UM OLHO NA COP, OUTRO NO STJ

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Às vésperas de ser julgado por corrupção, Gladson apresenta sua nova versão na COP30

O governador acreano Gladson Cameli (PP) durante discurso na COP30 (Foto: Diego Gurgel/Secom)




Enquanto vende em Belém a imagem de um governo comprometido com as questões socioambientais, governador do Acre está de olho mesmo é em Brasília. No dia 19, começa o seu julgamento pela Corte Especial do STJ. Ele ainda levou na bagagem o calote do subsídio da borracha dos seringueiros, além de um controverso projeto de REDD+ Jurisdicional – além de um expressivo passivo ambiental.



Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco

Depois de conduzir o Acre por uma desastrosa política ambiental entre 2019 e 2022, que levou o estado a níveis recordes de desmatamento da Amazônia, o governador Gladson Cameli (PP) tenta consolidar, na COP30, a sua nova roupagem do ecologicamente correto. Essa nova roupa, contudo, vem manchada com a fuligem das florestas derrubadas e incendiadas nos últimos seis anos, além das denúncias de corrupção pelas quais foi denunciado em maio passado pela Procuradoria Geral da República (PGR).

Enquanto vende em Belém a imagem de um governo comprometido com as questões socioambientais acreanas, Gladson Cameli está de olho mesmo é na capital da República. No próximo dia 19, começa o seu julgamento pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Será um momento decisivo para a política do Acre, diante do maior escândalo de corrupção da história do estado, revelado pela Polícia Federal em dezembro de 2021.

Já são quase quatro anos à espera de um julgamento, entre as muitas ações penais nas quais foi desmembrado o inquérito da Operação Ptolomeu. O julgamento pode apontar a inocência ou a culpa do governador acreano, denunciado pela PGR como o chefe de organização criminosa suspeita de desviar mais de R$ 800 milhões dos cofres públicos.

Mas, enquanto definitivamente não senta no banco dos réus, Gladson Cameli busca esquecer todos os seus problemas com a Justiça, perambulando pelos varadouros da COP30 na capital paraense. Usa da agenda ambiental – tão demonizada por ele enquanto o bolsonarismo estava no poder no país – para ofuscar o “julgamento do século”.


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O governador participou na segunda, 10, na Blue Zone da COP30, da abertura do Hub Amazônia e da apresentação das entregas coletivas dos estados da Amazônia Legal. Em seu discurso, falou da valorização da floresta em pé, mas omitiu o seu grande passivo ambiental de taxas elevadas de desmatamento durante o primeiro mandato.

Governador comemorou redução de quase 80% nos focos de queimadas no Acre em 2025; só faltou parabenizar as chuvas (Foto:: Gleilson Miranda/Varadouro)

Gladson também saiu de Rio Branco até Belém levando na bagagem o calote dado nos seringueiros acreanos, com o não pagamento do subsídio da borracha. Ainda há um controverso projeto de REDD+ Jurisdicional, cujas negociações para a venda de crédito de carbono entre governo e um banco britânico ocorreram sem a devida transparência, como denunciaram lideranças.

“Estamos aqui para reafirmar o compromisso de combater a crise climática por meio de ações concretas, que promovam soluções verdadeiramente sustentáveis para a biodiversidade do planeta. É um momento sublime para o mundo, para o Brasil e, especialmente, para a Amazônia, que hoje é dignamente representada pelo estado do Pará”, afirmou o governador.

Gladson Cameli apresentou números do que seriam os bons resultados obtidos pelo Acre desde que ele abandonou a “política da boiada” articulada com Jair Bolsonaro (PL) entre 2019 e 2022. A volta de Lula ao Planalto levou o gestor a ter que adotar uma nova agenda ambiental.

O principal indicador desta mudança estaria nos dados divulgados pelo Prodes/Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que apontam redução na área de floresta devastada no Acre. A queda na taxa estimada de desmatamento foi de 28%, no ano florestal 2024/2025. Outro saldo positivo está na expressiva diminuição dos focos de queimadas em 2025, na comparação com 2024: -75%.

Todavia, essa expressiva redução é muito mais fruto da ação da natureza do que humana. Ao contrário do ano passado, o verão de 2025 foi marcado por intensas chuvas nos meses de agosto, setembro e outubro – o que contribuiu significativamente para não vivermos a tragédia ambiental dos anos anteriores.

Além disso, análises de alerta de desmatamento realizadas por instituições como o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Mapbiomas apontam que, sim, o Acre ainda está em alta nas áreas de floresta levada ao chão nos últimos anos – incluindo o calendário 2024/2025.

E, assim, o pequeno e invisível estado do Acre – localizado ao Sul da Amazônia Ocidental – e onde o vento faz a curva, chega à Conferência do Clima da ONU em solo brasileiro. Com o seu líder maior fingindo que nada fez no passado para agravar a crise climática, e bastante apreensivo com o seu futuro político a partir do dia 19 de novembro.

Já nós, a população, continuamos sem saber se teremos futuro.



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