O AGRO TÓXICO

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Ataque a cafezal em Xapuri expõe prática indiscriminada e descontrolada de despejo de veneno com drones no Acre

O sonho de uma vida agora ameaçado pelo despejo de veneno com drone sobre o cafezal; entre seus pés de café, o agricultor Sebastião de Oliveira tenta se recompor e manter a esperança na Justiça (Foto: Cedida/Varadouro)




Caso de produtor que teve cafezal atingido por agrotóxico pulverizado com drone em Xapuri se soma a denúncias registradas em Acrelândia e Rio Branco; investigação do MP identificou 447 hectares de floresta possivelmente atingidos por “desmatamento químico”. Assim como em outras regiões do estado, caso pode estar relacionado a disputas por terra.



João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco

O delegado Luccas Vianna Santos, da Delegacia de Polícia Civil de Xapuri, tenta há mais de dois meses identificar o autor de um atentado contra o cafezal do produtor José Sebastião de Oliveira, vencedor da 3ª edição do Qualicafé (Concurso de Qualidade do Café Robusta Amazônico do Acre). Utilizando um drone, o criminoso lançou veneno sobre parte da plantação, localizada em um lote do antigo Seringal Boa Vista, no bairro da Sibéria, no município de Xapuri (distante 187 km de Rio Branco)

O prejuízo só não foi maior porque, entre as nove e as dez da noite de 27 de março, Sebastião ainda estava acordado e se sentindo inquieto. Ao sair para o quintal da casa, ouviu o zumbido do drone e avistou suas luzes sobrevoando a lavoura. Correu em direção ao equipamento, fazendo com que o operador fugisse. Na manhã seguinte, percebeu o forte cheiro de veneno. Um dia depois, as folhas começaram a amarelar e, em seguida, secaram.

“Foi uma ação covarde. Eu e minha esposa cuidamos das plantas com todo carinho. Estamos nos preparando para disputar mais um concurso, em outubro, e essa pessoa veio até aqui, invadiu nossa plantação para destruir. Jamais imaginei que alguém pudesse fazer uma coisa dessas”, lamenta Sebastião.

A propriedade fica a cerca de três quilômetros do centro de Xapuri. São 16 hectares cultivados com aproximadamente nove mil pés da variedade especial robusta amazônica, uma espécie desenvolvida numa parceria da Embrapa de Rondônia com o IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e cafeicultores do estado vizinho.

A variedade é conhecida pela diversidade de bebidas especiais extraídas de seus grãos. O cafezal de Sebastião produz café com notas sensoriais de caramelo tostado, pudim de leite e chocolate meio amargo entre outros. Ao contrário das variedades de café comuns, cotadas em cerca de R$ 1 mil a saca, os grãos do Sebastião são comercializados a R$ 5 mil a saca.

A excelência da produção lhe rendeu o primeiro lugar – entre 48 produtores inscritos – no 3º Qualicafé. O troféu veio acompanhado de um Pix de R$ 55 mil. Na edição anterior, também figurou entre os 15 melhores produtores, o que lhe abriu portas para participar de dois concursos internacionais em Belo Horizonte.

O ataque criminoso foi registrado pela Polícia Civil como dano qualificado por motivo egoístico ou com prejuízo considerável, crime previsto no artigo 163, parágrafo único, inciso IV, do Código Penal.

Embora a tipificação mencione “motivo egoístico”, expressão que pode ser associada à inveja, nos muros baixos de Xapuri a suspeita mais comentada é a de que o crime tenha sido motivado por interesses financeiros.

Segundo moradores, o sucesso da produção de café estaria contrariando interesses de pessoas que contestam na Justiça a sentença de usucapião que regularizou a posse das terras ocupadas há décadas no antigo Seringal Boa Vista.

Sebastião explica que as terras do seringal eram exploradas por uma empresa, em regime de concessão do governo do estado. A empresa teria abandonado as terras que acabaram sendo ocupadas em 2007 por 33 famílias.

Em 2015, Sebastião adquiriu o lote dos herdeiros de um posseiro falecido e, em 2016, iniciou processo de regularização através de usucapião na Comarca de Xapuri. Em 2019 obteve sentença favorável.



Intoxicação aérea


O ataque ao cafezal de Sebastião em Xapuri está longe de ser um caso isolado. Nos últimos anos, o uso de drones para pulverizar agrotóxicos tem aparecido com frequência crescente em denúncias feitas por comunidades rurais de diferentes municípios do Acre. O veneno lançado do alto atravessa os limites das propriedades, atinge plantações, florestas, igarapés e coloca em risco a saúde das famílias que vivem e produzem nessas áreas.

Em Acrelândia, pequenos e médios produtores de banana e café também relatam prejuízos provocados pela deriva de agrotóxicos pulverizados com drones em grandes propriedades vizinhas. Em abril de 2024, o Varadouro revelou ainda o despejo de veneno sobre uma área de floresta e um igarapé no Ramal do Granada.

Imagens mostravam árvores secas e sem folhas nas proximidades de pastagens, enquanto agricultores denunciavam o uso do produto químico como estratégia para matar a vegetação e ampliar áreas de criação de gado – é o chamado “desmatamento químico”, que substitui as motosserras e correntões pelo veneno despejado do alto com drones.

A dimensão desse tipo de prática ficou ainda mais evidente em 2026, durante uma investigação do Ministério Público do Acre (MPAC) nos seringais São Bernardo, Porongaba, São Sebastião e Sacado, na zona rural de Rio Branco. Uma análise do Núcleo de Apoio Técnico (NAT) do órgão identificou nove alertas de degradação florestal compatíveis com a dispersão aérea de substâncias químicas.

No Acre, o cultivo de café, para além de uma fonte de renda, passou a ser sinônimo da recuperação de áreas degradas e desmatadas, assegurando qualidade de vida para as famílias do campo (Foto: Ramon Aquim/Varadouro)



Aproximadamente 447 hectares de floresta podem ter sido atingidos pelo “desmatamento químico”, utilizado para provocar a morte da vegetação sem recorrer imediatamente à derrubada convencional.

Segundo o MP, a degradação avançava de leste para oeste, em um padrão compatível com a pulverização aérea, e teria alcançado inclusive Áreas de Preservação Permanente (APP). Também foram registrados relatos de adoecimento de moradores após o consumo de água de um riacho possivelmente contaminado.

Até então, não havia comprovação de registro dos produtos, receituário agronômico ou habilitação dos drones e operadores. Diante dos indícios, o órgão recomendou a suspensão imediata das pulverizações e a realização de uma fiscalização conjunta pelo Imac e pelo Idaf.


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Assista ao vídeo produzido por moradores do Seringal São Bernardo mostrando a devastação ocasionada por pulverização de veneno com drone



Da fruticultura ao cafezal


Quando adquiriu as terras no antigo Seringal Boa Vista, Sebastião iniciou uma produção de melões, melancias e pepinos. Toda a produção era destinada às redes de supermercados Araújo, Mercale e Hernandes, em Rio Branco. Mas a cafeicultura estava no sangue de Sebastião. Seu pai, migrante mineiro radicado em Rondônia, plantou café em Ji-Paraná, mas não vingou.

Em 2021, tendo conhecimento através de parentes sobre o sucesso da variedade robusta amazônico iniciou sua plantação consorciada com as frutas. Em 2023 veio a primeira colheita: três sacas de 60 quilos. Em 2024, colheu 60 sacas; em 2025, 150 e neste ano a expectativa é de 200 sacas.

O ataque, no entanto, comprometeu parte da lavoura, e o tamanho do prejuízo só poderá ser calculado ao fim da colheita.

“Eu não tenho nenhum suspeito e não quero acusar ninguém. Só espero que a polícia descubra quem fez isso para que não volte a acontecer”, afirma.

Á plantação de café, que nos últimos anos passou a ser um dos principais investimentos entre pequenos e médios produtores acreanos como forma de ampliar a renda, agora também é vítima de um despejo irresponsável e descontrolado de veneno via aérea. Situações como as vividas por Sebastião são um verdadeiro desestímulo para quem trabalha na lida da terra para sustentar a família.

O cultivo de café também passou a ser um importante componente em processo de recuperação de áreas degradadas e no reflorestamento. Considerando a prática de plantar seus pés em meio a espécies nativas da floresta em áreas que antes estavam desmatadas, pequenos e médios produtores em toda a Amazônia conseguem agregar ainda mais valor ao produto.

Agora, contudo, a prática parece estar em risco ante as ações criminosas e irresponsáveis ocasionadas pelo despejo de agrotóxico com o uso de drones – além da omissão completa do poder público diante de tais casos.

Por meio da assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), o delegado Luccas Vianna informou que as investigações continuam em andamento, mas disse que não pode comentar o caso porque o inquérito corre sob sigilo.

“Por se tratar de investigação sigilosa, a Polícia Civil não pode fornecer detalhes sobre depoimentos, possíveis suspeitos ou outras informações que possam comprometer o andamento das apurações”, informou a corporação.

O novo episódio de Xapuri reforça que os drones, apresentados como símbolo da modernização do campo, também vêm sendo usados de forma irregular e potencialmente criminosa.

Do Alto Acre ao Alto Juruá, plantação de café ganha força em meio à valorização do produto no mercado, permitindo que pequenos e médios produtores obteham bons retornos financeiros (Foto: Marcos Vicentti/Secom/Acre)



Entre a deriva que destrói plantações vizinhas e o despejo deliberado de veneno para matar a floresta, são agricultores familiares, comunidades extrativistas, fontes de água e a própria floresta que permanecem expostos – enquanto a fiscalização ainda tenta alcançar uma prática que se espalha rapidamente pelo estado.

Varadouro entrou em contato com a assessoria de comunicação do governo para saber quais medidas órgãos como o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) e o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf) adotam para controlar e fiscalizar a prática de despejo de veneno com o uso de drone, e quais medidas já foram adotadas para punir eventuais irregularidades. Até a publicação desta reportagem não houve o envio de respostas.

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