Com rio Acre abaixo da cota de estiagem, Rio Branco entra em estado de alerta

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Rio Acre está 83cm abaixo da cota de alerta para estiagem, estabelecida em 3m. Nível mais crítico já registrado foi de 1,23m, em 21 de setembro de 2024. Falta de chuvas e influência do El Niño ligam o sinal de alerta máximo (Foto: Acervo Varadouro)





Prefeitura reconhece redução dos mananciais e falta de água em comunidades rurais; previsão aponta pouca chuva nos próximos dias, temperaturas acima da média e possibilidade de agravamento da seca sob influência do El Niño. Diante de cenário de agravamento da seca, Ministério Público emite nota técnica para orientar suas ações internas para cobrar respostas dos governos.


dos varadouros de Rio Branco

O rio Acre amanheceu nesta quarta-feira, 29, com apenas 2,17 metros em Rio Branco. Apesar de uma pequena elevação de cinco centímetros nas últimas 24 horas, o principal e único manancial responsável por assegurar o abastecimento de água potável da capital permanece 83 centímetros abaixo da cota de alerta para estiagem, estabelecida em três metros.

Sem chuva suficiente para alimentar suas cabeceiras e afluentes, o rio encolhe em meio a um verão amazônico que deverá ser mais quente que o normal. Diante da evolução da seca, a Prefeitura de Rio Branco decretou estado de alerta para o enfrentamento da estiagem em todo o território do município.

O Decreto nº 1.541, assinado pelo prefeito Alysson Bestene (PP), no dia 24 de julho e publicado no Diário Oficial desta terça-feira, 28, reconhece que os níveis do rio Acre, de seus afluentes e dos demais mananciais utilizados para abastecimento humano, criação de animais e atividades produtivas estão diminuindo gradualmente.

O documento também admite que comunidades rurais já enfrentam redução da disponibilidade de água, com riscos para o abastecimento das famílias, a produção agrícola e a pecuária.

A medida possui caráter preventivo e prepara a estrutura municipal para um possível agravamento da seca. O decreto não representa, por enquanto, o reconhecimento de desastre nem a declaração de situação de emergência ambiental.

Ainda assim, a prefeitura autoriza a mobilização de equipamentos e insumos, a preparação de operações emergenciais de distribuição de água potável e a execução de ações de prevenção e combate às queimadas.

A Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil deverá intensificar o acompanhamento dos rios, das chuvas e das condições ambientais, produzir boletins periódicos, atualizar o cadastro das comunidades vulneráveis e preparar medidas de resposta para o caso de a estiagem se tornar ainda mais severa.

Rio sobe cinco centímetros, mas bacia continua secando


A pequena elevação registrada na capital observada nos últimos dias não significa, infelizmente, uma recuperação do rio Acre. O Relatório Hidrometeorológico desta terça, elaborado pelo divulgado nesta quarta-feira, 29, pelo Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma) mostra que praticamente todas as estações de monitoramento da bacia registraram redução de nível.

Nas últimas 24 horas, não houve precipitação significativa nas localidades monitoradas pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Em Assis Brasil, nas cabeceiras, o rio Acre baixou para 2,35 metros. O nível está 1,65 metro abaixo da cota de alerta para estiagem, estabelecida em quatro metros. Em Brasileia, o rio perdeu três centímetros e chegou a 1,24 metro, ficando 2,76 metros abaixo da cota de alerta. Xapuri registrou redução de sete centímetros, com o nível chegando a 2,11 metros – nove centímetros abaixo do patamar de alerta.

Um dos dados mais preocupantes vem do Riozinho do Rola, importante afluente do rio Acre e estratégico para a segurança hídrica da capital. O manancial baixou cinco centímetros e marcava apenas 1,27 metro na manhã desta quarta-feira. Sua cota de alerta para estiagem é de 3,50 metros.

A redução dos rios acima de Rio Branco indica que a elevação de cinco centímetros observada na capital pode ser apenas uma oscilação temporária. Sem chuva volumosa nas cabeceiras e nos afluentes, não há sinais de recuperação sustentada da bacia.

Durante todo o mês de julho, a estação de Rio Branco acumulou somente 8,2 milímetros de chuva.

Calor deverá permanecer acima da média

A previsão meteorológica também não indica alívio significativo no curto prazo. Entre esta quarta-feira e o dia 4 de agosto, são esperados volumes de chuva entre um e 20 milímetros no Acre. Há previsão de precipitações abaixo da média na porção oeste (vale do Juruá) e em parte da região central do estado (Vale do Envira/Tarauacá).

Mesmo que ocorram pancadas isoladas, os volumes previstos são reduzidos e dificilmente serão suficientes para recuperar os rios, repor a umidade do solo ou compensar a perda de água provocada pelas altas temperaturas.

Para o trimestre formado por julho, agosto e setembro, a previsão climática aponta temperaturas acima da média histórica no Acre. As chuvas podem permanecer dentro da normalidade climatológica em parte da Amazônia Legal.

Isso, no entanto, não significa abundância de água. Julho, agosto e setembro já correspondem ao período mais seco do calendário amazônico. Com o calor acima do normal, a água evapora mais rapidamente, a vegetação perde umidade e aumentam as condições favoráveis à propagação do fogo.


MP cobra prevenção antes da emergência


O alerta decretado em Rio Branco ocorre uma semana depois de o Ministério Público do Acre (MPAC) divulgar uma nota técnica sobre os riscos associados ao El Niño de 2026 e 2027. O documento orienta promotores de Justiça a acompanhar preventivamente as medidas adotadas pelos governos estadual e municipais, independentemente da existência de decretos de emergência.

Segundo o MP, um El Niño de grande intensidade pode reduzir significativamente as chuvas na região Norte entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. No Acre, os efeitos podem atingir o abastecimento de água, a navegação, a produção agroextrativista, a segurança alimentar e a saúde da população.

Povos indígenas, ribeirinhos e outras comunidades em situação de vulnerabilidade estão entre os grupos mais expostos.

O Ministério Público recomenda que sejam acompanhadas a elaboração e a execução dos planos de contingência, a efetividade dos sistemas de alerta, a proteção das populações vulneráveis e as medidas de segurança alimentar.

O decreto assinado pelo prefeito Alysson Bestene prevê justamente a atualização do cadastro das comunidades vulneráveis, o abastecimento de água, a assistência às famílias afetadas, o apoio às comunidades rurais e a manutenção dos serviços essenciais.

A declaração de alerta, porém, é apenas o primeiro passo. Sua efetividade dependerá de orçamento, planejamento, equipes, equipamentos e ações que cheguem aos territórios antes que a água desapareça dos poços, igarapés e pequenos mananciais.

A experiência recente mostra que esperar o desastre se instalar para começar a agir custa mais caro e deixa as populações que vivem distantes dos centros urbanos ainda mais vulneráveis. No Acre, o aviso já está diante dos olhos. Ele pode ser visto no rio que baixa, no solo que perde umidade, no calor extremo que causa desconforto, nas comunidades que começam a enfrentar falta de água e na floresta que, a cada dia sem chuva, torna-se mais vulnerável ao fogo.



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