade estética da literatura dita nacional? Pauta esta tão imprestável para os comandos virtuais e seus usuários cooptados nas e pelas redes sociais colonizadoras? Pois, então, vamos a ela!
Já sem abri-la, o título da obra me orienta a ir pelo caminho através do qual vou procurar lê-la no intuito de dizer, segundo entendo, presumindo profundidade. Não só segundo entendo. Também por quem primeiro diz, a própria autora, cuja escolha do tema – expresso no título da obra – nunca se dá em vão.
As palavras lutas e luas para o dicionário é cada uma uma coisa determinada. Para um livro de poemas não necessariamente essas mesmas coisas. Para a poeta, lutas e luas serão genuinamente próprias, lado a lado ou separadas pela conjunção aditiva.
De modo que algo de outras acepções surgem por aí, por aqui – muitas vezes à primeira vista impensáveis para o senso comum que coloniza a interpretação da vida.
Então, para tanto, talvez seja possível tentar esquadrinhar não a obra em sua inteireza, mas seu título condutor com outros elementos de sentidos a ele relacionados que a pessoal lírica nos aponta. Eis o desafio que me imponho daqui para frente. Entremos comigo nessa densa floresta de significados para a vida, isso que é o pluriverso da literatura!
O que me vem da palavra luta é sua vinculação de sentido sociológico com o agir humano – individual e coletivo – na relação com o meio social, essa arena prenhe de conflitos na qual impera regimes estruturantes de poder baseados na exploração, dominação e racialização.
A luta nesse contexto é um imperativo para a manutenção de qualquer existência. Falo da vontade/ação autônoma de gente de percorrer – junta ou só – os seus caminhos conforme seus juízos críticos de defesa, de ataques e de nenhuma coisa nem outra com vistas a um fim que lhe faça bem.
Estou tratando de cultura – movimento/saber concreto e simbólico – quando falo de luta, lutas. Mas estou tratando também de natureza, quando vejo a cultura como resultado/processo produto constitutivo da expressão também natural constante da humanidade.
Afinal, lutar não seria um dos traços ontológicos do humano, isto é, da natureza do ser, sobretudo daquele constituído na sobrevivência do ambiente histórico de poder no qual não tem outra saída senão desejar pela liberdade ante os condicionamentos da estrutura de poder de longa duração histórica baseada na exploração, dominação e racialização?

Lua, por sua vez, como natureza distinta, esse corpo celeste que nos arrodeia, tem a ver, por um lado, com aquilo que não seja humano, o externo dele, ainda fora do seu alcance e mistério. Como se – como é comum se polarizar – o ser humano – em sua condição cultural – fosse essa coisa alcançável e não tivesse mistérios. E, por outro, com a ideia de beleza, de imaginário, de simbolismos, do campo das literalidades em que se encontra a poética. Justamente essas coisas de gente e do que se diz da natureza também.
Uma ação e um ser. Luta, enquanto expressão da cultura, e lua, enquanto ser da natureza mesmo que não terrestre, não são outra coisa que não uma só a dissipar – aqui neste contexto da vida e da literatura do qual estou a tratar – a dicotomia cega do senso comum dominante.
A poeta – com tal título – tende a aliar relação cultura x natureza perfazendo afinal uma espécie de síntese, isto é, o sentido de processo em interação e não de mera separação, o que suponho realiza com o poema que abre o livro (página 17):
“Luinha, es mirrada ainda menina de pouca luz/da minha janela observo o teu crescer/certa de que em breve estarás plena, a devolver o brilho dos meus olhos que em ti depositei.”
De onde vem o brilho depositado na lua senão dos olhos da poeta? O que se vê é a prática de diálogo/troca consigo e também com o outro. Diálogo/troca cujo objetivo é senão tornar os dois polos – cultura/natureza – plenos e indistintos, nesse processo de espelhamento e construção mútua com o fito de produzir brilho, como transformação de si e do outro, com vistas à construção conjunta do brilho essencial, o da relação em estado de luta.
A propósito, talvez seria o caso de chamar para a roda o que afirmou há muito tempo um velho filósofo alemão barbudo: a natureza produz o ser humano que, por sua vez, transforma a natureza.
Na dicção da poeta, a ideia do velho filósofo alemão barbudo poderia ficar assim: a natureza produz o brilho e o brilho transforma a natureza.
E será justamente nessa relação, de que estou tentando supor, que surge a ideia de luta – como uma busca da natureza da cultura e da cultura da natureza – pela transformação plena do status quo em que se encontra – ante os/pelos brilhos dos olhos da poeta e da lua – aquele/a que luta.
Por isso, se for para interpretar o livro Lutas e Luas – não só pelo o que anuncia em seu título, mas também pelo o que contém no miolo de sua substância poética – diria que o mesmo pode ser, e aqui é, um manifesto político-literário com vistas à transformação e resistência – portanto à luta – frente ao estado de condições político-sociais em que estamos vivendo agora no mundo/Brasil, o que pode definir a razão de resistir vivo no contexto histórico-colonial. É o que pode um livro, o que pode a poesia!
Pelo pensado até aqui é que defendo valer a pena conferir as 91 teses, digo, os 91 poemas da obra de Eliana Ferreira de Castela, constituída de quão profundo, complexo, esperançoso, afetivo e belo, comparando com o que acontece agora – e desde sempre na nossa triste história colonial – com as práticas e os discursos da política fascista que avança algoritmicamente sem freios, crente de que pode apagar o brilho como aquilo que transforma/liberta porque luta/lua pela vida.
João Veras é poeta, músico e escritor acreano. Publicou, entre outras obras, Seringalidade, o estado da colonialidade na Amazônia e os Condenados da Floresta, pela editora Valer, 2017.