NEGÓCIOS ARMADOS

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Vídeo registra homens com armas negociando terras no PAE Porto Dias, em Acrelândia

Portal de entrada do Acre pela BR-364, Acrelândia é o principal palco de disputas por terra no Acre, deixando famílias de pequenos e médios agricultores vulneráveis ao assédio (e ameaças) do grande latifúndio (Foto: Fabio Pontes/Varadouro)




Diálogo gravado em área de conflito revela medo, circulação de armas e sensação de abandono pelo Estado em região marcada pela grilagem e a violência na tríplice divisa Amacro. Desde 2024, PAE Porto Dias é palco de intensos e violentos conflitos fundiários, colocando Acrelândia no epicentro da violência do campo no estado.


João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco

Um vídeo gravado por trabalhadores rurais do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Porto Dias, em Acrelândia (distante 100 km da capital Rio Branco), registra uma reunião entre ocupantes da área e três homens apontados como responsáveis pela destruição de casas e plantações dos pequenos agricultores. Um deles, que demonstra liderar o trio, seria filho de um dos primeiros colonos do PAE conhecido como Zé Osmar. Na gravação, os participantes discutem a posse de terras dentro do assentamento, mencionam a presença de armas com o trio e negociam uma possível compensação financeira para encerrar o conflito fundiário.

Durante a gravação, um dos participantes afirma que algumas pessoas presentes estariam armadas. Em determinado trecho, são feitas referências a uma espingarda calibre 12, uma pistola e outro armamento guardado em uma bolsa do filho de Zé Osmar. Além disso, um terceiro homem, chamado de “amigão”, carrega uma sacola pesada supostamente contendo armas.

Apesar disso, os envolvidos afirmam buscar uma solução pacífica para a disputa. A conversa evolui para uma negociação sobre a permanência na área. O filho do Zé Osmar responde: “agora você falou a minha língua”.

Ele afirma ter adquirido parte das terras em 2013 por R$ 320 mil. “Eu paguei 320 mil em 2013”, diz ele durante a gravação, acrescentando que a área teria cerca de 470 hectares e que os antigos proprietários ainda estariam vivos.



Em outro momento, os interlocutores discutem a possibilidade de um acordo financeiro para encerrar o impasse. Um dos participantes sugere que os ocupantes paguem pela área reivindicada, enquanto o suposto proprietário afirma que deixaria o local caso fosse ressarcido.

“Se pagou, eu saio. Se pagar de manhã, em dez horas você não vai ver mais meu rastro”, declara.

O vídeo também registra acusações relacionadas à destruição de benfeitorias dentro da floresta. Participantes mencionam uma casa incendiada e o desaparecimento de objetos e alimentos pertencentes a famílias que vivem na região.

O homem ironiza, diz que a destruição foi feita pelo caboclinho da mata, figura do folclore amazônida encarregado de proteger os animais da floresta.

Apesar do clima de tensão, parte dos envolvidos defende que a disputa seja resolvida pela via judicial. “Não adianta ninguém estar brigando por causa de terra. Só a Justiça”, afirma um dos homens.

Porto Dias e a nova corrida pela terra na divisa Amacro


Desde 2024 o PAE Porto Dias é alvo de operações conjuntas entre órgãos federais contra crimes ambientais e grilagens; mesmo assim, ambiente ainda é de violência com atuação de jagunços armados (Foto: Ascom PFAC)



Desde 2024, sucessivas reportagens do Varadouro mostram a situação de tensão e ameaças dentro do PAE Porto Dias. Operações da Polícia Federal com o apoio do Incra e do Ibama tentam conter as práticas conjuntas de crimes ambientais relacionadas a desmatamento e grilagem.

Em outubro de 2024, a PF desencadeou a operação Usurpare, que prendeu seis pessoas supostamente ligadas à Liga dos Camponeses Pobres (LCP) de Rondônia. À época, lideranças camponesas do Acre e de Rondônia ouvidas por Varadouro negaram a participação da LCP na prática de crimes ocorridos dentro do PAE Porto Dias, que está no centro da tríplice divisa Amacro, região formada pelo encontro dos territórios do Amazonas, do Acre e de Rondônia.

A área é marcada por intensos e violentos conflitos fundiários, com a atuação de pistoleiros e milícias rurais.

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O PAE Porto Dias guarda uma das sínteses mais emblemáticas das transformações que avançam sobre a Amazônia acreana nos últimos anos. Ali, onde famílias assentadas e seringueiras construíram suas vidas em meio à floresta, os conflitos pela posse e uso da terra voltaram a ganhar intensidade, acompanhando o avanço da fronteira agropecuária que se estende entre Acre, Amazonas e Rondônia.

Dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que o Acre registrou 75 conflitos no campo em 2025, envolvendo mais de 30 mil pessoas. Desse total, 72 ocorreram em disputas por terra. Acrelândia aparece como o principal epicentro dessas ocorrências.

Somente na região do Porto Dias, a CPT registrou dois conflitos, envolvendo 74 famílias assentadas. O relatório também contabiliza um conflito no vizinho Seringal Porto Dias, envolvendo 80 famílias seringueiras.

Os números revelam apenas parte de uma realidade mais complexa. No entorno de Porto Dias, multiplicam-se disputas em comunidades, glebas e ocupações de trabalhadores rurais, muitas delas localizadas ao longo da BR-364 – entre Rio Branco e Porto Velho.

Os conflitos registrados em Acrelândia não podem ser compreendidos de forma isolada. Eles fazem parte de um processo regional associado à chamada Zona Amacro, área formada por 32 municípios do Amazonas, Acre e Rondônia que se consolidou como uma das principais fronteiras de expansão do agronegócio e do desmatamento na Amazônia.

A BR-364 entre Rio Branco e Porto Velho, o centro da zona Amacro; divisa entre AM, AC e Ro é um dos epicentros para a expansão do agronegócio – e dos crimes ambientais na região amazônica (Foto: Gleilson Miranda)



Nos últimos anos, a região passou a atrair investimentos ligados à pecuária extensiva, ao mercado de terras e à abertura de novas áreas para o monocultivo da soja. O movimento tem provocado uma valorização acelerada das propriedades rurais e aumentado a pressão sobre assentamentos, territórios extrativistas e áreas ocupadas por pequenos produtores.

Para a CPT, a Amacro representa hoje um dos principais vetores de avanço sobre territórios tradicionais amazônicos, reproduzindo dinâmicas historicamente associadas à grilagem de terras, ao desmatamento e à concentração fundiária.

Em Acrelândia, município de entrada do Acre pela BR-364, e que nasceu durante os ciclos de ocupação incentivados pelo governo federal nas décadas de 1970 e 1980, esses processos voltam a se manifestar de maneira intensa.

A concentração dos registros em Acrelândia reforça a posição estratégica do município dentro do corredor de expansão da Amacro. Situada próxima à divisa com Rondônia e conectada pela BR-364, a região tornou-se uma das portas de entrada para a ocupação econômica do agronegócio que avança sobre a floresta.

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Para organizações sociais e entidades que acompanham a questão agrária, os episódios registrados no PAE Porto Dias são um alerta de que a pressão sobre a terra continua crescendo, mesmo após décadas de políticas de reforma agrária e criação de áreas destinadas ao uso sustentável dos recursos florestais, como os Projetos de Assentamento Extrativistas.

Um dos aspectos que mais chamam atenção nos registros da CPT é a diversidade dos grupos sociais envolvidos nos conflitos. Além das famílias assentadas do PAE Porto Dias, aparecem nos levantamentos posseiros, seringueiros e moradores de comunidades rurais espalhadas pela região.

Essa multiplicidade revela que as disputas não se restringem à propriedade formal da terra. Em muitos casos, envolvem territórios historicamente ocupados por populações que dependem da floresta, da agricultura familiar e do extrativismo para sobreviver.

Enquanto grandes áreas são incorporadas ao mercado fundiário, comunidades tradicionais enfrentam incertezas sobre a permanência em seus territórios e sobre a regularização definitiva de suas posses.

Além de terem que conviver com o medo e as intimidações impostas pelo Jaguncismo 2.0, onde a ausência do Estado deixa um território livre para a atuação de grupos armados – e fortemente armados – apoiados pelo grande latifúndio e, agora, pelas facções criminosas.

Desde 2018 a região do Baixo Acre, no leste do estado, é o epicentro para a expansão do monocultivo no estado, criando uma corrida pela terra e a intesnficiação das disputas fundiárias na Amazônia (Foto: Marcos Vicentti/Secom)
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