
Steffanie Schmidt*
Dos Varadouros de Manaus (AM)
A disputa pelo Governo do Estado do Amazonas em 2026 ocorre sob a sombra de um ciclo hidrológico profundamente alterado. Estudos científicos revelam que, desde 2005, o Estado vive uma aceleração sem precedentes nos extremos de cheias e estiagens, com um aumento de 18% na variação entre os níveis mínimos e máximos dos rios na estação do Porto de Manaus em relação ao século passado. Em episódios de seca extrema, a temperatura da água no Lago Tefé chegou a atingir 41°C, provocando a morte de mais de 200 botos e a redução de até 8% na superfície coberta por água na Amazônia Central.
Na capital e no interior, os efeitos dessa transformação já são cotidianos. Manaus e diversos municípios têm enfrentado episódios recorrentes de estado de emergência climática, nos quais a poluição atmosférica causada pelas queimadas coloca a qualidade do ar em níveis insalubres. Somente no mês de setembro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) registrou milhares de focos de calor no território amazonense, enquanto projeções estaduais estimam que até 648 mil pessoas sejam impactadas diretamente pelos desdobramentos da estiagem e pelo isolamento logístico das comunidades.
Diante da urgência – e do esvaziamento do debate em meio a gabinetes da estratégia de ataques – é que o Varadouro orienta esta análise sob a seguinte questão: Que agenda e como o Amazonas pode liderar em um futuro de emergência climática?
É nesse cenário que o Varadouro propôs, por meio da Inteligência Artificial, a filtragem das propostas para temas relevantes e urgentes para a agenda socioambiental do Estado a partir dos sete planos de governo dos candidatos ao Governo do Estado: Cabo Daciolo (Mobiliza), Roberto Cidade (União), Gilberto Vasconcelos (PSTU), Isael Munduruku (Rede), David Almeida (Avante), Maria do Carmo Seffair (PL) e Omar Aziz (PSD).
A leitura transversal dos documentos identifica dois grandes campos de orientação. De um lado, estão propostas centradas na modernização tecnológica, atração de investimentos privados, mercado de carbono, bioeconomia e expansão da infraestrutura. De outro, aparecem planos que colocam no centro a governança territorial, os direitos coletivos, a participação comunitária e mecanismos mais rígidos de controle sobre grandes empreendimentos.
O sociólogo e cientista político Marcelo Seráfico qualifica esse contraste em duas abordagens transversais. “A temática se impôs a todos e, cada um à sua maneira, busca lidar com ela a partir de duas abordagens mais gerais que eu qualificaria como ‘modernização de mercado’ (Omar, Cidade e Maria do Carmo) e ‘protecionismo socialmente orientado’ (Isael, Gilberto e Daciolo). Se os critérios da ‘modernização de mercado’ estão voltados para os objetivos da economia capitalista e apenas como desdobramento eventual para a questão social, o ‘protecionismo socialmente orientado’ parece inverter essa lógica, privilegiando aspectos relativos aos direitos universais das pessoas e das camadas sociais mais exploradas”.
Por sua vez, o cientista político Elson Ribeiro observa que, embora haja consenso sobre a necessidade de alavancar o interior, a divergência reside no papel atribuído ao capital privado. “Todos os candidatos levam em consideração o desenvolvimento da região. Vejo alguns que defendem uma parceria maior com a iniciativa privada, principalmente os candidatos de um viés mais liberal. Outros defendem esse desenvolvimento social mais concentrado nas mãos do Estado. O que se observa é que as benesses que o Amazonas pode oferecer, todos se dispõem a desenvolvê-las, uns com o Estado segurando esses recursos e outros voltados à iniciativa privada”.
Já o cientista político Ademir Ramos chama a atenção para o risco de distanciamento entre as propostas escritas e a real prática política nos debates eleitorais. “Na verdade, às vezes os projetos registrados no TRE são produtos adquiridos no mercado político porque segundo a lógica dos candidatos o mais importante é ganhar as eleições”. E acrescenta um alerta sobre a omissão da pauta ambiental nos debates de campanha: “Falam de tudo menos da proteção e salvaguarda do meio ambiente e de seus ecossistemas no bioma Amazônico, pois pela força do capital interessa unicamente a produção e controle de sua economia”.
Veja o comparativo por temas:
Desmatamento
O Amazonas possui mais de 90% da sua cobertura florestal preservada, segundo dados do MapBiomas. E também enfrenta a quarta maior taxa de desmatamento – cerca de 7,39% do total histórico, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE). Para esta realidade, em geral, os planos trazem soluções que combinam tecnologias de monitoramento, fiscalização e regularização ambiental para o combate ao desmatamento. O ponto onde diferem: as concepções sobre o uso econômico da floresta.
O candidato do partido Mobiliza, Cabo Daciolo, propõe um Centro de Inteligência Ambiental e Territorial funcionando a partir de inteligência artificial, com monitoramento por meio de drones e imagens de satélite, além do fortalecimento do Batalhão de Policiamento Ambiental. Já o candidato do União Brasil e atual governador em exercício, Roberto Cidade, não detalha metas numéricas de redução do desmatamento ou operações policiais ostensivas de fiscalização e baseia-se na premissa de “gerar riqueza sem destruir o meio ambiente”, dentro do conceito de “desenvolvimento sustentável”.
Gilberto Vasconcelos, do PSTU, propõe bloquear o avanço do agronegócio e do garimpo ilegal no sul do Amazonas, além de defender maior controle social sobre o órgão responsável pelo licenciamento de obras de exploração vegetal e mineral no Estado, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), além de medidas contra a contaminação por mercúrio. Isael Munduruku (Rede), por sua vez, coloca a autonomia técnica dos órgãos ambientais e a participação comunitária no centro da gestão territorial, incluindo a responsabilização das cadeias econômicas que lucram com o desmatamento.
David Almeida (Avante), que deixou o cargo de prefeito de Manaus para ser candidato ao Governo, propõe uma política estadual de prevenção e combate às queimadas e ao desmatamento apoiada em inteligência artificial e controle social, além de assistência técnica para a regularização do Cadastro Ambiental Rural. Maria do Carmo Seffair (PL), empresária, aposta na revisão do zoneamento ecológico-econômico e no monitoramento por satélites e drones, associando o licenciamento ambiental simplificado à exploração econômica, inclusive mineral.
Já o candidato Omar Aziz (PSD), ex-senador e ex-governador do Estado, estabelece uma meta de redução do desmatamento em 15% nas áreas elegíveis ao Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) até o ano de 2028 e propõe a plataforma “Sentinela da Floresta 2.0”, além de R$ 400 milhões anuais para pagamentos por serviços ambientais e incentivos à bioeconomia.
A disputa coloca em pauta que papel a floresta terá no modelo de desenvolvimento e como isso será possível.
BR-319
A BR-319 é um dos pontos em que as diferenças de visão do papel do Estado ficam mais evidentes. Nos planos, ela funciona como síntese da visão de até onde a infraestrutura deve avançar e sob quais condições ambientais, fundiárias e sociais?

Enquanto David Almeida apoia formalmente a recuperação e a conclusão da pavimentação do trecho central da rodovia e Omar Aziz propõe um gabinete específico para tratar da estrada junto ao governo federal, Isael Munduruku condiciona qualquer avanço à Avaliação Ambiental Estratégica, à consulta prévia aos povos afetados e à criação de barreiras contra a grilagem.
Cabo Daciolo também condiciona sua alternativa logística a estudos de viabilidade, licenciamento rigoroso e consulta aos povos indígenas, além de propor estudos para a implantação de uma ponte sobre o Rio Solimões (ligando Manacapuru a Manaquiri) como um corredor complementar de acesso à BR-319. Gilberto Vasconcelos não menciona nominalmente a BR-319, mas questiona grandes projetos viários associados ao agronegócio e ao extrativismo predatório e propõe um sistema de transporte fluvial estatal voltado à produção familiar e ao extrativismo.
O candidato Roberto Cidade prioriza o transporte multimodal e a adaptação das infraestruturas às variações climáticas extremas. Ele também insere a articulação da obra junto à União como parte do plano de infraestrutura rodoviária e recuperação de rotas estaduais. A candidata Maria do Carmo Seffair concentra parte da estratégia como requalificação de estrada estratégica ao turismo e parte como integração, reduzindo o tempo e o custo dos deslocamentos.
Bioeconomia
A economia da floresta é apresentada por diferentes caminhos entre os candidatos. Roberto Cidade propõe o programa “Bioamazônia”, com polos regionais para processamento de açaí, castanha, fitoterápicos e óleos, além de fundos climáticos e crédito verde. Omar Aziz fala em “Bioindústrias Amazônicas” e na adaptação dos incentivos da Zona Franca para processar produtos da sociobiodiversidade no interior.
David Almeida propõe a certificação “Origem do Amazonas” e equipamentos para extrativistas. Maria do Carmo Seffair aposta na atração de investimentos privados para o processamento de matérias-primas e no mercado de carbono.
Em outra direção, Gilberto Vasconcelos questiona a dependência do modelo da Zona Franca e defende agroecologia, agricultura familiar, assistência técnica das universidades e compras públicas de pequenos produtores. Isael Munduruku coloca a gestão da bioeconomia nas mãos das populações que vivem no território e prevê mecanismos para impedir a apropriação indevida de matérias-primas e conhecimentos.
Cabo Daciolo também apresenta a Zona Franca como patrimônio estratégico, mas vinculada à integração de fornecedores locais e ao conhecimento científico regional.
O cientista político Ademir Ramos analisa que a discussão ambiental não deveria ser tratada como um setor separado da economia. Ele observa que os debates eleitorais pouco avançam sobre “um projeto de uma economia verde capaz de integrar o processo produtivo tanto no Polo Industrial de Manaus como também nos projetos e programas geradores de renda no interior do Estado”.
Na avaliação de Ramos, a própria Zona Franca poderia agregar mais valor aos seus produtos se estivesse plenamente associada à sustentabilidade.
Povos indígenas e comunidades tradicionais
Os povos indígenas e comunidades tradicionais aparecem em todos os sete documentos, mas com diferentes graus de centralidade.
Isael Munduruku é o candidato que apresenta essa dimensão como eixo estrutural, com proposta de criação de uma Secretaria dos Povos Indígenas, Plano Plurianual Indígena, aplicação da consulta prévia, reconhecimento da medicina tradicional e aceleração da titulação coletiva de territórios quilombolas e ribeirinhos.
Gilberto Vasconcelos defende demarcação e homologação de terras indígenas e quilombolas, o fim do Marco Temporal e mudanças relacionadas à presença de empreendimentos em territórios tradicionais.
Cabo Daciolo propõe um programa específico para os povos do Amazonas: os municípios de Atalaia do Norte e o Vale do Javari são apontados como projeto-piloto para uma presença integrada do Estado, com serviços de segurança, saúde, cidadania e proteção ambiental, mediante diálogo e consulta às comunidades. O plano também prevê cooperação com a União em temas de competência federal, respeito aos direitos territoriais e aos mecanismos de consulta prévia, além de educação adaptada às especificidades culturais e territoriais das comunidades indígenas, do campo, das águas e das florestas. Já Roberto Cidade fala em incluir as populações tradicionais nas políticas de desenvolvimento sustentável e fortalecer cadeias extrativistas.
David Almeida propõe o projeto “Raiz”, voltado à garantia de direitos e à capacitação de agentes indígenas de saúde. Maria do Carmo Seffair enfatiza a interiorização de serviços, conectividade e qualificação profissional para esses povos, equanto Omar Aziz propõe fundo estadual de saúde para povos tradicionais, telessaúde e mecanismos de REDD+ com repartição de recursos em unidades de conservação e terras indígenas.
Para Marcelo Seráfico, essa diferença ajuda a organizar os planos em dois grandes campos. De um lado, ele identifica o que chama de “modernização de mercado”, associada a Omar Aziz, Roberto Cidade e Maria do Carmo. De outro, o “protecionismo socialmente orientado”, no qual situa Isael, Gilberto e Daciolo.
“Essa diferença conceitual, porém, não se traduz na explicitação das estratégias políticas de articulação a serem adotadas com os demais entes federativos como a própria União e municípios para a implementação dos programas e projetos propostos. Essa informação seria importante [nos planos de governo] para avaliar que grupos e camadas sociais, organizados ou não, tendem a apoiar ou a resistir a esses empreendimentos, logo, impondo dificuldades ou colaborando para sua realização”, avalia.
Queimadas
O Amazonas atravessa um período em que estiagem, calor, queimadas e fumaça podem ocorrer simultaneamente. Em agosto, o Ministério Público de Contas do Amazonas alertou para a combinação de estiagem severa, calor extremo, incêndios, fumaça e poluição do ar, com possíveis impactos sobre transporte, abastecimento e serviços essenciais.



Em setembro, o problema voltou a ganhar dimensão concreta. O MPC-AM passou a reunir dados sobre níveis dos rios, focos de calor, queimadas e qualidade do ar. Em 27 de setembro, o INPE registrou 1.294 detecções multi satélite de focos no Amazonas, mais que o dobro das 566 registradas no dia anterior.
Em Manaus, a Defesa Civil municipal registrou, em 9 de setembro, concentração de partículas finas de 87,6 µg/m³, classificada como “muito ruim”, associando a presença de fumaça ao transporte de partículas provenientes de áreas de queimadas do sul do Amazonas, norte de Mato Grosso e Rondônia.
É nesse cenário que os planos apresentam variados graus de resposta operacional e preventiva.
Cabo Daciolo fala em brigadas comunitárias e bombeiros fluviais. Roberto Cidade propõe um plano permanente para cheias e estiagens. Gilberto Vasconcelos associa a crise à expansão do agronegócio e do extrativismo predatório e defende recuperação de rios e igarapés e saneamento.
Isael Munduruku propõe uma abordagem de justiça climática e saúde pública, com alertas de fumaça, distribuição de máscaras, salas de ar limpo, apoio emergencial durante secas e cheias e brigadas comunitárias permanentes.
David Almeida propõe um plano estadual de adaptação com foco na gestão de riscos, resiliência hídrica e alimentar e soluções baseadas na natureza. Maria do Carmo Seffair aposta no monitoramento tecnológico e na resposta rápida. Omar Aziz propõe modelos de inteligência artificial para previsão de secas e queimadas em parte significativa do território e aponta a necessidade de ampliar o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil.
A própria estrutura pública já reconhece que a emergência exige preparação. Em junho, o Estado publicou declaração preventiva de emergência climática e ambiental associada às projeções de El Niño. Também foi elaborado um Plano de Contingência da saúde para eventos de seca e estiagem, diante do aumento da frequência e intensidade desses episódios.
Quem paga?
É justamente aí que uma das maiores lacunas da análise aparece. Poucos documentos explicam de maneira detalhada quanto custará manter brigadas permanentes, ampliar a fiscalização ambiental, adaptar estruturas públicas ou garantir atendimento às populações do interior durante eventos extremos.
Segundo a análise comparativa, apenas Omar Aziz e Roberto Cidade apresentam de forma sistemática as fontes de financiamento das propostas. Isael Munduruku descreve mecanismos de arrecadação e revisão de gastos, mas sem apresentar valores nominais. Nos demais planos, as referências financeiras são pontuais ou genéricas.
Omar apresenta o detalhamento financeiro mais extenso, incluindo R$ 400 milhões anuais para pagamentos por serviços ambientais, além de recursos de fundos estaduais, federais e mecanismos como títulos verdes. Roberto Cidade cria uma seção recorrente no plano intitulada “Como vamos pagar essa conta”, indicando diferentes fontes para preservação, clima e infraestrutura.
Isael propõe rever renúncias e incentivos fiscais, combater sonegação e fraudes fundiárias e captar recursos de fundos climáticos, inclusive por meio de orçamento participativo territorial. Nos demais planos, a origem dos recursos aparece com menor precisão.
Para o cientista político Marcelo Seráfico, mesmo quando há indicação de recursos, não se tem garantias de onde, exatamente, esse dinheiro será aplicado e segundo quais critérios?
Ele observa que os documentos mencionam regiões como o sul do Amazonas, mas não detalham suficientemente o que será feito em cada zona do Estado. “Não é possível saber os critérios que nortearão os investimentos”, resume.
O que fica de fora
Outra lacuna nos documentos é quanto à regularização fundiária. Os planos falam em titulação coletiva, Cadastro Ambiental Rural, controle territorial e combate à grilagem. Mas a análise identifica pouca clareza sobre como enfrentar a sobreposição de cadastros, as fraudes cartoriais e a ocupação irregular de terras públicas não destinadas sem produzir novos conflitos.
O Varadouro entende que esta é uma questão decisiva para qualquer política de combate ao desmatamento, de desenvolvimento e de preservação. Monitoramento via satélite mostra onde a floresta está sendo derrubada, mas não constrói soluções. Perguntas como quem tem direito à terra, quem ocupa determinado território, quem se beneficia da exploração e como responsabilizar as cadeias econômicas que financiam ou absorvem essa produção é que precisam ser respondidas.
O problema fundiário, nesse sentido, é uma espécie de ponto cego entre a tecnologia de monitoramento e a realidade social do território.
O Varadouro também observa que não há projeto nem proposta para a pergunta: “quanto custa adaptar o Amazonas à nova realidade climática e de onde virá o dinheiro?”
O cientista político Ademir Ramos chama atenção também para os debates eleitorais, nos quais, segundo sua avaliação, o meio ambiente ocupa pouco espaço diante da dimensão que a questão assume para o Amazonas.
Para ele, existe uma contradição entre planos que reconhecem formalmente a legislação ambiental e uma compreensão ainda insuficiente da floresta como um ecossistema capaz de condicionar os próprios investimentos econômicos.
A crítica se estende ao comportamento institucional. Ramos cita como exemplo a participação do Amazonas e da Suframa na COP30 e sustenta que as ações de governo podem entrar em contradição com os projetos registrados junto à Justiça Eleitoral.
O Amazonas entra em um novo ciclo eleitoral carregando a combinação de ser um território estratégico para a regulação climática, que tem uma economia ainda fortemente dependente da Zona Franca, com enormes desigualdades sociais, comunidades espalhadas por uma vasta rede fluvial e uma sucessão de eventos extremos que pressionam infraestrutura, saúde, abastecimento e transporte. Tudo sem resposta.
*A reportagem contou com auxílio de Inteligência Artificial para filtrar nos planos de governo, as propopostas relativas aos principais temas dentro da agenda socioambiental que o veículo considera relevante em sua cobertura jornalística.